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28.11.10

Menos leviandades, mais leveduras!

ou
A insustentável leviandade do ser




(Autoria da foto: Edmilson Borret - 19/04/2009)



Meu caro amigo, pode ir lá procurar no Aurélio, ou no Houaiss, ou no Caldas Aulete. Ou, se a preguiça for muita, pode ir de Google mesmo. Em todas essas fontes, porém, você tomará conhecimento de que leviano é um adjetivo e significa: aquele que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente; sem seriedade, inconstante. Para os que apreciam um passeio pela história da língua, a etimologia nos diz que “leviano” tem a mesma origem de “leve”: o que não pesa, o que não aprofunda, o que fica na superfície das coisas, sem a coragem ou a disposição necessárias para o mergulho. Leviana é a pessoa que não pesa devidamente, ou seja, não sabe dar o peso real aos problemas ou situações que se apresentam. E, por não sabê-lo, acaba por lançar mão de sobrepesos, por falsear as medidas, tombando um pouco mais o prato da balança para o lado que melhor lhe convier no momento...

No entanto, por não me considerar um sujeito perfeito nem detentor de nenhuma verdade além daquela que experimento, eu ousaria lançar um questionamento desconcertante, porquanto bastante íntimo e pessoal, e até mesmo ético: quem, em toda a sua vida, nunca agiu de modo impensado, nunca foi precipitado ou imprudente? Quem, pelo menos uma vezinha na vida, nunca agiu sem seriedade ou foi tentado a carregar nos sobrepesos??!!

Não é preciso ter a clarividência dos sábios nem o autoconhecimento dos monges para nos darmos conta de que todos nós - alguns mais, outros menos - todos nós já fomos levianos alguma vez na vida. Assim sendo, esse deveria ser apenas mais um adjetivo que caracterizaria nossa humana condição de imperfeitos... O que me parece, porém, é que a leviandade passou a estar na base de muitas atitudes e escolhas recorrentes, especialmente aquelas que ganham destaque na opinião pública. A opinião pública, hoje magnificamente instaurada na figura da mídia, sempre foi norteadora das formas de se agir – para o bem ou para o mal.

Por conta da leviandade, já não amamos ou odiamos pelo que realmente somos e sentimos ou baseados naquilo em que realmente acreditamos: amamos ou odiamos preocupados com a repercussão desses amores e desses ódios no entorno e na platéia. Não conseguimos divisar mais quais são os valores que nos guiam, as verdades que nos conduzem. Perdemos descaradamente o bom senso, a noção de limite e a capacidade de crítica. Vivemos um momento insano onde algo, para ser correto, precisa necessariamente ser precedido de um “politicamente”.

E justamente por termos abandonado nossas referências sobre o que seja o sentir de verdade, terminamos por acreditar que temos muito mais direitos e muito menos deveres do que deveríamos nessas relações levianas e vazias que insistimos em manter. Mas a grande questão é que se a leviandade faz com que as pessoas analisem superficialmente as coisas, a preguiça também o faz e, não raro, a burrice também. Porque até para ser leviano é preciso ser espontâneo de verdade... mas a maioria das pessoas é covarde demais para tanta autenticidade.

E dessa forma, por leviandade ou por burrice, toda vez que nos esvaziamos do que poderia ser criativo, produtivo e transformador, chegamos mais perto das tragédias e da insanidade, das ações impulsivas e das escolhas desesperadas... Caímos, feito tolos que somos, em nossas próprias armadilhas e nem sequer nos damos conta disso. Caímos, caímos e caímos... numa queda vertiginosa de nos tirar o ar.

E você saberia dizer qual é a reação das pessoas que nos assistem? A mesma que a nossa diante da queda do outro: elas assumem o papel de “os donos da verdade”! Acusam, apontam o dedo, julgam, condenam, massacram, comportam-se tão monstruosa e indignamente quanto os mais terríveis levianos. E se chamam de justiceiros. Ah sim, justiceiros... Não mais levianos ou burros!

Perceba a falta de humanidade de ambas as partes: tanto de quem comete a insanidade quanto de quem aponta o dedo como se fosse perfeito.


Assim sendo, o remédio para a leviandade talvez fosse a levedura. Há muita leviandade em coisas que se dizem e que se fazem por aí justamente por não atentarmos para o tempo da levedura. Em vez da precipitação e da imprudência, por que não o banho-maria? Em vez da superficialidade das coisas, por que não a decantação? É preciso tempo e sentimento para tudo! “É preciso amor pra poder pulsar. É preciso paz pra poder sorrir. É preciso a chuva para florir...”


Mas nós, em nossa pressa, o que temos feito? Leviandades, meu amigo, nada mais que leviandades: maiores, menores, estrondosas, imperceptíveis... não importa o tamanho. Temos nos abandonado a inúmeras leviandades e continuamos nos achando os melhores, os mais corretos (politicamente ou não), os mais repletos de razões.

Portanto, meu amigo, chegue aqui bem pertinho: quero lhe dizer algo importante. Desse momento em diante, quero apenas encarar e desafiar o meu próprio dedo em riste e, muito mais do que justiça, quero pedir piedade: porque é disso que eu, você, todos nós estamos precisando. Pois, embora tendo “leviano” e “leve” a mesma origem, quero perder o peso dessa leveza nos ombros: o peso dessa insustentável leviandade do ser.

Um comentário:

jwcl, Jorge Willian disse...

Não, caro amigo, não quero a piedade destes que estão por aí. Eles passarão, e você e eu, apenas passarinhos. Quero, sim, a leveza dor ser, por mais insustentável que ela nos pareça. Leveza sem leviandade. Sem necessidade de piedade. Já dizia o poeta Cazuza: " Vamos pedir piedade, senhor, piedade/ para essas pessoas caretas e covardes". Piedade é pra elas. Não para os Cazuzas. O poeta doido varrido do nosso rock era leveza em seus deboches, e profundos em suas percepções do mundo. Assim meio parecido com você. Um abração.

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