Seguidores

Mostrando postagens com marcador biografias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador biografias. Mostrar todas as postagens

10.12.08

Meu vexame de amor por Zach Condon

.




Recentemente, por conta das chamadas da Globo para a nova microssérie, Capitu, fui tomado de uma paixão louca por uma voz... Aquela voz e aquela harmonia musical ficaram martelando em meus ouvidos. Fui pesquisar. Descobri Beirut e seu líder, Zach Condon: a paixão só fez se confirmar. A princípio, pensei tratar-se de uma banda folk do leste europeu, tamanha era a influência de sons e instrumentos que compunham o som dos caras, algo com forte característica da música dos ciganos. Logo depois, descobri tratar-se de um garoto, sim um garoto, de 21 anos de idade: a paixão tomou ares de obsessão...

A história de Zach Condon é, no mínimo, sui generis: por volta de seus 15 ou 16 anos de idade, deixa a sua escola em Santa Fé, Novo México (EUA), e parte para a Europa para conhecer novas e diferentes culturas. Durante dois anos convive apaixonadamente com a cultura italiana, francesa e, principalmente, toda a cultura dos Bálcãs, onde conheceu os membros da orquestra de Boban Markovic (a mais influente banda de folk cigano de toda aquela região). Ao regressar aos EUA, edita em 2006 dois EP’s - Lon Gisland e Elephant Gun - e, logo depois, um LP (sim, um LP) que reúne a maioria das canções desses EP’s de estréia - Gulag Orkestar - sob o nome Beirut, banda que conta também com Jeremy Barnes e Heather Trost, entre outros. O som do Beirut é inspirado nas diversas culturas européias que Zach conheceu na sua "digressão" e o registro folk balcânico está bem presente na maioria das suas músicas.

O seu primeiro single, "Elephant Gun" (essa mesma música da chamada da microssérie Capitu e que me encantou antes mesmo de eu saber quem a cantava), rapidamente se tornou um sucesso na comunidade indie mundial e o videoclipe ilustra bem a alma festiva da música, bem como o carisma singular de Zach Condon:



O segundo single, "Postcards From Italy", apaixonou mais pessoas pelo mundo inteiro e globalizou a música do Beirut. O clipe tem algo de nostálgico e retrata memórias da própria vida de Zach:



Os dois vídeos foram dirigidos por Alma Har’El, diretor israelense que, entre outros trabalhos, andou produzindo videoclipes também para Taylor Hawkins, baterista do Foo Fighters; para os Rolling Stones e para a Nikka Costa. Sobre sua parceria com Zach, logo após o lançamento do clipe de "Post cards from Italy", ele disse: "The young Zach Condon will be in my mind for the next few months."

O mais curioso do trabalho do Beirut é observar como um rapaz de apenas 21 anos pode ter tamanha sensibilidade, cantar com a alma, criar arranjos tão belos? Zach Condon gravou o seu primeiro álbum no seu próprio quarto. Intrigante pensar que um moleque tão jovem poderia compor e escrever canções de carga emocional tão forte, como se já tivesse vivido uma vida inteira quando na realidade não tinha ultrapassado sequer um quarto dela. Aí em seguida a gente vem a descobrir que ele nunca tinha pegado em todos aqueles instrumentos antes. Com seu espírito autodidata, Zach juntou tudo e foi tirando os sons que podia, buscando beleza e inspiração de pequenas notas até formar canções. Ou ouvir Gulag Orkestar e os dois EP’s de 2006, toma-se um susto. São tantos instrumentos e harmonias, com uma voz sofrida de quem realmente sente tudo aquilo que canta, que é impossível não se deixar seduzir pela sofisticação e beleza das canções. A atmosfera étnica é tão miscigenada que não tem como ter certeza de onde aquilo tudo poderia ter suas raízes enterradas; só uma ligeira desconfiança de que vinha lá do outro lado da Europa, das ruínas do pós-guerra em algum pequeno país da ex-Iuguslávia ou de ruas vazias de alguma cidade soviética esquecida após a Guerra Fria.

Beirut é algo mágico, que acende e acaricia a sensibilidade, que passeia na alma e expõe a ferida, é diferente e encantador. Em 2007 lançaram mais um EP, Pompeii, com três temas originais. Em agosto de 2007, lançam na internet o seu mais recente LP - The Flying Club Cup, onde Zach se mostra um músico mais maduro, mas não menos fantástico. The Flying Club Cup é o primeiro trabalho do Beirut como uma banda completa. Com produção mais caprichada, o novo disco traz a sonoridade mais para o oeste europeu, mostrando características e traços franceses. A inspiração inicial veio de uma foto que Zach sempre manteve nos estúdios pelos quais passou: a imagem de balões sobrevoando a torre Eiffel. Zach capricha na voz nesse segundo trabalho; chora menos e canta mais. A percursão foi enriquecida, com a ajuda da banda, é claro, e soa menos repetitiva. Pra afrancesar tudo ainda mais, tem o acordeão. É fechar os olhos e a gente parece ouvir o Rio Sena bem do seu lado.

Deixar de ser apenas uma pessoa para se tornar uma banda não levou embora, de maneira alguma, a personalidade do Beirut. A nostalgia e melancolia de Gulag Orkester ainda estão presentes, porém com a sofisticação orquestral de canções como "A Sunday Smile" e "In The Mausoluem". Esta segunda é impressionantemente linda:



A composição dos arranjos de cordas teve ajuda de ninguém menos que Owen Pallet, o homem por trás do Final Fantasy (não o desenho, por favor; falo do projeto canadense de orchestral-pop). Outro destaque do disco é o piano, como nas faixas "Cliquot" e em "Un Dernier Verre (Pour La Route)", onde, com notas graves, carrega a música sob os vocais de Zach. No outro extremo está a simplicidade e despretensão de canções como "Forks and Knives (la Fête)" e "Cherbourg".

Com humores que flutuam entre a tristeza e a saudade, The Flying Club Cup é um álbum intenso e arrebatador. É trilha sonora perfeita para momentos marcantes. E é justamente a terceira faixa, "A Sunday Smile", que nos revela isso. Afinal, um sorriso num domingo, o pior dia de todos, deve ser realmente em razão de algo muito especial, um acontecimento.

28.12.07

Benazir Butho




Este ano de 2007 termina com a morte de Benazir Butho, após ataque suicida, enquanto a ex-premier paquistanesa discursava num comício. Benazir vingou a morte do pai ao assumir o cargo de primeira ministra na década de 90. Quem se atreve a tentar pacificar o oriente médio morre.

Se você não sabe quem foi Benazir Butho, aí vai uma breve descrição:

Butho foi a primeira mulher a liderar um estado muçulmano. Herdeira de um enorme legado político, deixado por seu pai, depois de presa por cinco anos e de estudar em Oxford, foi Primeira Ministra do Paquistão em 88 e em 93. Por duas vezes, também, foi tirada do poder. Em 98, Benazir Buttho se auto-exilou em Dubai, até seu retorno em outubro deste ano, com a garantia de anistia e que todas as acusações de corrupção seriam retiradas pelo General Musharraf. Após sobreviver a diversas tentativas de assassinato, ontem, Butho foi vítima do um ataque coordenado de atiradores e de um homem-bomba. Butho foi uma das grandes personalidades políticas deste século. Foi a precursora da tentativa de estabelecer no Paquistão um estado democrático, mas apesar de sua popularidade e do avanço que Benazir Butho representou para a Palestina, as acusações de corrupção durante seus governos foram amplamente documentadas por diversos países, como França, Polônia, Espanha e Suíça. Uma das maiores acusações foi a de que Butho e seu marido venderam a exclusividade dos caças paquistaneses para a francesa Dassault Aviation.

Era mulher, bonita e corajosa... morreu ontem por causa disso tudo.

Em tempo: Voltou ao Paquistão porque Musharraf lhe havia garantido segurança.



Benazir


não aponte o dedo
para benazir butho
seu puto
ela está de luto
pela morte do pai
não aponte o dedo
para benazir
esse dedo em riste
esse medo triste
é você
benazir resiste
o olho que existe
é o que vê

(Chico César)

15.6.07

Sobre meninos, peraltagens e poesia... Manoel de Barros


Nascido em 1916, em Cuiabá, Mato Grosso, e depois de cursar Direito na capital do Rio de Janeiro, publicar alguns livros e já receber prêmios por eles, a partir de 1960 Manoel de Barros recolhe-se em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, para trabalhar como fazendeiro e criador de gado. Mas não abandonou o seu fazer poético a partir daí. Ele é, sem dúvida alguma, um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Em sua obra, segundo a crítica Berta Waldman, "a eleição da pobreza, dos objetos que não têm valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais".
Manoel de Barros, num dos seus poemas mais conhecido, nos fala do ato fazer poesia como se fosse o mesmo que carregar água em uma peneira. Para ele a poesia é uma criação que, no parco entender dos mais desavisados e menos sensíveis, não teria uma finalidade prática e objetiva, algo sem valor palpável ou mensurável. Entretanto, fazer poesia, para ele, seria também “montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos”, ou seja, seria trabalhar com uma lógica que, não raro, estaria para além do rotineiro e do previsível; seria olhar a realidade do mundo por uma ótica nem sempre objetiva. Fazer poesia é fazer “peraltagens” com as palavras, arrumá-las como quem cria um mundo particular capaz de produzir inexplicáveis efeitos em que lê. A poesia, aliás como toda a literatura, é a arte da palavra – sua essência sendo necessariamente um trabalho com a linguagem esteticamente organizada de forma a buscar a expressão e a comunicação universais.



O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos

(Manoel de Barros)

10.5.07

Saravah ! Un peu du Brésil pour les amis français

Je songe avant tout à mes amis français, déshérités et malhereux en ce moment "sarkozyen". C’est pourquoi je leur fait ce cadeau pour alléger leurs maux en espérant que leurs coeurs ulcérés se soulageront un peu, parce qu’il faut toujours espérer en des temps meilleurs... Voici un peu de la poésie, de la culture, de la musique et de l’esprit brésiliens pour eux !

S’étant passionné pour le Brésil et pour sa musique, en tant qu’ami de Baden Powell, Pierre Barouch avait chanté un morceau de la chanson "Samba da Benção", de Baden e Vinícius de Moraes, dans le film Un homme, Une femme (1966), de Claude Lelouch, si bien qu’il a contribué à la popularisation de la musique brésilienne en France. Trois ans après il débarquerait au Brésil pour tourner le documentaire Saravah ("Samba da Benção" était devenu "Samba Saravah" dans le film de Lelouch). Ce documentaire je ne l’ai pas encore, je viens de le commander. Voici pourtant la scène du film de 1966 où la chanson de Baden e Vinícius a été chantée pour la première fois en français... Pour les brésiliens qui sont en France en ce moment, je crois que ce sera de la pure nostalgie... Saravah ! Ça (ra) va!

Samba Saravah
(Vinícius de Moraes e Baden Powell – version : Pierre Barouh)

Etre heureux, c'est plus ou moins ce qu'on cherche,
J'aime rire, chanter et je n'empêche
Pas les gens qui sont bien d'être joyeux.
Pourtant, s'il est une samba sans tristesse,
C'est un vin qui ne donne pas l'ivresse;
Un vin qui ne donne pas l'ivresse,
Non, ce n'est pas la samba que je veux.

J'en connais que la chanson incommode,
D'autres pour qui ce n'est rien qu'une mode,
D'autres qui en profitent sans l'aimer.
Moi, je l'aime et j'ai parcouru le monde,
En cherchant ses racines vagabondes;
Aujourd'hui, pour trouver les plus profondes,
C'est la samba-chanson qu'il faut chanter.

On m'a dit qu'elle venait de Bahia,
Qu'elle doit son rythme et sa poésie
À des siècles de danse et de douleur.
Mais quel que soit le sentiment qu'elle exprime,
Elle est blanche de formes et de rimes,
Blanche de formes et de rimes,
Elle est nègre, bien nègre, dans son coeur.




Estou pensando, antes de tudo, nos meus amigos franceses, deserdados e infelizes nesse momento "sarkoziano". E é por isso que lhes faço esse pequeno mimo como consolo das dores na intenção de que seus coraçõzinhos feridos se aliviem um pouco, pois é preciso que se espere sempre por dias melhores... Eis aqui um pouco da poesia, da cultura, da música e do espírito brasileiros para eles!

Apaixonado pelo país e por sua música e amigo de Baden Powell, Barouh cantou um trecho em francês da música "Samba da Bênção", de Baden e Vivícius de Moraes, na trilha sonora do filme
Um Homem, Uma Mulher (1966), de Claude Lelouch, contribuindo para a popularização da música brasileira na França. Três anos depois, o ator gravou no Brasil o documentário Saravah ("Samba da Bênção" havia se tornado "Samba Saravah" na trilha do filme). Ainda não tenho esse documentário, acabo de encomendá-lo; mas aqui está a cena do filme de 1966 em que a música de Baden e Vinícius foi cantada pela primeira vez em francês.... Para os brasileiros que estão na França nesse momento, acho que será nostalgia pura... Saravá!

Samba da benção

(Vinícius de Moraes e Baden Powell)


É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração


Mas pra fazer um samba com beleza

É preciso um bocado de tristeza

É preciso um bocado de tristeza

Senão, não se faz um samba não


Fazer samba não é contar piada

E quem faz samba assim não é de nada

O bom samba é uma forma de oração


Porque o samba é a tristeza que balança

E a tristeza tem sempre uma esperança

A tristeza tem sempre uma esperança

De um dia não ser mais triste não


Ponha um pouco de amor numa cadência

E vai ver que ninguém no mundo vence

A beleza que tem um samba, não


Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração

11.4.07

Sem medo das gentilezas do coração... Feito louco pelas ruas...

Há exatos 90 anos, no dia 11 de abril de 1917, nascia José Datrino, o "amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento", ou simplesmente o Gentileza. Anos depois, no dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, houve um grande incêndio no circo Gran Circus Norte-Americano, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo. Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças. Na antevéspera do Natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. Pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói. Aquela foi sua morada por quatro anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "José Agradecido", ou simplesmente "Profeta Gentileza".
Após deixar o local que foi denominado "Paraíso Gentileza", ele começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970, percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar".
A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras do viaduto com inscrições em verde-amarelo, propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. Durante a ECO-92, colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a gentileza e a aplicarem gentileza em toda a Terra. Seu lema: "Gentileza gera gentileza."

Nesses tempos estranhos, de sentimentos estranhos, de atitudes estranhas, pode soar estranho um sujeito estranho numa túnica estranha, de cabelo estranho falando de uma coisa tão estranha quanto gentileza. Estranhos, entretanto, somos nós que fazemos desse estranhamento a regra, e não a exceção. Estranhos somos todos nós para os outros. Estranhos são todos os outros para nós. E assim vamos nos estranhando, nos desconhecendo, nos perdendo nas terras estranhas do nosso dia-a-dia, estabelecendo as fronteiras do nosso metro quadrado diário, exigindo passaporte e visa de quem nele ousa penetrar. Estranho e equívoco é o contato esboçado e não realizado, é a palavra ensaiada mas reprimida... De qualquer maneira, não sei se a estranheza do mundo tem jeito. Nós temos. O pronome "nós", nesse mundo estranho, compreende, quando muito, o núcleo familiar. Como esperar, então, que haja gentileza para com o outro, se o pronome "nós" não consegue nem perceber o outro? Aí então, deixa de ser um pronome para virar um substantivo plural. Substantivo esse cada vez mais difícil de se desatar... e daí todo o estranhamento. Proponho, como forma de anular tal estranhamento, a palavra franca, o toque, o abraço... O que me fez lembrar do meu amigo Othoni que, na comunidade Ame e dê vexame, faz um jogo de palavras com "abraços" e "há braços"... Ao que eu respondi:

Há braços. Há pernas. Há bocas. Há olhos. Há nervos e músculos e sangue e suores e sêmen. Há de certo sentimentos. Há palavras a traduzi-los. Há equívocos a interpretá-las. Há dores, portanto...
Há dias sim, há dias não... Adias o quê no coração?


Há braços, há todos!




Feito louco
Pelas ruas
Com sua fé
Gentileza
O profeta
E as palavras
Calmamente
Semeando
O amor
À vida
Aos humanos
Bichos
Plantas
Terra
Terra nossa mãe.

Nem tudo acontecido
De modo que se possa dizer
Nada presta
Nada presta
Nem todos derrotados
De modo que não dê pra se fazer
Uma festa
Uma festa.

Encontrar
Perceber
Se olhar
Se entender
Se chegar
Se abraçar
E beijar
E amar
Sem medo
Insegurança
Medo do futuro
Sem medo
Solidão
Medo da mudança
Sem medo da vida
Sem medo
Das gentileza
Do coração.

Feito louco pelas ruas...

(Gonzaguinha)

8.1.07

Confesso que vivi...



“Meu caminho junta-se ao caminho de todos. E em seguida vejo que desde o sul da solidão fui para o norte que é o povo, o povo ao qual minha humilde poesia quisera servir de espada e de lenço para secar o suor de suas grandes dores e para dar-lhes uma arma na luta pelo pão.”
Pablo Neruda





Em 12 de julho de 1904 — há mais de cem anos portanto — nasce Neftali Ricardo Reys Basoalto. No pequeno lugarejo em que nasceu, Parral, a 340 quilômetros de Santiago, ou em qualquer outro lugar, os nascimentos fazem parte do cotidiano. Nada há de especial. Seus pais são personagens comuns: ele é José del Carmen Reys Morales, maquinista de um trem lastreiro; ela, Rosa Basoalto Reys, professora, morta de tuberculose um mês depois de o menino nascer. Outra personagem entra no enredo de Neftali — Trinidad Candia Marverde — a segunda esposa de seu pai a quem ele acha incrível ter de chamar de madrasta já que ela é o anjo tutelar de sua infância, diligente e doce, com senso de humor camponês, e a bondade ativa e infatigável. Rodolfo e Laura — seus irmãos, filhos de seu pai e de Trinidad — são mais dois personagens do enredo nerudiano.



Nos primeiros cinco anos, Neftali corre sua infância pelas veredas de Parral ao sabor da chuva, do vento e do frio. Ternos anos, pouco registrados pela memória do garoto. Mudou-se com a família para Temuco — cidade pioneira, dessas sem passado, com grandes lojas de ferragem ostentando desenhos dos produtos à venda porque muitos compradores são índios e não sabem ler. Aliás, os araucanos, que lá vivem, são acossados primeiro pelos espanhóis; depois, pelos próprios chilenos. Neste mesmo ano, 1910, Neftali é matriculado no Liceu, cuja diretora, mais tarde, seria a escritora Gabriela Mistral — Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Gabriela Mistral e seu tio Orlando Masson, poeta e fundador do Diário de Temuco, estimulam suas incursões poéticas.


“Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.
Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.
Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.”


Depois dos anos de Liceu, o poeta vai para faculdade em Santiago do Chile e incorre em novas descobertas e desconhecimentos. Assume a timidez inimaginável para o autor dos Cantos Gerais:


“A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se a gente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte do amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.”



A nomeação de Pablo Neruda para ser cônsul do Chile em Rangum inicia uma nova fase na vida do poeta que conhece um novo mundo nos lugares remotos que vive e passa a ter uma percepção mais ampla do homem:


“O poeta não pode temer o povo. Pareceu-me que a vida fazia uma advertência e me ensinava para sempre uma lição: a lição da honra oculta, da fraternidade que não conhecemos e da beleza que floresce na escuridão.”



Sua relação com Federico Garcia Lorca e com a Espanha estão sacramentadas no caderno “Espanha no coração”. O poeta vive a guerra civil espanhola e tais vivências influenciam de forma marcante sua literatura e o seu ingresso no Partido Comunista, seu encontro com a União Soviética, os escritores em ebulição em Moscou, a esperança de que o grande continente alçasse o grande vôo de uma nova verdade. “A revolução é a vida e os preceitos buscam seu próprio túmulo.” Neruda sente necessidade de escrever para os seus semelhantes, no caminho do humanismo enraizado nas aspirações do ser humano. Assim começou a escrever os Cantos Gerais.



Neruda nunca esqueceu suas raízes, sempre esteve ligado aos acontecimentos políticos e sociais de sua pátria. Aliás, em sua poesia podemos observar sempre a alusão às raízes, desde as tenras da infância nos bosques chilenos aos alicerces de convicções que nosso poeta construiu e floresceu em seus poemas.

Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais as que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.”



O último capítulo é sobre a vida e a morte de Salvador Allende, primeiro marxista eleito presidente da República na América Latina em 1970, morto durante o golpe que do depôs em 11 de setembro de 1973. Neruda escreveu-o poucos dias após aos fatos que culminaram na morte do governante e morreu no mesmo mês, em 23 de setembro de 1973.



Pablo Neruda, pseudônimo criado por Neftali Ricardo Reyes Basoalto ainda na juventude para esconder a autoria dos poemas de seu pai, viajou o mundo inteiro e divulgou sua poesia e seus ideais humanísticos pelos diversos povos e culturas.



Como o próprio poeta afirmou em sua autobiografia: “...a história é escrita pelos vencedores ou pelos que desfrutaram da vitória.” Pablo Neruda é um vitorioso, venceu os preconceitos e as tantas perseguições políticas e criou uma obra literária lida no mundo inteiro - uma leitura obrigatória para toda a humanidade.

"Em minha pátria, prendem-se mineiros. E os soldados mandam mais que os juízes."

"Mudou a sociedade, mudaram a época e a moda. As fábricas transformaram-se em deusas. Os deuses associados produziram salsichas, armamentos, automóveis. As guerras santas desta época foram as do petróleo. Os hereges que não se prosternarem ante os pagodes petrolíferos foram exterminados, não pela cimitarra ardente, nem pela cruz cheia de pregos, mas pelos golpes da polícia, pela tortura e pelas prisões."

"Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar: couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. Que mais quer um poeta?"

"E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas."

"E se muitos prêmios alcancei, prêmios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, um prêmio que muitos desdenham mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei através de uma dura lição de estética e de busca, através de labirintos da palavra escrita, a ser poeta do meu povo. Meu prêmio é esse e não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar minhas palavras."

"A poesia é sempre um ato de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha."

"O poeta não é um 'pequeno deus'. Não, não é um 'pequeno deus'. Não está assinalado por um destino cabalístico superior ao dos que exercem outros misteres ou ofícios. Expressei amiúde que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não se acredita um deus. Ele cumpre sua majestosa e humilde tarefa de amassar, enfornar, cozer e estragar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária."


"E se o poeta chega a alcançar essa singela consciência, poderá também a singela consciência converter-se em parte de um colossal artesanato, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos."

"... o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade."

"Penso com alegria que tudo o que vivi e escrevi serviu para aproximar-nos. O primeiro dever do humanista e a tarefa fundamental da inteligência é assegurar o conhecimento e o entendimento entre todos os homens. Vale muito ter lutado e cantado, vale muito ter vivido se o amor me acompanha."

" Nunca entendi a luta senão para que esta termine."


(Fragmento dos livros Confesso que vivi e Para nascer nasci, de Pablo Neruda.Ed. Difel, 1977)




----------------------------------------------

Sim, confesso que vivi. Confesso, outrossim, que morri. E assim vou morrendo para a vida e revivendo da morte. Quotidianamente. Didaticamente. E estabeleço minha aprendizagem nesse eterno ir e vir. Do funeral ao luto de mim mesmo, do luto de mim mesmo à ressurreição, toda a fugacidade do momento se expande e se agiganta consoante meus movimentos na direção da minha gnose e de meus mistérios. Sou Perséfone masculinizada ou Hades feminilizado. Sou morte e vida. Severa e severina. Carrego em meu ser a morte e a vida. Entendo-me mais que barro; mas lamaçal, lodo, mangue – onde toda a biodiversidade reina de par com a podridão dos restos mortais dos homens que aí se aventuram em busca de seus caranguejos. Homens, caranguejos, poetas e lama – tudo oriundo da mesma matéria líquida. Tudo destinado à mesma certeza sólida dos solos. À mesma certeza etérea do esquecimento.
Sim, confesso que vivi. Confesso, outrossim, que morri...

(Edmilson Borret)

29.12.06

Por toda a minha vida...


Eita que a Vênus Platinada conseguiu mais uma vez... Não sei devido a esse meu estado à flor da pele ou sei lá o quê, mas a homenagem que a dona Globo fez à Elis Regina hoje à noite me deixou assim meio em estado de choque. Por toda a minha vida” foi o título do programa em homenagem à cantora. Quase 25 anos após sua morte, Elis continua sendo a maior de todas as cantoras que o Brasil já conheceu. Sou fã de muitas outras cantoras, mas Elis é algo que não se explica... A inflexão, a respiração, as sílabas perfeitamente delineadas, a postura no palco, a mise-em-scène, a dramaticidade, tudo, absolutamente tudo fazia dela única no cenário da nossa música popular brasileira. Fiquei aqui atônito, revendo entrevistas, falas, musicais e a biografia de Elis... Se me perguntarem, não saberei dizer qual é minha música preferida na voz dela. É uma infinidade de coisas fantásticas que essa mulher gravou, sempre imprimindo seu toque único: tudo na voz de Elis assumia uma roupagem nova... a velha roupa colorida... Se tentar definir uma mulher é tarefa muito difícil, traduzir Elis é impossível. Esta mulher fenomenal tornou-se um mito. Até hoje ainda sinto a dor da falta que ela faz... Lembro-me ainda hoje de um programa na Globo chamado Elis Regina Carvalho Costa em que ela declamava um lindo poema antes de cantar “Aprendendo a jogar”, poema esse em que ela se reconhecia uma estrela... É isso: agora e sempre ela será uma estrela...


Agora o braço não é mais um braço
erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha
um traço
um rastro espelhado e brilhante
e todas as figuras são assim
um agrupamento de pontos
de partículas
um quadro de luzes
de impulsos
um processamento de sinais
e assim
dizem, recontam a vida.
Agora retiram de mim a cobertura de carne
escorrem todo o sangue
afinam os ossos em fios luminosos
e aí estou
pelas casas, pelas cidades
parecida comigo
um rascunho
Uma forma nebulosa, feita de luz e de sombras.
Como uma estrela.
Agora eu sou uma estrela.


Mas se ainda assim insistirem em me perguntar que música eu escolheria para homenagear esse mito-mulher hoje, eu sem dúvida alguma escolheria “Aos nossos filhos”. Não sei, mas me parece que essa música transmite tudo o que ela não teve tempo de dizer, parece um pedido de socorro, algo que ela parecia estar querendo gritar ao levar à boca aquele maldito copo naquele fatídico 19 de janeiro de 1982... Aos 36 anos, Elis Regina, a melhor cantora do Brasil, foi achada morta, trancada em seu quarto, onde tomara a derradeira dose de cocaína...


Aos Nossos Filhos

Perdoem a cara amarrada,
Perdoem a falta de abraço,
Perdoem a falta de espaço,
Os dias eram assim...

Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Perdoem a falta de amigos,
Os dias eram assim...

Perdoem a falta de folhas,


Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha,
Os dias eram assim...

E quando passarem a limpo,
E quando cortarem os laços,
E quando soltarem os cintos,
Façam a festa por mim...

E quando lavarem a mágoa,
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água,
Lavem os olhos por mim...

Quando brotarem as flores,
Quando crescerem as matas,
Quando colherem os frutos,
Digam o gosto pra mim...

Digam o gosto pra mim...

(Ivan Lins/Vitor Martins)



O problema é que Elis era demais para seu tempo... Era demais até para ela mesma...




"Me tomam por quem? Uma imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo".

"Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé".


"Quem não deu suas mancadas?"


"Meu problema são 10 centímetros a mais; então estaria tudo resolvido".


"Me apaixonei pela minha voz".


"Neste país, só há duas que cantam: Gal e eu".








Por Toda A Minha Vida

Oh! meu bem-amado
Quero fazer-te um juramento, uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente tua e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou
Ninguém
Oh! meu bem amado, estrela pura aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh! meu amor

(Tom Jobim/Vinícius de Moraes)

25.12.06

I Don't Feel Good Today...




O cantor norte-americano James Brown, conhecido como "o pai do soul", morreu nesta segunda-feira (25/12/06), aos 73 anos, em um hospital de Atlanta. Brown morreu à 1h45 no Emory Crawford Long Hospital, no qual estava internado desde domingo (24/12/06) devido a uma pneumonia.
Célebre por uma voz imponente e seus frenéticos movimentos, Brown, também conhecido como "Senhor Dinamite", se tornou famoso com canções como "I Got You (I Feel Good)", "Papa's Got a Brand New Bag", "Please Please Please" e "Living in America". Seu sentido inovador de ritmo o transformou em um dos músicos americanos com maior influência nos últimos 50 anos, junto a nomes como Elvis Presley e Bob Dylan.
Além de transformar o gospel em rhythm and blues e soul, James Brown também influenciou o surgimento de estilos como o rap, o funk e a música disco. Mick Jagger, Michael Jackson e David Bowie, entre outros, admitiram ter se inspirado no ícone da música negra.
O sucesso de Brown "Say it Loud (I'm Black and I'm Proud)" ("Diga alto, sou negro e orgulhoso"), tornou-se hino dos direitos humanos durante os turbulentos anos 1960. Ele tocou a música na posse de Richard Nixon na Presidência dos EUA, em 1969 - em ação que prejudicou temporariamente sua popularidade entre jovens negros.
Brown costumava trocar de ternos uma dúzia de vezes durante um show e dançava freneticamente no palco. Uma vez disse que queria esgotar o público e "dar às pessoas mais do que esperavam- queria cansá-las".
O cantor gravou mais de 800 canções durante sua carreira. Emplacou mais de 119 músicas nas paradas de sucessos e lançou mais de 50 álbuns. Entrou no Hall da Fama do Rock and Roll e recebeu um prêmio Grammy pela carreira musical, em 1992.
Além de lançar discos e fazer shows, Brown construiu também um império de negócios, incluindo uma série de estações de rádio e sua própria empresa de produções. Tinha uma grande frota de carros caros e um avião. Durante sua vida, ganhou fama de ser o homem que mais trabalhava na área artística.

Nascido em um subúrbio de Barnwell (Carolina do sul) em 1933, James Joseph Brown Jr. superou uma infância marcada pela miséria e a marginalização, após ser abandonado aos 4 anos por seus pais e deixado aos cuidados de parentes e amigos. Cresceu nas ruas de Augusta (Geórgia), onde cantava e dançava para pagar por sua vaga no quarto de um bordel.
Abandonou a escola na sétima série e começou a trabalhar colhendo algodão, engraxando sapatos, lavando carros e pratos e fazendo faxina em lojas.
Aos 16 anos, foi condenado a passar três anos em um reformatório por roubar carros. Ao sair, e em meio a uma carreira semiprofissional como boxeador, uniu-se ao grupo de gospel de Bobby Byrd, cuja família acolheu Brown.
A banda, rebatizada como Famous Flames, assinou um contrato em 1956 com a King Records de Cincinnati e quatro meses depois a canção "Please Please Please" se transformou em seu primeiro título a alcançar o topo das paradas de sucesso.
Foi um show em Nova York, no teatro Apollo, no Harlem, que ajudou Brown a dar seu primeiro grande passo na carreira, com a gravação de uma apresentação ao vivo em 1961.
Durante os anos 60, lançou canções que se tornaram clássicos de seu repertório, como "Papa's Got a Brand New Bag", "I Got You (I Feel Good)", "Get Up (I Feel Like Being a Sex Machine)" e "I'm Black and I'm Proud", enquanto se envolvia com drogas, álcool e atos de violência, que lhe trouxeram problemas com a Justiça.
Na década de 70, com a morte de seu filho Teddy em um acidente de trânsito, e a competição com a disco music, a carreira de Brown dava sinais de fraqueza. Nos anos 80, participou de filmes como "Os Irmãos Cara-de-Pau" e "Rocky 4", que tinha na trilha sonora o sucesso "Living in America", que lhe valeu um Grammy em 1987. O sucesso dos filmes e da canção apresentaram James Brown a uma nova geração de fãs.
Em 1988, Brown foi condenado a seis anos por posse de drogas e armas. Ele foi preso após uma perseguição em alta velocidade pelos estados da Georgia e da Carolina do Sul, depois que a polícia disparou nos pneus do seu veículo.
O cantor passou mais de dois anos na prisão, após os quais se dedicou a trabalhar com jovens músicos de rap e hip hop, que viram nele, apesar de seus erros, um modelo que conseguiu superar a miséria e marginalização de sua infância.
Em fevereiro de 1991, foi libertado sob a condição de nunca dirigir e ter armas de fogo. Dois anos depois, Brown lançou o álbum "Universal James", que continha sucessos como "Can't Get Any Harder", "How Long" e "Georgia-Lina". Outro álbum de estúdio, "I'm Back", com a canção "Funk On Ah Roll", foi lançado em 1998.
Em 2004 teve diagnosticado um câncer de próstata, o que o levou a se submeter a uma cirurgia. Continuou sua carreira, em apresentações e estúdios como o show de 2005 na Grã-Bretanha e os duetos gravados com os cantores britânicos Will Young e Joss Stone.
Brown foi casado quatro vezes e teve pelo menos seis filhos, o último deles com sua mais recente mulher, a backing vocal Tommie Raye Hynie.



Say it Loud (I'm Black and I'm Proud)
(James Brown)

Now we demand a chance to do things for ourserlf
We're tired of beatin' our head against the wall
And workin' for someone else
We're people, we're just like the birds and the bees
We'd rather die on our feet
Than be livin' on our knees
Say it loud, I'm black and I'm proud





I Love You, Yes I Do
(James Brown)

I love you, yes I do
I love you, yes I do
I'm yours my whole life through
Since I first laid eyes on you

You love me, yes you do
You need me, I need you
I'm yours my whole life through
I love you, yes I do

I guess you knew it from the start
From the day you took my heart
You're the one girl, always, and mine
Darling you're my guiding star
I must be forever where you are
You set my world on fire

I love you, yes I do
I need you, yes I do
I'm yours my whole life through
Since I first laid eyes on you

I know you know it's true
I love you, yes I do
I love you, yes I do

27.11.06

"Avec le coeur battant jusqu'à la dernière battue"


Nascido em 1916, Léo Ferré foi um dos cultores mais singulares e controversos da grande “chanson” francesa. Viveu uma vida intensa de êxitos artísticos e de recusa do conformismo e das idéias prontas. Anarquista e milionário, solitário e solidário, iconoclasta e violentamente terno, Léo morreria em 1993, aos 77 anos.
Filho de Joseph e de Charlotte, respectivamente o chefe de pessoal do Cassino de Monte Carlo e uma costureira. Desde os quatro anos de idade, que inventava músicas e dirigia orquestras imaginárias. Após ter concluído o Liceu, na Itália, foi para Paris estudar Direito e cursar Ciências Políticas.
Durante a Segunda Guerra (1939-45), trabalhou na Rádio Monte Carlo, como locutor, técnico de som e pianista, deixando para trás a sua formação acadêmica, tão incompatível com uma vida tão à margem de todas as regras.
Em 1946, regressou a Paris, onde começou a atuar em bares e cabarés e onde conheceu Edith Piaf, que interpretaria algumas das suas produções e incitaria Ferré a fazer carreira na Cidade-Luz, uma longa e gloriosa carreira que se inicia no cabaré Le Boeuf sur le toît e se estende por toda parte, onde se podia ouvir a boa música e poesia francesas. Ao mesmo tempo, dá concertos na Federação Anarquista e começa a fazer furor nos caveaux de Saint-Germain-des-Prés, onde pontificam os cantores existencialistas Juliette Greco, George Brassens, Mouloudji, etc.
Em 1954, Léo Ferré é contratado para fazer a primeira parte de um espetáculo de Josephine Baker, no Olympia de Paris, onde a sua canção “Paris Canaille” o torna definitivamente célebre. No mesmo ano, dirige a sua “Symphonie Interrompue”, na Ópera de Mote Carlo, escreve Poète, vos papiers e produz o álbum “Les Fleurs du Mal”, onde põe música na poesia de Baudelaire. Seria o princípio de uma obra musical ao serviço da poesia francesa: Apollinaire, Verlaine, Rimbaud, Aragon e ele próprio, Ferré, também um grande poeta da língua francesa. A fabulosa carreira de Léo Ferre deveu-se, em parte, à influência da grande cantora Cathérine Sauvage, que apostou na alta qualidade do cantor, poeta, músico e maestro monegasco.
Em 1962, Ferré veria censurada a sua canção “Mon Général”, obviamente dedicada a De Gaulle e à sua autoritária V República.
Nos episódios do Maio de 68, atua na “Mutualité” para os estudantes que o aclamam euforicamente, agitando as bandeiras negras e vermelhas da Revolução. “Foi em Maio de 68 que realmente eu tive 20”, disse o poeta-cantor do amor e da anarquia, o autor de “Ni Dieu, ni Maître” e de “Thank you, Satan”. Léo Ferré atua na Federação Anarquista e as suas canções “Amour Anarchie” e “L’Été 68” tornam-se hinos da revolta estudantil. Os mesmos estudantes que o glorificam são também os mesmos que o criticam e atacam, devido à sua imensa fortuna, recebendo o epíteto de “Anarquista de Rolls-Royce” (ele que preferia o Mercedes…) e de “fascista vermelho”, conforme o insulto telefônico do cantor Yves Montand, um recém-dissidente do Partido Comunista Francês.
Mas Ferré estava acima desses e de outros maniqueísmos. Segundo Pierre Bénichou, do Nouvel Observateur, era antipático, anarco-mediático, mal-humorado, apaixonado pelas feias, revoltado-oportunista, milionário, falso humanista, kitsch, em suma, um Poeta. Um poeta que afirmava “não sou violento na vida, sou violento nas palavras”. Para ele, o êxito tinha de ser conquistado ao inimigo, a consagração tinha de ser imposta aos sacanas, a oração era sempre acompanhada de uma ameaça. O “anarcriador”, como lhe chamou José Jorge Letria, era um ser polêmico, incatalogável e indomável, que exigia um preço baixo para os ingressos dos seus concertos e que declarava, provocatório: “Tenho dinheiro, é verdade. E então? Vou ter de descer à rua, para distribui-lo? Porque sou Anarquista?”. É também provocatoriamente que intitula uma sua canção “O Anarquista de Luxo”.
Nos anos 80, desaparece dos olhares públicos, auto-exila-se na Toscana (Itália), com a mulher e os filhos, na sua luxuosa propriedade de Castellina, na companhia de um piano e de um sintetizador. Daí em diante, todas as suas canções são mensagens de desespero, e escreve, naquele isolamento, belos e pungentes poemas. Aos 60 anos, Ferré é um homem doente e inconsolável, de luto por si próprio, pela sua violência, pela sua grande Revolução que nunca acontecerá. Os seus últimos álbuns são publicados entre 1985 e 1990.
Em 14 de Julho de 1993, morria, vitimado por um cancro nos intestinos, o homem que cantava “A mon enterrement”, onde dizia que no seu enterro “não queria ver mais ninguém senão mortos”. Uma vez, no palco, contou que havia recebido um telefonema, em que uma voz lhe disse: “Alô, sou a Morte, gosto bastante do que você faz”, ao que o cantor respondeu: “Eu também…”.
O poeta não tinha medo da morte, antes se sentia fascinado por ela: “Deve ser uma mulher extraordinária, a Morte. Pega-nos na não e seguimos com ela para qualquer lugar. Somos obrigados. E é precisamente esse ‘qualquer lugar’que me fascina e me faz com que não tenha medo da morte (…) Quero assistir à minha morte, o centésimo de segundo em que tudo oscila. Mas, de qualquer maneira, não compro ingresso”.


Hehehehe... Não sei por que, mas (me perdoem a falta de modéstia) me identifico demais com esse cara!!!! “Avec le coeur battant jusqu’à dernière battue”... Com o coração batendo até a última batida... Imagino Léo Ferré, como eu, gritando a plenos pulmões: “Gauches são vocês, meus caros!”... Hahahahaha
Aliás, tem uma música dele de que gosto muito, mas muito mesmo, chamada “Avec le temps”, onde ele fala das coisas e das pessoas que a gente um dia acreditou serem tão importantes em nossa vida mas que, parando para refletir um pouco, a gente vê que não passaram de meras ilusões... E das ilusões eu quero é distância agora...


Avec le temps
(Léo Ferré)

Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues
alors vraiment
avec le temps on n'aime plus

15.11.06

Fumando espero...


"Junto a La cieguita, cuja fama se verifica na versão de Gardel e da qual não se têm muitas gravações, Fumando espero é, com certeza, o tango mais famoso composto na Espanha. Foi escrito para uma peça teatral, a revista La nueva España, que estreou em Barcelona, no teatro Victoria em 1923. Foi levada para a Argentina e Firpo o gravou em versão instrumental.
O tango foi gravado pela primeira vez em 1926 pela cupletista Ramoncita Rovira, por Rosita Quiroga e Ignacio Corsini em 1927, e então foram feitas diversas excelentes versões. Entre as mais famosas estão as de Argentino Ledesma com Hector Varela em 1955. Em 1956, com Di Sarli; Libertad Lamarque com Victor Buchino e Carlos Dante com Alfredo De Angelis. A atriz Sarita Montiel tornou-a imortal no cinema, no filme “El último cuplé”, de 1957.
Viladomat nasceu em Manlleu (Barcelona) em 8 de fevereiro de 1885. Primeiramente aderiu à pintura, mas depois aprenderia música em sua estada no seminário de Vich. Em 1899 já é flautista na banda de sua cidade e, já em Barcelona, faz concurso para o conservatório do Liceo (1906).
Em 1910 abre uma academia, que edita suas próprias obras musicais. Durante a época de esplendor do fox-trot, Viladomat compôs continuamente, sendo suas obras interpretadas pelas cantoras mais famosas, como Raquel Meller, Mercedes Serós, Pilar Alonso, Elvira de Amaya, Amalia Molina, Adelita Lulú, Consuelo Hidalgo, Eugenia Roca, etc. Algumas canções: Al sena, Carrer avall, Catalunya plora, El beso, El pintor cubista, El primer tango, El regreso, El 6 d’octubre, El vestir d’en Pasqual, Empordá lliure, Hoy, Julieta (tango), L’orfaneta, La canción de Margot, La catalanista, La expulsada, La golondrina, La mesonera, La puntaire, La sardana republicana, La Verónica, Niní, Palabritas amorosas, Porque era negro, Una mujer, Ven a mi país, Zenga (tango).
Viladomat atingiu o triunfo em vida mas também teve tempo de assistir à decadência dos gêneros que lhe deram fama. Depois da guerra civil espanhola, os teatros de variedades começaram a decair ante o crescente vigor da comédia americana, a canção folclórica ou o esporte. Juan Viladomat i Massanes as acompanhou em seu óbito. Em 29 de dezembro de 1940, morria em Barcelona sem que sua ainda recente fama alimentasse nenhuma crônica jornalística. A guerra tinha feito passar a segundo plano tudo que não fossem suas sinistras conseqüências."

Javier Barreiro (Publicado na Revista Club de Tango – maio de 1994 – trad. RM)


FUMANDO ESPERO
Música: Juan Viladomat Masanas & Felix Garzó
Letra: Juan Viladomat Masanas

Fumar es un placer, genial, sensual…
Fumando espero a la que tanto quiero
tras los cristales de alegres ventanales
y mientras fumo mi vida no consumo,
porque flotando el humo me suelo adormecer.

Tendido en el sofa, soñar y amar
ver a mi amada feliz y enamorada
sentir sus labios besar con besos sabios
y el devaneo sentir con mas deseos
cuando sus ojos veo sedientos de pasión.

Por eso estando mi bien
es mi fumar un eden,
dame el humo de tu boca
dame que en mí, pasión provoca,
corre que quiero enloquecer de placer,
sintiendo ese calor del humo embriagador
que acaba por prender
la llama ardiente del amor.

10.11.06

Aznavour: o pequeno grande homem


Situada no Cáucaso, fazendo fronteira com o Azerbaijão e a Geórgia, a Armênia é um pequeno país, metade do tamanho da França em termos de área, com uma população menor que a do interior de Paris. É também um país com uma passado complicado. Colonizado pelos romanos, invadido pelos árabes, saqueado e pilhado pelas invasões turcas e mongóis e conquistado em parte pela Rússia, a Armênia foi vítima de um genocídio feito pelos turcos em 1915, em que um milhão e meio de pessoas foram exterminadas. Incorporado depois disso pela URSS, finalmente o país conseguiu sua independência em 1991.
Foi durante o período em que a Armênia ainda era uma das peças de jogo da URSS, e quando a memória dos massacres turcos ainda era uma ferida aberta, que Misha e Knar Aznavourian decidiram deixar o país para buscar um futuro melhor. Para eles, como para a maioria daqueles buscando emigrar para outras partes do mundo, o sonho de uma vida nova tinha um nome: América.
Esse foi o início de uma longa viagem pela Europa para chegar a um dos portos de saída para a Liberdade, em uma cidade cuja embaixada pudesse lhes dar o visto abrindo caminho para o embarque. Foi então ao acaso que Varenagh Aznavourian nasceu em Paris em 22 de maio de 1924, em uma clínica na rue d’Assas, onde uma enfermeira lhe deu o nome de Charles porque não conseguia pronunciar seu primeiro nome. E, como a cota máxima de imigrantes armênios já havia sido atingida, as autoridades americanas nunca deram à família o visto que desejava, e eles ficaram, para melhor ou para pior, na capital francesa, em um hotel mobiliado na rue Monsieur le Prince.
Um dos mais extraordinários artistas da chanson francesa, Charles Aznavour também destacou-se como um dos maiores astros internacionais, conquistando palcos mundo afora com persistente energia e gravando em inúmeras línguas.
Eleito Artista do Século – à frente de Elvis Presley e Bob Dylan – em uma pesquisa feita na Internet pela CNN e revista Time EUA, Aznavour tornou-se conhecido como o brilhante exemplo de um talento universal artístico de determinação inabalável. Ele é apaixonado pelo mundo (mundo esse em que teve que entrar pelas mais difíceis vias enquanto criança) e precisou trilhar um caminho também nada fácil antes de finalmente chegar ao topo, que nunca abandonou desde então.
Mesmo assim, diferente de muitos que às vezes têm bem menor popularidade, Aznavour ainda manteve as qualidades de um grande coração e o entusiasmo que não diminuiu nem com idade nem com o sucesso. E essa é sua verdadeira grandeza, apesar da pequena estatura.
O que eu gosto no Aznavour é aquele "e" final bem marcado, a voz diferente. Aliás, embora possuidor de uma forte coragem, seu físico e sua voz muito especial não eram bem aceitos pela crítica, nem pela imprensa, que não o poupavam de zombaria e escárnio. Mas vá lá entender a cabeça desses merdas que se julgam conhecedor de alguma coisa, né não?
Mas por que fui lembrar de Aznavour agora, meu Deus? Ah sim... porque ele escreveu algo que, nesse exato momento, eu gostaria muito de ter escrito. Ou, quando muito, de ter berrado a plenos pulmões:

Un beau matin, je sais que je m'éveillerai,
Différemment de tous les autres jours,
Et mon coeur délivré enfin de notre amour
Et pourtant.. Et pourtant..

Sans un remords, sans un regret, je partirai
Loin devant moi, sans espoir de retour
Loin des yeux, loin du coeur,
J'oublierai pour toujours
Et ton corps, et tes bras, et ta voix,
Mon amour

Et pourtant..
Pourtant, je n'aime que toi

J'arracherai, sans une larme, sans un cri
Les liens secrets qui déchirent ma peau
Me libérant de toi pour trouver le repos
Et pourtant.. Et pourtant..

Je marcherai vers d'autres cieux, d'autres pays
En oubliant ta cruelle froideur
Les mains pleines d'amour,
J'offrirai au bonheur
Et les jours, et les nuits, et la vie
De mon coeur

Et pourtant..
Pourtant, je n'aime que toi

Il faudra bien que je retrouve ma raison
Mon insouciance, et mes élans de joie
Que je parte à jamais pour échapper à toi
Et pourtant.. Et pourtant..

Dans d'autres bras, quand j'oublierai jusqu'à ton nom
Quand je pourrai repenser l'avenir
Tu deviendras pour moi
Qu'un lointain souvenir
Quand mon mal, et ma peur et mes pleurs
Vont finir

Et pourtant..
Pourtant, je n'aime que toi




O que dói mesmo é saber que existe o tal do "et pourtant"... Meeeeerda!!!!! Oh vida, oh dia, oh azar...


Fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....
Related Posts with Thumbnails