


A palavra “quase” que aparece no título é de uma exatidão impressionante (por mais paradoxal que essa minha afirmação possa parecer). Da tentativa de aproximação entre a classe média e os moradores da favela, o que sobra é apenas um planar sobre um imenso abismo. É dessa aproximação de aparência harmoniosa, porém tensa e nunca consolidada, que Lucia Murat vai construir as situações mais emblemáticas entre os personagens de Quase dois irmãos. A história – que basicamente acompanha dois personagens, Miguel e Jorginho, durante os últimos 50 anos – desenrola-se em três períodos distintos: a década de 50, época da infância dos dois; os anos 70 e o regime militar; e a época atual.

Na romântica década de 50, Miguel é filho de um boêmio jornalista branco e de classe média (interpretado por Fernando Eiras) que acompanha as rodas de samba promovidas pelo talentoso – mas nada reconhecido – Seu Jorge (interpretado por Luis Melodia), pai do negro Jorginho, amigo do filho do jornalista. Nos anos 70, os dois garotos reencontram-se na prisão da Ilha Grande. Miguel (Caco Ciocler), agora, é um intelectual de esquerda, preso por participar na luta armada, e Jorginho (Flávio Bauraqui ) é um criminoso comum. Passados 20 anos, Jorginho (agora interpretado por Antônio Pompeo), que continua na cadeia, agora no complexo de Bangu (de onde lidera o Comando Vermelho e o tráfico de drogas) é visitado pelo deputado federal Miguel (então interpretado por Werner Schünemann ) que busca autorização para implantar um projeto social no morro, numa tentativa desesperada de “afastar a juventude do tráfico” e, por tabela, distanciar sua própria filha do namorado, um “gerente” que opera os negócios de Jorginho.

Filmado sem continuidade temporal, e com uma fotografia lindíssima (um tom de “sépia” para os anos 50, preto e branco para a década de 70, e cores, nos anos 90), Quase dois irmãos é marcado pela maravilhosa trilha sonora de Naná Vasconcelos, entrecortada pela música “Quem me vê sorrindo”, de Cartola.
Muito bem realizado, mas com uma visão um tanto cética sobre a realidade, o filme serve como profunda reflexão sobre a necessidade de derrubarmos os muros e obstáculos para que possamos construir uma nova sociedade. E fica difícil não pensar no filme não só como um balanço político dos últimos anos da história brasileira, mas também como a reflexão um tanto quanto pessoal da própria Lúcia Murat (quase um mea culpa da esquerda), que foi dirigente estudantil, guerrilheira e presa política e que já havia discutido sobre os anos de chumbo da ditadura no seu filme Que bom te ver viva.
O filme tem como eixo central os desencontros entre esses dois mundos, cuja proximidade é ilusória. Ao metaforizar esta “realidade” a partir da dura convivência entre “morro” e o “asfalto”, Lúcia Murat reflete sobre esse gigantesco “quase” que separa os intelectuais e o povo, os negros e os brancos, os presos políticos e os comuns e, acima de tudo, a esquerda e os proletários... Pois é, meus amigos: engana-se quem pensou que alguma vez esquerda e proletariado estiveram juntos!... Marcada, de um lado, pelo ledo engano da experiência da guerrilha tupiniquim e, de outro lado, pelo aburguesamento e reformismo da “esquerda” institucionalizada dos dias de hoje (alguém aí lembrou de um José Dirceu?), essa reflexão da diretora emerge nesse alto grau de ceticismo. Assim, no filme, a gente vê esse “quase” se transformando em sólida e real impossibilidade na figura de um muro que, em dado momento, é levantado para separar os presos de uma mesma galeria da Ilha Grande.

Não é novidade para ninguém que o atual nível de organização do tráfico, em grupos como o Comando Vermelho, é atribuído à convivência entre presos políticos e comuns. Lúcia Murat, entretanto, faz um recorte no tempo e esmiúça o exato momento em que, em menor número em relação aos presos comuns que povoam o presídio, os presos políticos já não conseguem mais impor suas regras. E, se vendo ameaçados, exigem a separação. Regras essas, aliás, que se caracterizam por três leis que merecem destaque pelo conteúdo moralista que têm: “Aqui não tem pederastia (!?), aqui não se fuma maconha, aqui não se rouba”.
Homofobia, preconceito e moralismos à parte, o tal muro é erguido em meio a uma enorme polêmica que mostra as diferenças ideológicas entre as facções políticas de esquerda da época.


Embora fruto das experiências da diretora e de sua avaliação sobre o momento atual (ah, a esquerda no Brasil... tsc tsc tsc tsc), essa visão, infelizmente, parece ser a que impera, quando nos damos conta da impossibilidade de se erguerem pontes entre os mundos que o capitalismo cruelmente separou.
Como bem observou o escritor Paulo Lins – co-roteirista de Quase dois irmãos – “a gente só se encontra na arte”. Talvez a manifestação artística seja o único elo cultural possível e efetivo entre esses dois mundos. A única ponte possível sobre o abismo. O morro cria, a classe média assimila e agradece: o samba, o rap, o funk, o carnaval. Quase dois irmãos começa justamente com o compositor Luis Melodia, aqui no seu primeiro papel como ator, interpretando o pai de Jorginho, a entoar um samba, e dois moleques dançando na rua. “A música no filme tem um papel fundamental. É o ponto de encontro entre os dois mundos”.

O filme critica certa visão ideológica da esquerda brasileira dos anos 70 e nos mostra como ela não soube entender as camadas mais baixas da população. Esquerda esta que, sempre frente a uma dificuldade, cercou-se de proteção, colocando-se à parte do resto da sociedade. Entretanto, apesar da dura crítica à burguesia e à classe média, o enredo, em momento algum, é maniqueísta, personificando os personagens em mocinhos e bandidos. E aí reside a grandiosidade do filme. Questiona, instiga, mas não traz soluções. É assim o filme de Lúcia Murat: abre uma série de críticas e não nos ajuda a resolver os problemas – mas é esse mesmo o seu propósito. Talvez o grande mérito do filme foi o de ter dado uma aula de sociologia, abordando a relação entre a classe média branca e os negros favelados, sem ser chato em momento algum. O painel sociológico criado por Lucia Murat é pungente, é uma porrada no estômago. Obviamente, como qualquer avaliação abrangente, é passível de críticas. No entanto, os seus acertos são muito, muito maiores.
Belíssimo filme! O bonequinho Ed aqui aplaude de pé...
Assistam aqui ao trailer do filme.
Download aqui da linda canção do filme, com Luiz Melodia e Naná Vasconcelos.