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20.6.09

Os jovens não deveriam morrer


Abri meu Orkut hoje à tarde e estava lá o recado: um jovem ex-aluno, de apenas 17 anos, havia falecido na madrugada devido a problemas cardíacos... De início, o choque e a mudez. Difícil de acreditar. Depois, o espanto... Como assim, caramba?!


Como um jovem cheio de vida, alegre e brincalhão pode ser calado pelo próprio coração? O coração de um jovem não deveria ser inquebrantável e forte? Não deveria estar acima de todas as patias, de todas as falhas estruturais e funcionais? O coração de um jovem não deveria sofrer apenas das dores próprias da idade: uma paquera que não se consumou, a gatinha que deu o toco, a mina que lhe deu um pé na bunda... essas coisas? Apenas 17 anos!!! Todos os músculos definidos e malhados, todos em plena forma... Todos, menos o mais importante... Marlon Mike era seu nome, também conhecido como "Orelha". Mas gostava de ser chamado de Marlinho Brown: era fã do Cris Brown, parecia mesmo um pouco com o cantor de hip-hop. Era marrentinho que só. Mas, ao mesmo tempo, dono de um sorriso que cativava a todos. Brincalhão e bem-humorado, adorava tirar sarro da minha cara e imitar meu jeito de dar esporro nos alunos. Os outros alunos, e até mesmo os colegas professores, se mijavam de rir quando ele impostava a voz, empertigava-se todo e repetia a todo pulmão o meu bordão típico para repreender os alunos... Tivemos nossas divergências, isso é fato. Dei-lhe algumas advertências por indisciplina, mas eu tinha um carinho muito grande por esse rapaz. Aliás, como tenho por todos os alunos... Eles sabem que mesmo os meus esporros mais violentos e ferozes são uma forma de dizer “eu te amo, moleque!”.


E aí, a gente para pra pensar nesse papo de morrer jovem. Morrer jovem é algo muito, mas muito esquisito mesmo. É de uma ironia sem a menor graça. De um espanto em que não cabem argumentos. Morrer jovem é muito estranho. Não tem como não lembrar do clássico “Love in the afternoon” do Legião Urbana que diz: “É tão estranho. Os bons morrem jovens...”

Morrer jovem é como interromper uma música, é como cortar um filme ao meio, rasgar as páginas de um livro sem lhe saber o final. É arrancar de cena um ator em seu momento mais fantástico, em seu grande ato, sua cena mais brilhante. Morrer jovem é injusto. Injusto como as leis da natureza. Injusto com o que parte. Mas muito mais injusto com os que ficam.


Porque quem morre jovem fica sem ter o que dizer. Vai calado, num silêncio frustrante. Não tem quase história para contar, não tem quase passado... e não terá futuro. Quem morre jovem, não importa como tenha morrido, tem morte súbita: é quase um “à queima-roupa” sem possibilidade de defesa. Porque é “de repente” o morrer jovem. Fica aquela sensação de poder ter feito mais. Poder ter dito mais. Aquela frustração de quem não voltou para o segundo tempo do jogo.

Morrer jovem é fazer uma contabilização sempre negativa: é descontar, é subtrair somente. É contar os abraços que deixou de abraçar, os beijos que deixou de beijar, as obras que deixou de realizar, os sonhos que deixou de sonhar, a formatura que não aconteceu, o carro que queria e não veio, a namorada que amava demais da conta e que não se deu conta de que você se foi. Morrer jovem é triste porque a velhice é o estado que se espera de todos e a juventude deveria ser apenas uma ponte para ela. A juventude deveria ser um “acontecendo”, um “sendo” e a gente sempre se achando bem, se sentindo forte, audaz, capaz, feliz. Quando se morre jovem, se desdiz tudo o que tinha de ser. É a contramão da história. O retorno mais cedo de uma viagem que nem sequer chegou a existir... as malas nem foram feitas.

Morrer jovem é não ter tido tempo. Não ter conhecido a beleza, não ter dado satisfação a ninguém, não ter explicado, não ter dado “até logo”, ter ido direto ao “adeus”. Caraca, maluco! Morrer jovem é de uma falta de educação tremenda! É nem pedir licença para levantar e sair. Morrer jovem é não comparecer ao compromisso, é marcar a reunião e não ir. É fazer todo mundo de bobo. Dar um drible na galera, nos parentes, no cachorro. Morrer jovem é faltar a tudo que estava na agenda... Morrer jovem é uma puta deslealdade! Morrer jovem é uma traição da vida em conluio com a morte. É uma armação para desesperar mães...


Morrer jovem é um deboche sem tamanho! Marlon Mike sempre foi um debochado... Mas, porra, dessa vez precisava exagerar assim?!




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