Seguidores

Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens

24.8.12

Ensaio sobre a babaquice


Ah, os babacas... Os babacas são seres que merecem um capítulo à parte em todo e qualquer estudo que se queira mais abrangente sobre a natureza humana. Toda filosofia, toda sociologia, toda arqueologia, toda psicologia ou qualquer outro campo do conhecimento humano que não incluir um estudo sobre a babaquice em seus anais, estará epistemologicamente fadado a uma apreciaçã
o capenga do gênero humano por conta de uma má delimitação do corpus de estudo e pesquisa.

Antes de qualquer coisa, é preciso que se saiba que babacas existem por toda parte. E há os babacas dos mais variados tipos. Tem o babaca temporário, que resvala na babaquice por alguma contingência do espírito - o que não faz dele menos babaca. Tem o babaca aliciado: aquele que teve ou tem amigos que vivem na babaquice e que o levaram a experimentar a primeira dose da mais pura babaquice. Daí por diante, foi um mergulho vertiginoso no cruel mundo da babaquice. E se ele deixa de ser babaca por algumas horas que seja, tem crise de abstinência. Tem o babaca congênito: a babaquice, nesse caso, é quase atávica. A ciência ainda pesquisa e procura desenvolver um teste do pezinho eficaz para diagnosticar esse tipo de babaca ainda nos primeiros minutos de vida.

Babacas serão sempre babacas, não importa o quanto se esforcem para que a babaquice pareça menos babaca. Aliás, é típico dos babacas quererem parecer algo que não são: donde concluímos que os babacas não são nada confiáveis. E os babacas não têm noção de limite. Eles se espalham. Podemos esbarrar com babacas onde menos esperamos. Uma amiga minha há muito tempo não faxinava a casa. Quando resolveu fazê-lo, achou (pasmem!) um babaca morto, ressequido, atrás do bufê da sala de jantar. Tomou um susto a coitada. Difícil mesmo foi convencer os parentes, amigos, vizinhos e conhecidos que ela não sabia como aquele babaca tinha ido parar ali... Cá entre nós, essa minha amiga sempre teve uma queda por babacas.

Um babaca, para ser babaca, não precisa de muita coisa: basta água, comida e luz do sol para que um babaca cresça e não desapareça. Mas não se enganem: babacas não são organismos simples, como os platelmintos ou os anelídeos. Há bastante complexidade num babaca. Não à toa, existem até mesmo babacas que escrevem ensaios sobre a babaquice...

Babacas, via de regra, se orgulham da própria babaquice. E isso chega a ser tocante... Babacas não têm problemas de baixa autoestima. Ah, e como eles estão sempre felizes os babacas! A gente nunca sabe por que eles estão tão felizes (nem mesmo eles sabem), mas perto de um babaca a gente corre até mesmo o risco de achar que o babaca encontrou a fórmula ideal do “joie de vivre”. É preciso um tremendo esforço para não sermos contaminados pelo babaca. Identificou-se um babaca, recomenda-se manter certa distância: a babaquice pode certamente ser passada por osmose.

Alguns babacas são mesmo capazes de amar. Sim, babacas também têm coração. Mas cuidado com eles quando estão apaixonados: um babaca apaixonado multiplica exponencialmente sua babaquice! Exponencialmente e geometricamente, já que babacas nada mais são do que bestas quadradas. Há tristes relatos sobre babacas que se apaixonaram e se tornaram tão mais grandiosa e transcendentalmente babacas que sumiram na própria babaquice, assim como por encanto: fez-se um clarão imenso e... ploft! Sumiram, retornaram ao Nada original.

Há quem considere que a babaquice é um estilo de vida. Estão surgindo até mesmo revistas e outras publicações especializadas no que se convencionou chamar “the babaquism way life”: uma tendência, dizem os mais descolados. Mas é complicado reconhecer um babaca na rua ou em qualquer outro lugar. Porque, diferentemente das outras tribos, o babaca não apresenta traços, adereços ou acessórios que nos permitam identificá-los assim tão facilmente: não há um tipo de cabelo específico, um tipo de roupa, um tipo de música só deles. Os babacas, justamente por isso, se misturam facilmente em todos os grupos. Para reconhecer e identificar um babaca, só mesmo travando conhecimento com o mesmo. Por isso, mais uma vez, recomenda-se cuidado. Percebeu que é um babaca, afaste-se rapidamente: olha a osmose!
Mas os babacas, algumas vezes, são até bonitinhos... Ah, e são limpinhos também.

Há, entretanto, uma característica da babaquice que eu considero super legal, que eu diria até mesmo humanista: a babaquice é uma das coisas mais democráticas que conheço. Tem babaca pobre, tem babaca rico, tem babaca negro, tem babaca branco, homem, mulher, gay, lésbica, judeu, cristão, ateu, letrado ou iletrado; tem babaca no nordeste, na Amazônia, no centro-sul, em Nova Iorque, em Taiwan, na Sibéria e na puta-que-o-pariu. Babaca não escolhe onde nem quando nascer. Na história da humanidade sempre houve babacas, desde os primórdios, desde a pedra lascada. Acredito mesmo que já havia babacas já no gênesis e em todos os outros mitos da criação de que se tem conhecimento. A babaquice, na verdade, deve ser o que os babacas chamam de pecado original.

(Edmilson Borret – 24/08/2012)

24.7.11

Amy Winehouse era o que era... She said 'no, no, no'


Recentemente, lendo a biografia do Lobão, pensei e comentei com uma amiga que no cenário atual da música mundial faltavam mais loucos como o roqueiro brasileiro, havia uma escassez de gênios que vivessem a vida de forma brutal e intensa, que simplesmente cagassem para os paradigmas de uma sociedade escrota. Eu e essa minha amiga chegamos, porém, à conclusão que talvez Amy Winehouse fosse a única remanescente desse seleto grupo de pessoas consideradas loucas, mas expoentes incontestáveis de uma genialidade ímpar. O cenário atual da música (nacional ou internacional) está saturado de uma corja cada vez mais certinha, mais bonitinha e politicamente correta. Alguns até fazem um som de qualidade. Mas a grande maioria... bom, melhor deixar pra lá.


E hoje, 23 de julho de 2011, o mundo inteiro recebeu a notícia da morte dessa última remanescente da loucura criativa. Em meio ao choque pela perda de um talento insubstituível, deparei-me com comentários que iam do torpe ao desumano nas redes sociais e fóruns na internet. Poucas foram as demonstrações de pesar pela perda do potencial artístico; muitas foram as piadinhas, os trocadilhos e os julgamentos morais do tipo “ela fez por merecer”, “isso já era esperado”, “ele teve o fim que pediu”, etc. A maioria desses julgamentos morais era acompanhada de um “coitada”: a compaixão dos moralistas... Coitados, na verdade, são eles – esses moralistas.


O fato é que as pessoas são como elas são. Isso independe do que você pensa delas e de como você gostaria que elas fossem. Sei que há pessoas que adorariam que Amy Winehouse fosse uma pessoa centrada, focada na carreira, sóbria e lúcida o suficiente para fazer shows impecáveis. Mas isso é problema dessas pessoas, não era dela; porque ela simplesmente não era assim e sequer sabia que essas pessoas existem. Amy era como ela era, não como eu ou qualquer outra pessoa gostaria que ela fosse ou como eu ou qualquer outra pessoa ache que ela poderia ter sido. E pronto! Ela era, antes de tudo, uma compositora fantástica e original, uma intérprete do caralho, dona de uma voz incrível e de um estilo marcante e autêntico. Mas ela também era alcoólatra, anoréxica, bulímica, bipolar, desconfortável com o sucesso, insegura, desequilibrada, autodestrutiva e usuária compulsiva de maconha, cocaína, heroína e crack. E pronto!


Assisti ao show que Amy Winehouse fez na Arena HSBC do Rio de Janeiro, em 11 de janeiro deste ano. E foi uma das melhores experiências que já tive.


É fato: Amy não mostrou qualquer domínio de palco. Mas caramba, ela não tinha nem domínio sobre si mesma! Atravessou o ritmo várias vezes, mas isso sempre fez parte do seu estilo de interpretação ao vivo. Errou a entrada de algumas músicas? Sim. Mas isso não destoava em nada de sua personalidade e foi proposital em certos momentos; até porque shows de soul music permitem esse tipo de coisa, o que é sempre uma oportunidade para a banda mostrar sua competência. Sim, ela esqueceu trechos de algumas letras, mas isso não é nada para alguém nas precárias condições físicas e psíquicas dela. Fato é também que o show durou só 1 hora e 20 minutos, mas teve quase 20 músicas... Putz! Bom demais para uma artista que só lançou dois discos – e o show esteve perfeitamente estruturado em início, meio, apresentação da banda, fim e bis. Para mim, foi uma experiência muito especial ver Amy Winehouse ao vivo, pelo tanto que eu admiro seu talento, ainda que com uma parca discografia.


Não foi pela imprensa, mas por ela mesma, através de suas músicas, de suas letras, que eu soube que ela era autodestrutiva, vulgar, descontrolada, triste, difícil, encrenqueira. Portanto, quando me encantei por Amy, ela já era desse jeito. Para mim, a única surpresa do show foi o fato de ela ter vindo. E já que ela veio, tudo mais era previsível. Eu estava ali para viver uma experiência improvável e há muito tempo desejada. Fui sem ilusões e, portanto, voltei sem decepções. E não fui o único a sair de lá plenamente satisfeito, a julgar pela calorosa reação de grande parte da plateia. Amy nunca enganou ninguém, nem conseguiria se quisesse. Quem saiu daquele show decepcionado provavelmente entrou lá iludido ou desinformado.


Para mim foi um enorme prazer ver de perto aquela figura caricata e autêntica, talentosa e frágil, digna de admiração e pena. Ela deixou o palco várias vezes, bebia repetidamente um líquido qualquer de uma xícara, líquido esse que decididamente não era chá nem café. No meio do show, Amy ausentou-se de cena por longos minutos, tanto que seu backing vocal Zalon teve que cantar duas canções que ele havia gravado para um álbum solo, como forma de ocupar o palco. Depois disso, ela voltou, mas seus pés e o chão já não falavam a mesma língua, tão zonza que estava. Mas a partir desse momento, parafraseando Chico, ela jamais cantou tão lindo assim os hits “Rehab”, “Valerie” e “You know I’m no good”. A banda (incrível também, diga-se de passagem) foi apresentada em longa exibição de seus ótimos talentos individuais. E o bis fechou o espetáculo com “Love is a losing game” e “Me and Mr. Jones”. Mais do que isso seria impossível. Da mesma forma que seria impossível Bono não interagir com a plateia, Madonna não desafinar, Britney não usar playback e Jagger não requebrar. Era Amy Winehouse toda ali, ora bolas! Todo mundo sabia disso. Ou, pelo menos, deveria.


E assim Amy Winehouse foi em sua curta vida. Era ela toda ali!! Todo mundo que “ouvia” suas músicas sabia disso... Ou, pelo menos, deveria.


Mensagem válida para moralistas de plantão, normalistas, manicures, mães zelosas e demais pessoas de bem.



“They tried to make me go to rehab
But I said 'no, no, no'
Yes, I've been black, but when I come back
You'll know-know-know
I ain't got the time
And if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab
But I won't go-go-go”





29.9.10

Ensino religioso e pedofilia: as duas faces de uma mesma moeda... furada.




Há alguns dias, um jovenzinho que não deve ter nem 12 anos de idade resolveu postar no Orkut um desses scraps coletivos que o site de relacionamento agora permite. O jovenzinho em questão é aluno da escola onde trabalho: um amor de criança, diga-se de passagem. Mas causou-me profunda irritação o scrap coletivo que ele veiculava a seus amigos de Orkut. Tratava-se de uma mensagem que anda circulando pela internet na forma de e-mails e mensagens em sites de relacionamento onde se afirma que a candidata Dilma Rousseff não só seria a favor do aborto e do casamento entre homossexuais, como também estaria aliada a satanistas representados na figura de seu vice, Michel Temer. O texto que faz ameaças aos evangélicos caso a Dilma seja eleita, obviamente se trata de uma campanha apócrifa e sem fundamento algum. E isso, realmente, é o menos relevante: às vésperas de eleições, campanhas desse tipo sempre apareceram. O que realmente me preocupa, e muito, foi a veemência com que um garoto nessa idade tentava argumentar comigo que aquela mensagem que ele repassava tratava-se da mais pura verdade. Pois, muito provavelmente, assim esta lhe teria sido passada por algum adulto de sua confiança que professa sua mesma fé evangélica.

Isso me faz voltar a um tema de que já tratei aqui neste blog numa postagem anterior intitulada "Provavelmente não há Deus. Então pare de se preocupar e aproveite a sua vida". Nessa postagem eu alertava para o perigo da nefasta lavagem cerebral que as seitas evangélicas têm se empenhado em exercer nas crianças e adolescentes. Muitas vezes se apropriando até mesmo de elementos da cultura dessa faixa etária para alcançarem seus objetivos, como os ritmos musicais do funk e do rock, o RPG, as HQ’s, etc. Isso a que as igrejas (não só as evangélicas, mas a católica também e todas as outras religiões) costumam chamar de fé, eu costumo denominar “cegueira”. E essa cegueira – consequência, obviamente, de séculos de cultura – só tende a se agravar quando combinada com a profunda lavagem cerebral que se faz na cabeça dos jovens desde cedo. Nos templos e nas igrejas, assim como no seio das famílias, ensina-se desde cedo à criança a não pensar: esse “não pensar” entendido como uma prática pedagógica e de costumes que levaria a não questionar os desígnios de deus. E por que eu falo em prática pedagógica logo vocês irão entender.

Acredito que esse processo de não pensar chamado “fé” não é o caminho para o entendimento do mundo, mas sim está em oposição fundamental à ciência moderna e ao método científico, e é sectarista e perigoso. Pois o grande problema não é a fé ou a crença, mas sim a cegueira a que se condenam os jovens, possíveis repetidores (ou “multiplicadores”, para usar uma terminologia da Didática). Jovens esses que, assim como os adultos de seu círculo de convivência, chegam à conclusão de que eles (e apenas eles) estão certos, o resto do mundo errado; e que, destruindo as outras crenças (ou a ausência delas) poderão tornar o mundo um lugar melhor.

Num documentário do escritor Richard Dawkins, autor de Deus: um delírio, chamado “The Virus of Faith” (O Vírus da Fé), é mostrado como a religião se espalha como um vírus e se fixa nos jovens antes mesmo de eles terem capacidade de chegar a uma conclusão por si mesmos, simplesmente por uma tradição familiar já existente. O ensino religioso, segundo Dawkins, representa uma vertente de grande parte das escolas em países como a Inglaterra, por exemplo, citada no documentário.

Não só na Inglaterra, mas também no Brasil há vários colégios particulares reservados aos religiosos cristãos, que instituíram o ensino religioso lado a lado com o ensino científico. Neste tipo de ensino, o criacionismo é tratado como uma ciência – ou seja, algo de fundamento e comprovado cientificamente – e ensinado antes do evolucionismo de Darwin e de outras teorias importantes para a criação do pensamento científico.

Essa é uma prática pedagógica grave e perniciosa. Chegar ao ponto de apresentar teorias religiosas – que são dúbias e mudam conforme a crença de cada um – como formação científica comprovada é um dos jogos mais sujos de que as instituições religiosas poderiam lançar mão. Não é uma aula sobre Teologia, onde alguém a separa da Ciência e mostra as diversas crenças existentes - algo que seria interessantíssimo do ponto de vista sociológico para mostrar mais sobre a cultura de alguns povos. Associado à História e aos estudos da Sociologia, o ensino religioso por essa ótica faria até muito sentido, principalmente se tratado de maneira crítica.

Essas instituições, porém, querem apenas vender a ideia de que seu homenzinho imaginário é o verdadeiro e deve ser cultuado. Onde está a verdadeira educação nisto? Onde estão os verdadeiros cientistas, os verdadeiros professores? Eu sempre achei que os professores e as instituições educacionais tinham como principal objetivo informar e passar o conhecimento adiante, e não formar opinião na mente de jovens que não estão ainda preparados para fazer suas próprias escolhas. Vende-se como ensino fundamental uma ideologia, um processo de educação totalmente parcial, pois se ensina primeiro a sua religião, não se ensina as outras e ainda transforma o evolucionismo científico de Darwin em algo secundário e desprovido de fundamentação científica.

Há também a questão da ética nisso tudo. E os professores que atuam nessas escolas devem ter também a mesma religião para assimilar todo o ensino “teológico” que será repassado aos alunos? E um aluno que não queira ter ensino religioso pode se recusar a assistir às aulas? Será que ele será tratado de maneira igual pelos outros alunos e pelos professores? Mas então alguém poderia argumentar que, por se tratar de uma escola católica ou presbiteriana ou judaica, se você não é da religião, por que iria matricular seus filhos lá. Opa! Mas agora as escolas são instituições de ensino separatistas? Devemos agora entrar em uma escola apenas se ela for da mesma religião que a nossa?

Apesar de ateu, não entendo o ensino religioso como um risco realmente, mas talvez se torne a curto prazo uma forma de desrespeito à crença dos outros ou à religião (ou à não-religião) dos profissionais de ensino. Algo nisso tudo me apavora muito mais: o separatismo que este tipo de método de ensino pode causar na nossa população a médio e longo prazo, o risco que o país se transforme numa nova Irlanda.

Tive uma infância boa, como toda criança deveria ter, passada na rua nas brincadeiras de moleque que hoje tendem a desaparecer. Menino de subúrbio, o contato com a rua e com os vizinhos fazia bem para os meninos da minha época, que desde cedo aprendiam a se relacionar com outras pessoas fora do círculo familiar. Isso ainda é bem comum em algumas cidades do Brasil, principalmente nos subúrbios e no interior. Mas, cada dia mais, as pessoas nas grandes cidades estão vivendo em apartamentos, que oferecem mais segurança e ao mesmo tempo distanciam as pessoas que, com toda a correria de uma metrópole, sequer conhecem direito seus vizinhos. Uma criança que é criada em apartamento nas grandes cidades, não raro, não tem muitos amigos no local onde mora. O relacionamento com outras crianças, fora os familiares mais próximos, fica a cargo da igreja que a mãe e o pai frequentam e da escola onde estuda.

Na igreja uma criança somente poderá se relacionar com seus pares, ou seja, outras crianças que partilham da mesma religião que ela. A escola para esses jovens se torna um escape, um lugar onde ela irá se relacionar com crianças das mais diferentes crenças e tipos. Alguns mais pobres, outros mais ricos, religiões diversas, negros, brancos, orientais, etc. Com o aumento das escolas religiosas no país, criaríamos uma verdadeira separação. Católicos, evangélicos, judeus, cada um em sua escola. Isso, somado a uma educação cada vez mais distante e despreparada dos pais e à maneira como nossa sociedade já desrespeita a crença dos outros, onde iremos chegar daqui 20 ou 30 anos?

Não devemos esquecer que o medo do desconhecido e ódio ao diferente é o que nutre o crescimento dos fundamentalistas religiosos. Criar nossos jovens sem que eles tenham contato com pessoas diferentes na escola pode resultar em algo muito maior do que apenas uma falha na liberdade de escolha das crianças. Talvez esse seja o maior preço que tenhamos que pagar por tratar o ensino e a educação como uma moeda de troca e mais uma estratégia do marketing furado religioso.

Além de discordar deste ensino religioso tendencioso das escolas particulares, também discordo plenamente do ensino religioso que se quer para as escolas públicas; onde, dizem, tentariam aliar o ensino religioso ao respeito às outras pessoas (hilário esse argumento!), à disciplina e à disposição para aprendizagem - como se um ateu não pudesse desenvolver essas qualidades.

Por fim, algo que talvez escape ao entendimento de muitas pessoas nessa questão toda é a fragilidade das mentes de crianças e jovens. E, por isso, eu alerto sobre o caráter pernicioso da lavagem cerebral que as religiões tendem a fazer nesse grupo. Eu ouso comparar o perigo dessa lavagem cerebral ao que modernamente se convencionou rotular como o mais abjeto e repugnante dos delitos: a pedofilia. A justificativa (bastante justa, sem sombra de dúvida) para tal rotulação advém dos estudos da Psicologia, segundo a qual crianças de 6 a 10 anos encontram-se numa fase chamada "latência"; ou seja, é um período de reorganização e preparo para a puberdade e uma posterior vida adulta saudável do ponto de vista mental. A estimulação e exposição precoce ao erotismo levaria a criança a se lançar na vida sexual ativa sem a devida preparação.

E aqui eu coloco a pergunta: a exposição precoce a conceitos religiosos, nessa fase da vida, não seria também uma violência à criança? Estaria ela realmente preparada para portar antolhos já nessa idade? Com que direito os adultos, pais e educadores, decidem pela religiosidade ou não de uma criança? Richard Dawkins, em Deus: um delírio, chama a atenção para isso quando questiona: “nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que - por consenso quase universal - pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é a sua opinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos.”

17.7.10

CAMPANHA PELA VIDA: Eu cuido da minha, você cuida da sua!



"Compensando a anatomia, o povo fala sem ter dó
São dois olhos, dois ouvidos, mas a boca é uma só
E fala, o povo fala mesmo

O povo fala, o povo fala mesmo"

(Ana Carolina)



A ideia desta campanha não foi minha. Ela já rola pela internet faz tempo. Mas, muito embora seja uma campanha que aponte humanisticamente para atitudes nobres, fidalgas e dignas, não logrou surtir efeitos mais abrangentes. Há que se considerar, infelizmente, que a internet nunca foi campo fértil para se estimularem atitudes nobres, fidalgas e dignas...

De qualquer maneira, cá estou: mais um a se apropriar da boa intenção da campanha e tentar fazer a minha parte. Quem sabe um ou dois leitores desse ilustre desconhecido blog decida pôr em prática a ideia: reproduzir em bottons, camisetas, capas de caderno, outdoors... sei lá, algo que chame à atenção as cabecinhas mais toscas e limitadas.

Já perdi algum tempo aqui mesmo neste blog alertando para o perigo viciante que consiste em se dedicar à vida alheia. Numa postagem de 07/01/2007 intitulada “Alteridades”, eu já tinha cantado essa pedra. No texto cito, inclusive, um pequeno diálogo de autoria desconhecida para mostrar que, geralmente, a falha ou a falta que apontamos nos outros são nossas próprias falhas ou faltas projetadas. Ou, como diria Sartre, em uma de suas frases magistrais (e minha preferida) na peça Huis Clos, “l’enfer, c’est les autres” (“O inferno são os outros”). Transcrevo aqui o diálogo citado na postagem de 2007:



Olhar o defeito do outro

A mulher olhou através da sua janela, apontou para o quintal da vizinha e disse ao marido:
- Há dias venho observando como é encardida a roupa da vizinha. Eu teria vergonha de pendura no varal uma roupa tão mal lavada. Isso é relaxamento, um desleixo... Na verdade, acho que é preguiça.
O tempo passava... e, cada vez que ela voltava a observar, as roupas tinham um aspecto pior. Certo dia, uma surpresa! Ao reparar nas roupas da vizinha, ficou abismada. Estavam brancas, limpinhas, as cores vivas.
- Criou vergonha, disse ela. Perdeu a preguiça e esfregou mais, ou então trocou a marca do sabão.
- Nada disso, replicou o marido. Fui eu que lavei.
- Lavou a roupa da vizinha?
- Não, mulher. Lavei o vidro da janela. Era ele que estava encardido.



Há também uma outra postagem de 12/07/2007 intitulada “Contra a maledicência e o sarcasmo, use a abundância de ideias, de amores e de risos”, onde pego mais leve com os fofoqueiros e até revelo uma certa complacência paciente e alguma generosidade. Algo realmente espantoso para minha natureza cáustica e cínica!

O fato é que não há como ser complacente nem generoso com os fofoqueiros e maledicentes de plantão. E essa é a uma grande verdade. Para eles, de agora em diante, limito-me a proferir em alto e bom som um grande F.O.D.A.-S.E.

E digo mais: pelo que observo nos fofoqueiros e maledicentes que me rodeiam, cada vez mais me convenço de que a origem e motivo desencadeador dessa prática mesquinha só pode residir numa puta falta de sexo de qualidade. Pessoas que não trepam com frequência, ou trepam sem tesão, costumam dedicar boa parte de suas vidas a tomar conta da vida alheia. É sintomático isso. Prestem atenção na cara dos fofoqueiros: a pele é feia, sem viço, o sorriso é raro. E isso não tem nada a ver com o fato de, na maioria das vezes, tratarem-se de baiacus ou barangas. Não, não é a ausência de beleza exterior que condena essas pessoas a uma aridez sexual, mas sim de uma beleza interna que elas mesmas nunca conseguirão experienciar; porque seus corações e almas são assombrosamente medonhos, verdadeiros retratos de Dorian Gray. Essas pessoas são como aquelas retratadas no “Blues da piedade” de Cazuza, sem tirar nem pôr:


“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada”


E agora, para os fofoqueiros e fofoqueiras: limitem-se a buscar suas satisfações (não só as sexuais) perdidas há tempos e larguem do meu pé! Porque eu, caros maledicentes de plantão, estou cagando para todos vocês. Porque tenho como missão justamente isso: incomodar todos vocês, chocar, escandalizar, perceber o mal-estar de vocês diante da minha cagada homérica no centro de suas salas assepticamente arrumadas e sem vida. Portanto, trepem mais... e fofoquem menos!




PARES CUM PARIBUS CONGREGANTUR


Quando nasci
não nasci torto
nem feio.
Como bom leonino
saltei na vida
e pedi a palavra
— Gauches são vocês, meus caros!

Onomástico sete
cabra no chinês
elemento fogo
incomodo antes
por ideologia
depois por aparecer.

Que me juntem aos pares
que me apontem na rua
que me lancem maldição!...
mas não me peçam
moderação ou paciência.

Não serei menor que meu mundo,
meu tempo, minha boca.
E além do mais
acredito na possibilidade
de se recuperarem os povos.

Fujo do igual
e no diferente
me encontro com o igual.

Vão lá vocês entender isso!

(Edmilson Borret)

22.6.10

Os medos do mundo são tantos...


“Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.”

(Oswaldo Montenegro)



Há quem diga que no mundo existem só dois tipos de pessoas: as corajosas e as medíocres. Maniqueísmos à parte, talvez haja na afirmação alguma verdade. O que me levaria, entretanto, a um sofrido impasse existencial que, ainda que subjetivo, me colocaria numa tensão quase que dialética com meu alterego: estarei eu no primeiro ou no segundo grupo de pessoas?

Sei lá... Mas acho que entre o que penso e o que deixo transparecer, ainda consigo me manter no primeiro grupo. E haja lombo para chibatadas por conta dessa escolha!

O fato é que há pessoas com medo de tudo, optando por entregar-se ao desânimo, à preguiça, à estagnação, à manutenção do status quo. O medo tem um poder destruidor, assemelha-se a um gás paralisante... Quem tem medo não age: repete ações pré-estabelecidas.

Vem-me à mente aqui a clássica e antológica fábula dos anos 70, Fernão Capelo Gaivota. Muito embora minha frieza de ateu convicto me leve a manter o pé atrás para o substrato cristão/espírita que perspassa toda a obra de Richard Bach, devo confessar que gosto muito do enredo do livro. Fernão Capelo Gaivota é uma ave que não se contenta em voar apenas para comer. Fugindo do lugar-comum, tem prazer em voar e esforça-se em aprender tudo sobre vôo. E, justamente por ser diferente do bando, é expulso, execrado, visto com olhos de desconfiança quase piedosa.

Para Fernão Capelo Gaivota, assim como para os que não se submetem aos medos e desmandos, o importante não é viver uma vida em busca do que comer; e sim, do conhecimento da arte do vôo e da velocidade perfeita. Ainda que seja a velocidade de um soco desferido num momento de raiva, de um grito que se ouviu a quilômetros ou de uma palavra impensada que te custe uma retratação na forma da lei.

A moral dessa história, contudo, é que existe o medo real e o medo inventado. E, quando paro para pensar nisso, fico me perguntando se o medo é, de fato, um senso de autopreservação ou uma forma vergonhosamente mágica de mantermos nossa parcela de mediocridade, cabisbaixos que nos tornamos, levando uma “meia vida”.

O medo tem sim seu valor, acredito eu. Por conta do medo, mensuramos o perigo. Por conta do medo, abstemo-nos de nos arriscar. Por conta do medo, traçamos um raio limite de até onde ir, sem risco... SEM RISCO!!!

Conformados, amarrados por grilhões imaginários (mas que sangram o pulso e, por que não, o peito), nos mantemos estáticos, assegurando uma vida sem sobressaltos e perigos inesperados.

Enquanto isso o tempo passa... sempre. Nossa “meia vida” está cada vez mais vinculada aos nossos pseudo-medos que asseguram nossa pseudoestabilidade até o nosso agendado fim. Previdenciário fim. Merecido e honrado fim.

Não nos damos conta que perdemos nossas referências e nossa ousadia por não estarmos preparados para tantos ousados e necessários riscos. Prevenimos de mais, acatamos de mais, nos mostramos de menos... Como crianças que vivem em estufas de ar puro e que não têm, portanto, anticorpos para brincar na rua... Acabamos por nos tornarmos os rinocerontes de Ionesco... Absurdamente rinocerontes! Caladamente rinocerontes!

Viver é altamente perigoso, já sentenciou Riobaldo em Grande sertão: veredas. E isso é fato. Mas também, não há que haver regras nesse jogo. Pois sem tentar, sem arriscar, sem gritar nem falar alto, é “meia vida” mesmo!... é WO vergonhoso! E isso também é fato!

Mensagem válida para jovens (de espírito e de matéria) que ainda pensam no futuro; para os tolos que fazem da negação e da autoilusão motivo para sofrer e fazer sofrer; para pais que não sabem como lidar com os filhos na cruel sociedade moderna; para os apaixonados e outros “ados” que têm medo de se mostrarem como tais; para todos os apegados a referenciais imutáveis e, especialmente, para cães que têm medo de vassoura e para professores que desaprenderam o revoltar-se.




O OCASO

“Par délicatesse, j’ai perdu ma vie.”

(Rimbaud)



Num átimo

despenquei do meu olimpo

e vim dar na terra dos rotos

esfarrapados e patéticos...

De besta que sou

acreditei na fagulha

que nos olhos de toda humanidade

me acenava

A desmedida fez de mim

o Prometeu desusadamente tolo

arrogante e néscio

Nesse sem-fim dos meus dias

a corroer-me cérebro e entranhas

Ai que estou farto da bondade alheia!...

E cansei-me de mim

Cansei das repetidas

palavras de amizade

dos homens e mulheres de bem

Quero o vendaval

dos sentimentos torpes e imundos

Quero a poeira dos solos

a queimar-me a língua

Quero a podridão da carniça

a invadir-me as narinas

Sou todo os Riobaldos desse mundo

perdido em sua neblina jagunça

nesse sertão sem vereda

- Ai essa Minas me aniquila !

Não me falem

da beleza das relações

Muito menos da promessa de vida

na aurora dos dias

Não me prometam

amizade eterna

Não vertam suas lágrimas

em minha intenção

Deixem-me em paz, oh bonzinhos de merda!

Que eu quero ir

na direção contrária ao engodo

de seus olhos

de escárnio e piedade

Soltem-se as amarras

do meu barco infeliz e louco

Que eu quero partir desse cais

e ir ser menos que eu

no mar revolto

das garrafas de náufragos...

Antes a frieza das geleiras

dos mares do norte...

Antes as tentações

no deserto escaldante

de minha alma...

Antes as pernas abertas das putas

e o canivete oculto dos michês...

A assepsia do sorriso

e das mãos de todos vocês

me enoja

Causam-me ânsias

suas certezas medrosas

suas felicidades fingidas

seus amores de novela das oito

Oh corja vil de perdedores!

Saiam do meu caminho

Desimpeçam minha sarjeta

Não me estendam a mão

Não me dirijam a palavra

Que os esquecerei

com a mesma violência

com que todos vocês outrora,

em seu canto de sirena,

me levaram à perdição.


(Edmilson Borret)

19.12.09

Eu fumo sim... e estou vivendo.


Hoje, o presidente do TJ-RJ suspendeu a liminar que permitia o fumo em ambientes reservados nos bares, restaurantes, hotéis e similares do Rio. Segundo ele, a liminar “caracterizava grave lesão à ordem pública, refletida na paralisação de importante política pública de proteção da saúde”. Em defesa da decisão do presidente do TJ, o procurador do Estado, Flávio Willeman, disse que a derrubada da liminar contribuiu “para a política do governo que visa a proteger a saúde da sociedade fluminense e, sobretudo, evitar a proliferação do fumo passivo”.

Babaquice! Babaquice! Babaquice! Mil vezes babaquice!!!

Mas peraí! De que ordem pública estamos falando? A mesma que proíbe meu cigarro, mas permite o caos urbano responsável pela liberação de gases tóxicos por carros, ônibus e caminhões nas vias públicas? Ô não-fumante, torça o nariz para o meu cigarrinho, ok? Vire seu rosto para o outro lado. Ah... desculpa! Nem vi que do outro lado havia uma rua apinhada de automóveis... Foi mal, tá?

Política pública de proteção da saúde???!!! Mijei de rir agora... Vivemos realmente na era da hipocrisia! Não fumem, cidadãos! Mas bebam! Bebam o quanto quiserem! Bebam para esquecer que vocês são todos uns otários por acreditarem nas boas intenções de nossas políticas públicas de proteção à saúde! Bebam, porque beber é permitido e até incentivado em propagandas caríssimas nas tv’s e rádios! Bebam, seus otários! Porque cu e miolo mole de bêbado não têm dono.

Evitar a proliferação do fumo passivo??!! E com a proliferação do embotamento cerebral ativo ninguém se preocupa?! O chato do Dráuzio Varella (porque, vamos combinar, todo antitabagista é um chato em potencial), em defesa da lei antitabaco de São Paulo, diz que “os fumantes passivos estão sujeitos a sofrer dos mesmos males que afligem os ativos”. Puta que pariu com batatas! Então tem passivinho aí inalando fumaça que não a mesma que a minha. Porque, em mais de 20 anos de fumo, minha pressão arterial é perfeita (aliás, até meio baixa), minha atividade cardiovascular não apresenta nada de anormal e, mesmo depois de perder quase a totalidade de um dos pulmões por conta de uma tuberculose não diagnosticada a tempo (atentem para o fato de que tuberculose é causada por uma bactéria, ok? nada a ver com o fumo),continuo fumando desbragadamente sem o menor sinal de insuficiência respiratória, cansaço ou algo parecido. Minha mãezinha, que nunca fumou, morreu aos 49 anos de ataque cardíaco fulminante. Minha tia, filha da mesma mãe e do mesmo pai, que fuma desde os 15 anos, ainda está firme e forte do alto de seus mais de 70 anos de vida. Donde concluo, do fundo da minha ignorância e da minha laicicidade no campo da medicina, que esse papo todo de associar o fumo a males pulmonares, sobretudo o câncer, é meio conversa pra boi dormir... O foda é que sofro de insônia crônica!rsrs

Mas, continuando nessa questão do fumante passivo, babaquice isso de proibir o fumo em todos os bares, restaurantes e afins. Bastaria que se estabelecessem bares e restaurantes onde o fumo fosse proibido e outros onde não fosse. Não-fumantes frequentariam os primeiros; fumantes, os segundos. Pronto! Igualdade de direitos para todos! Ou será que essa raça nojenta de fumantes tem mais é que permanecer mesmo sob essa espécie de regime de apartheid anacrônico em pleno século XXI?

Os detratores do fumo ainda saem com pérolas tais como: “O pior é, para quem não fuma, ter que respirar essa fumaça. Se querem fumar, que fumem...longe das pessoas! Não quero respirar essa fumaça que me dá alergia. É falta de respeito! Além de ser muito triste ver as pessoas se matando.” Ah... vão se foder, porra! E se eu for alérgico ao seu perfume vagabundo da Avon? Vou criar uma lei que proíba seu Cashmere Bouquet, seu Unforgetable ou seu Sweet Honesty em bares e restaurantes? Ou pior... E se você nem gostar de usar perfume vagabundo da Avon? E se você nem gostar de tomar banho? Serei obrigado a aguentar sua inhaca de bode nos bares e restaurantes que frequento? E se seu Avon vagabundo e sua inhaca de bode também me causarem problemas respiratórios? E vamos parar com esse papinho babaca de que “é triste ver as pessoas se matando”. Se você não quiser ver (até porque eu não acho que esteja me matando; e, se estiver, é problema meu: foda-se você!), é só não olhar pra mim, porra!

A verdade no fundo de tudo isso é que essa oposição exacerbada ao tabaco baseia-se mais no desgosto das pessoas que circundam os fumantes, do que realmente em motivos de saúde. E isso se deve ao mal desse início de século XXI: o tal do politicamente correto. O mesmo politicamente correto dos ciclistas, por exemplo, que se arvoram estar contribuindo para a salvação do planeta e que parecem pensar que, justamente por conta dessa missão altruística, não precisam obedecer às leis de trânsito. O mesmo politicamente correto dos moralistas de plantão, que veem pedofilia em tudo hoje em dia, mas que exacerbam a sexualidade precoce em seus filhinhos e filhinhas nas festas infantis de aniversário ao incentivarem os mesmos a dançarem o créu, na mais pura demonstração de orgulho paterno: “Olha como ele(a) dança direitinho! Que coisinha mais guti guti!” O mesmo politicamente correto que chama cego de deficiente visual; surdo, de deficiente auditivo; negro, de afro-descendente; mas que, no fundo, está cagando para esses grupos: cotas para eles e interferências na linguagem... já está de bom tamanho, eles que se virem com suas especificidades!

Esse mesmo politicamente correto que, há algumas décadas atrás, transformou todos os não-fumantes em fumantes passivos. E, com isso, condenou os ativos ao fogo eterno da culpa. Mas há uma coisa que poucos sabem e que as campanhas antifumo não dizem. No site da Organização Mundial de Saúde, procure que você achará uma informação que vai abalar seu mundinho de convicções intocáveis. O país de maior longevidade saudável é, por acaso, o terceiro onde o fumo per capita é maior. Que país é esse? O Japão. Saiba que japonês só não fuma quando toma banho de chuveiro.

Não fumo em locais fechados, não fumo em ônibus, nem em elevadores. Respeito seu direito nesses locais (embora você não respeite o meu com seu perfume vagabundo da Avon ou sua inhaca de bode). Portanto, seu babaca não-fumante, vou lutar com unhas e dentes (amarelados pela nicotina) por esse meu direito que, tenho a mais absoluta certeza, não prejudica ninguém senão o narcotráfico, que está à espreita, torcendo para que o cigarro seja cada vez mais banido.
Farei isso nem que tenha que entrar em luta corporal com algum segurança de bar ou restaurante, estabelecimento que será devidamente processado por ameaça ou dano à integridade física do cliente fumante aqui.

10.3.09

"Provavelmente não há Deus. Então pare de se preocupar e aproveite a sua vida"

.



Esta frase inteligentíssima anda circulando nas laterais de ônibus (os chamados “ônibus ateus”) nas grandes capitais européias recentemente. E, como era de se esperar, tal frase tem suscitado reações por parte da cristandade que chegam a beirar a bestialidade. Em Gênova, a concessionária de publicidade nos meios de transporte públicos IgpDecaux considerou que o slogan é provocatório e não se enquadraria no código de ética da propaganda italiana. E aí eu fico me perguntando o que essa mesma concessionária diz a respeito dos vários panfletos e anúncios que vemos em ônibus e outros locais públicos quando das ocasiões festivas em homenagens às tantas “nossas senhoras” que a cristandade resolveu adorar. Dois pesos, duas medidas?! Cômodo, não? A associação italiana União dos Ateus e Agnósticos Racionalistas (UAAR) resolveu entrar com uma representação contra a concessionária e pedir que a prefeitura de Gênova revogue o contrato com a IgpDecaux. A prefeita da cidade, que é laica, tinha se declarado favorável à campanha, realçando o direito de liberdade de expressão. A UAAR pretende ir até a Corte de Justiça Européia, se for necessário. Pois é, lá esse papo de direito de expressão é levado muito a sério. Aqui no Brasil, anúncios como esse nem teriam chances de serem vinculados. Num país em que até mesmo manifestações artísticas como novelas, filmes, peças de teatro, desfiles de escola de samba, etc. são monitoradas pela santa igreja católica e protestante em busca de ímpios iconoclastas, imagina se um grupeco de ateus teria vez e voz.

Quando, há alguns meses atrás, resolvi “sair do armário” e me declarar ateu, provei o amargo gosto de todo o preconceito e discriminação declarados que até então eu nunca havia provado em toda minha existência. Mesmo tendo nascido negro, pobre e fudido, se preconceitos sofri na vida por conta dessa origem, estes foram, em sua grande maioria, velados e/ou dissimulados. Mas quando resolvi gritar “sou ateu”, choveram esculhambações abertas de toda parte. Eu poderia ter dito que gosto de comer criancinhas (“comer” no sentido de “deglutir”, ok?), que me amarro em dar a bunda ou qualquer outra coisa considerada cabeluda pelo senso comum, mas jamais afirmar que deus não existe. Isso não! As pessoas de bem não estão preparadas ainda para uma declaração tão bombástica assim...

As pessoas de bem excomungam meninas de 9 anos que abortaram depois de terem sofrido estupro cometido pelo próprio padrasto, mas não excomungam o estuprador. “O estupro é algo menos grave que o aborto”, segundo a lógica torta do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho. As pessoas de bem se engalfinham para provar que são mais “de bem” que seus pares: matam semelhantes por suas crenças, mandam semelhantes para a fogueira ou para os campos de concentração e extermínio, empurram semelhantes para as faixas de Gaza e guetos mundo afora, desconsideram heranças culturais e étnicas ao demonizarem semelhantes em emissoras de TV e jornalecos distribuídos nos templos nababescos de bispos abastados pelo dízimo dos fiéis.

Mas o que mais me terrifica nas atitudes das pessoas de bem é a lavagem cerebral nefasta que ultimamente elas têm se empenhado em fazer nos jovens e adolescentes. No meu Orkut é crescente o número de alunos adolescentes que estampam em seus perfis o fato de serem protestantes... O problema é que a maioria deles nem sabe o que significa isso. Papagaios de pirata que são, repetem bordões do tipo“só Jesus salva”, “deus 100% fiel”, “eu acredito e confio em deus”, mas ostentam nicks do tipo “putão”, “muleke prostituto”, “muleke 157”(referência ao art. 157 do Código Penal que trata de roubo e latrocínio). Não que um prostituto (ainda que apenas no reino do virtual) ou um “ladrãozinho da boca pra fora” para impressionar as “gatinhas” não possa se declarar protestante. Mas o que percebo aí é a falta de convicção desses adolescentes, observada de forma flagrante em suas atitudes e pensamentos e revelada num breve passeio pelas suas descrições orkutianas, suas comunidades, seus vídeos do youtube, etc. Ouviram o galo cantar sem saber onde. Seus pastores (talvez lobos guardando ovelhas) acenam-lhes com promessas de vida eterna, não importando suas atitudes questionáveis ou delinquências visíveis: o que importa é atrair esses jovens para a seita. Ainda que eles não tenham a mínima idéia do que estão bradando ao propagarem o“só Jesus salva”, o que importa é que eles bradem com toda a força de seus jovens pulmões. Algumas dessas seitas chegaram ao cúmulo de se apropriarem daquilo que mais agrada a esses jovens, a cultura questionável do funk erótico, para levar adiante seu processo de lavagem cerebral. Adaptaram a sofrível “dança do Créu”para o universo cristão. É grotesca a cena nos templos: jovens rebolando a bundinha e a pélvis, executando gestual abertamente erotizado, quase que em transe, hipnotizados, repetindo palavras que parecem em total desacordo com a mise-en-scène que se vê: “Pra ir pro céu tem que ter muita oração/ Pra ir pro céu tem que ter é santidade/ O inimigo, ele não dá mole não/ Porque só Jesus Cristo é que salva de verdade/ Céu, céu, céu, céu, céu”... Tudo é válido, segundo os pastores dessas seitas. O negócio é arrebanhar um número cada vez maior de jovens. Seria cômico, se não fosse trágico. Vejam os vídeos:






Numa sociedade de pessoas de bem, há leis que protegem nossas crianças e adolescentes do assédio de, por exemplo, pedófilos e aliciadores do tráfico; mas infelizmente não há leis que os protejam da sanha dos sacerdotes. Estes tão ou mais perniciosos que aqueles...



E tudo isso por quê? Porque a humanidade não consegue viver sem seus mitos, não consegue sobreviver enquanto humanidade se não puder depositar o mérito de seus sucessos ou fracassos numa força sobrenatural, numa deidade qualquer: deus, jeová, alá, shiva, oxalá, osíris e tantos outros. Se, para fazer parte desse seleto rol das pessoas de bem, eu tiver que me render a essas deidades, prefiro ser olhado de esguelha pelos meus detratores. Decididamente, por essa ótica caótica, nunca serei uma pessoa de bem...

3.11.08

Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur...

.


Terminado todo o processo eleitoral aqui no Rio, quase mergulhei em profunda depressão. Desconectei do Orkut e do MSN por um tempo e fui fazer outras coisas... Era preciso me afastar um pouco da sujeirada toda que foi essa eleição. Opções: ler um bom livro ou fazer as pazes com o dvd player e pôr em dia a paixão pelo cinema... Optei pela segunda. Lembrei-me que havia pegado emprestado com um amigo o box da 1ª temporada de Roma, excelente séria exibida pela HBO. Assisti a dois ou três episódios antes que o tédio me fustigasse. Belíssimo roteiro que mistura personagens históricos e fictícios, um tratamento magistral das questões políticas e a “cidade eterna” hollywoodianamente reconstituída como provavelmente tenha sido: caótica, imunda, perversa, colorida e atraente como uma metrópole do terceiro mundo. Os produtores da série falharam, talvez, na escolha dos atores que a protagonizam (Kevin McKidd e Ray Stevenson): ambos têm o physique de rôle mais para o “Royal Shakespeare” do que para os dois legionários romanos que encarnam. Kevin McKidd é Lucius Vorenus, o centurião (uma espécie de sargento), um cidadão-modelo da República; Ray Stevenson é o soldado Titus Pullo, fanfarrão e mulherengo, chegado a brigas e confusões. Os dois são citados en passant no livro de Júlio César sobre a guerra da Gália como pilares da disciplina romana: embora se odiando, lutavam sempre juntos. A amizade instável dos dois reflete, sem dúvida, a também dividida e conturbada política daquele período. Aliás, a meu ver, o período mais fascinante de toda a história de Roma: a República encontra-se em seus momentos finais, delineada pela apatia e corrupção dos aristocratas no Senado e a ascensão vertiginosa de César. Um César que, apesar de nobre, cresce defendendo as causas da plebe, mas prepara também o caminho para o poder absoluto que seu sobrinho-neto Octavius consolidará como o primeiro imperador. Uma República de poderio inimaginável, cuja busca a qualquer preço pela conquista de um império acabou destruindo os valores tradicionais de austeridade e sacrifício que a tornaram grande, com o aumento das desigualdades sociais e a política se tornando um jogo corrupto de compra de votos e populismo escancarado. Opa!!! Algo lhe soa familiar, caro leitor?! Não à toa, intitulei esta postagem com um dos versos mais famosos das Sátiras de Horácio: “Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur” (“Por que ris? A anedota fala de ti, só que com outro nome”). Pois é, e lá me vejo eu de volta ao tema que procurava esquecer quando decidi me dedicar ao prazer da arte cinéfila!

O resultado dessa eleição no Rio deixou claro uma coisa: nosso novo alcaide é uma bosta! Mas uma bosta que deve ter feito a lição de casa direitinho e, como filho bem nascido que foi, deve ter bebido nos manuais de História numerosos exemplos a seguir: entre eles, sem dúvida alguma, o César romano que aparece na série da HBO (não à toa, seu mentor e criador nos tempos atuais também se chama César!). E aqui uma curiosidade da campanha eleitoral do nosso próximo alcaide: além da corrupção e compra de votos, do populismo escancarado ("Upa pra lá e pra cá... Vigi, que coisa mais linda!"), soube ele tocar demagogicamente num ponto caro para o eleitorado menos informado – a educação! Prometeu mover céus e terra para que nossas crianças tivessem uma educação de qualidade... Bom, até aí nada de surpreendente! Uma das primeiras obrigações de todo governante, imediatamente depois de assegurada a segurança da sociedade (segurança entendida em todos os sentidos: profissional, econômica, social, etc.), seria ocupar-se do bem-estar da geração seguinte. E a educação é, indubitavelmente, o principal pilar desse bem-estar. Entretanto, quando se pensa em discutir o binômio “educação-instrução para a vida”, parece-me que toda preocupação acaba recaindo não raro sobre dois campos do saber: linguagem (aí compreendido, sobretudo, o aspecto formal do ensino da língua materna) e tecnologia (aí compreendidas a Ciência e a Matemática). No momento histórico que vivemos, marcado por desafios cada vez mais complexos no campo da medicina e por ameaças cada vez mais presentes por conta de conflitos e guerras, seria até perdoável essa ênfase em campos que parecem prometer um maior avanço da humanidade. O grande problema, porém, dessa maneira de se pensar a “instrução” me parece ser a subjugação da História a um segundo plano nas escolas e na sociedade em geral. A História é talvez uma das disciplinas mais controversas exatamente por causa de sua natureza mesma: difere da Matemática por estar recheada de argumentos discutíveis em vez de provas concretas; mas difere também da Ciência justamente por apresentar fatos contra os quais nenhuma quantidade de experiências pode provar qualquer coisa conclusiva. A História convida a uma releitura constante. A História é talvez, de todas as disciplinas, aquela em que o maior número de idéias opostas podem harmonizar-se e serem aceitas como legítimas. Até mesmo o estudo das religiões é um produto da maleabilidade histórica, faz parte do reino da História. E essa maleabilidade histórica se traduz de várias maneiras: ninguém pode discutir, por exemplo, que o Império Romano caiu; há dúzias de teorias sobre por que caiu, quando caiu, e como caiu, e a maioria destas teorias é legítima porque não se excluem umas às outras. Eis por que entendo que a História seja a disciplina mais importante na instrução escolar. Precisamente porque não é algo tão concreto quanto a Matemática ou a Ciência; porque não exige a memorização de equações nem tem uma desconexão com a emoção humana: é o percurso da humanidade desde lá do seu início, o relato de tudo que experimentamos desde nossos primeiros passos sobre a Terra; mostra de quão longe viemos em nossa compreensão coletiva do que é a vida e de como estabelecemos o valor das coisas. Mas, sobretudo, nos ensina onde erramos no passado e como podemos evitar tais erros no presente e no futuro. A instrução que relega a História ao segundo plano encontra-se, irremediavelmente, em total desconexão com o futuro e seus avanços; tornando a sociedade vítima de falhas econômicas e sociais... E o que é mais triste: perplexa diante de tais falhas e ignorante de suas causas!
O não conhecimento da História permite que loucos a manipulem a seu bel-prazer. As religiões todas estão, talvez, entre os maiores deturpadores da História por não tentarem compreendê-la em suas múltiplas possibilidades; mas por tentarem fazê-la caber no espectro estreito de seu sistema e de seus dogmas. Não só a religião padece desse mal que é o desprezo pela História, entretanto: a política, quando lhe convém, consegue ser igualmente perniciosa. Nunca haverá nenhum substituto para o conhecimento histórico (nem mesmo o filosófico e o literário, creio eu), e a ausência deste conhecimento significará campo fértil para a desonestidade e a corrupção; o que fará da humanidade uma sucessão de gerações de palhaços ignorantes que vêem o mundo através de suas próprias vidraças embaçadas, pensando tratar-se da realidade... Sem o conhecimento da História, estaremos fadados a viver na Matrix!

A mesma Matrix que parece ter cegado boa parte do eleitorado carioca no último pleito... Atribuir ao adversário a intenção de deitar por terra “valores cristãos e morais” já seria suficiente para deixar boquiaberta qualquer pessoa razoavelmente informada e capaz de juntar dois mais dois. Mas o mais chocante é que alguém possa ter concebido, em pleno 2008, uma campanha baseada na demonização de seu adversário: o discurso é tão vazio de racionalidade quanto a pregação do racismo, da guerra santa ou do nacionalismo do século XIX. O mesmo apelo à irracionalidade aparece no esforço para semear a rivalidade e o ódio entre regiões de uma cidade já tão dividida, como se esta eleição fosse uma disputa entre o Rio menos desenvolvido e Rio orgiástico da zona sul. O recado efetivo do próximo alcaide, ao acusar a elite zona sul de odiar os desprotegidos do subúrbio, não foi contra um grupo concreto e identificável por suas ações. Até por que ele mesmo, nascido e criado na zona sul, apelou para o populismo do César romano e se arvorou o defensor dos pobres, dos fracos e dos oprimidos: até na lama entrou em defesa de seu povo... Só faltou criar uma biografia onde aparecesse acordando cedo, pegando ônibus lotado com a marmitinha embaixo do braço. Ou seja: criou, no seio dessa elite que ele mesmo condenou, um subgrupo que poderíamos chamar de “a elite boazinha e abnegada”. Mas quem seria essa elite podre e preconceituosa? Em que ela se diferenciaria daquela que trabalha, que acorda cedo e que é boazinha, segundo a ressalva do nosso futuro alcaide? Mais uma vez a História nos mostra que os pregadores do racismo, por exemplo, nunca deixaram de reconhecer a existência de negros bonzinhos e respeitosos. Mas a mensagem eficiente deles sempre foi a do ódio racial, a do apelo à irracionalidade e aos sentimentos mais perigosos... Muito perigoso todo e qualquer discurso que prega o separatismo, ainda que se façam ressalvas canalhas!

Diante do que foi esse pleito na cidade do Rio de Janeiro, resta-nos a perplexidade diante do estado de coisas: os loucos não seríamos nós, atentos aos descalabros de toda a História, que olhamos a cena política carioca e apontamos o estado de manicômio em que ela se encontra? Alguém até poderia inquirir: “Por que se incomodar com os loucos? Deixemos os loucos com sua loucura!”. Ora, se a questão fosse assim tão simples, não haveria problema algum. O problema é que os loucos querem se tornar governantes (e aqui no Rio tornaram-se de fato); e, a partir do poder, querem moldar os homens à sua loucura: a isso chamamos de engenharia social. Às vezes dá uma vontade enorme de colocarmos entre nós e o manicômio chamado Rio uma distância segura e higiênica. Mas seria covardia abandonar o barco agora e deixá-lo nas mãos de timoneiros inescrupulosos. Resta-nos a nós continuarmos aqui denunciando periodicamente que o estado de loucura está aumentando e funcionarmos como sentinelas atentos e prontos para, a qualquer momento, medir a vazão do leito de um “rio” que corre o risco de passar por uma enchente. Pois enchente, todos sabemos, não poupa ninguém.

Nunca perdendo de vista a importância dos ensinamentos da História para o esclarecimento das gerações, cabe aqui lembrar Tomás Antônio Gonzaga e suas Cartas chilenas, que narram as desordens do governo de Fanfarrão Minésio, general do Chile, e em cuja “Dedicatória aos Grandes de Portugal” lemos:

Dois são os meios porque nos instruímos: um, quando vemos ações gloriosas, que nos despertam o desejo da imitação; outro, quando vemos ações indignas, que nos excitam o seu aborrecimento. Ambos estes meios são eficazes: esta a razão porque os teatros, instituídos para a instrução dos cidadãos, umas vezes nos representam a um herói cheio de virtudes, e outras vezes nos representam a um monstro, coberto de horrorosos vícios.

Entendo que V. Exas se desejarão instruir por um e outro modo. Para se instruírem pelo primeiro, têm V. Exas os louváveis exemplos de seus ilustres progenitores. Para se instruírem pelo segundo, era necessário que eu fosse descobrir o Fanfarrão Minésio, em um reino estranho!


E no “Prólogo” da obra, Tomás Antônio Gonzaga dá o mesmo recado:

Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.

(...)

Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo...


Sem medo algum de me acusarem de sensacionalista, ouso prever que o futuro do Rio de Janeiro será de sombras e assombros e, como tal, não deixará de haver assombrações. Além das Sátiras de Horácio lembradas no título desta postagem, cabe aqui outra citação latina: a de Cícero, em De Senectute, que diz que “pares cum paribus facillime congregantur” (“os iguais com os iguais facilmente se juntam”). Somos espectadores de uma alquimia partidária estranha de indivíduos que hoje sorriem entre si, mas que amanhã se devoram. Só a História dirá se estou certo. Essa mesma História da República do César romano. Essa mesma História tão pouco cogitada na instrução escolar. Essa mesma História que nos ensina tal como Horácio: Mutato nomine, de te fabula narratur... Ninguém estará livre de ser cobrado pela cumplicidade que advém da ignorância da História, ainda que esta cumplicidade tenha a forma de um mísero voto, um voto como aqueles que elegeram Hitler.
Related Posts with Thumbnails