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29.9.10

Ensino religioso e pedofilia: as duas faces de uma mesma moeda... furada.




Há alguns dias, um jovenzinho que não deve ter nem 12 anos de idade resolveu postar no Orkut um desses scraps coletivos que o site de relacionamento agora permite. O jovenzinho em questão é aluno da escola onde trabalho: um amor de criança, diga-se de passagem. Mas causou-me profunda irritação o scrap coletivo que ele veiculava a seus amigos de Orkut. Tratava-se de uma mensagem que anda circulando pela internet na forma de e-mails e mensagens em sites de relacionamento onde se afirma que a candidata Dilma Rousseff não só seria a favor do aborto e do casamento entre homossexuais, como também estaria aliada a satanistas representados na figura de seu vice, Michel Temer. O texto que faz ameaças aos evangélicos caso a Dilma seja eleita, obviamente se trata de uma campanha apócrifa e sem fundamento algum. E isso, realmente, é o menos relevante: às vésperas de eleições, campanhas desse tipo sempre apareceram. O que realmente me preocupa, e muito, foi a veemência com que um garoto nessa idade tentava argumentar comigo que aquela mensagem que ele repassava tratava-se da mais pura verdade. Pois, muito provavelmente, assim esta lhe teria sido passada por algum adulto de sua confiança que professa sua mesma fé evangélica.

Isso me faz voltar a um tema de que já tratei aqui neste blog numa postagem anterior intitulada "Provavelmente não há Deus. Então pare de se preocupar e aproveite a sua vida". Nessa postagem eu alertava para o perigo da nefasta lavagem cerebral que as seitas evangélicas têm se empenhado em exercer nas crianças e adolescentes. Muitas vezes se apropriando até mesmo de elementos da cultura dessa faixa etária para alcançarem seus objetivos, como os ritmos musicais do funk e do rock, o RPG, as HQ’s, etc. Isso a que as igrejas (não só as evangélicas, mas a católica também e todas as outras religiões) costumam chamar de fé, eu costumo denominar “cegueira”. E essa cegueira – consequência, obviamente, de séculos de cultura – só tende a se agravar quando combinada com a profunda lavagem cerebral que se faz na cabeça dos jovens desde cedo. Nos templos e nas igrejas, assim como no seio das famílias, ensina-se desde cedo à criança a não pensar: esse “não pensar” entendido como uma prática pedagógica e de costumes que levaria a não questionar os desígnios de deus. E por que eu falo em prática pedagógica logo vocês irão entender.

Acredito que esse processo de não pensar chamado “fé” não é o caminho para o entendimento do mundo, mas sim está em oposição fundamental à ciência moderna e ao método científico, e é sectarista e perigoso. Pois o grande problema não é a fé ou a crença, mas sim a cegueira a que se condenam os jovens, possíveis repetidores (ou “multiplicadores”, para usar uma terminologia da Didática). Jovens esses que, assim como os adultos de seu círculo de convivência, chegam à conclusão de que eles (e apenas eles) estão certos, o resto do mundo errado; e que, destruindo as outras crenças (ou a ausência delas) poderão tornar o mundo um lugar melhor.

Num documentário do escritor Richard Dawkins, autor de Deus: um delírio, chamado “The Virus of Faith” (O Vírus da Fé), é mostrado como a religião se espalha como um vírus e se fixa nos jovens antes mesmo de eles terem capacidade de chegar a uma conclusão por si mesmos, simplesmente por uma tradição familiar já existente. O ensino religioso, segundo Dawkins, representa uma vertente de grande parte das escolas em países como a Inglaterra, por exemplo, citada no documentário.

Não só na Inglaterra, mas também no Brasil há vários colégios particulares reservados aos religiosos cristãos, que instituíram o ensino religioso lado a lado com o ensino científico. Neste tipo de ensino, o criacionismo é tratado como uma ciência – ou seja, algo de fundamento e comprovado cientificamente – e ensinado antes do evolucionismo de Darwin e de outras teorias importantes para a criação do pensamento científico.

Essa é uma prática pedagógica grave e perniciosa. Chegar ao ponto de apresentar teorias religiosas – que são dúbias e mudam conforme a crença de cada um – como formação científica comprovada é um dos jogos mais sujos de que as instituições religiosas poderiam lançar mão. Não é uma aula sobre Teologia, onde alguém a separa da Ciência e mostra as diversas crenças existentes - algo que seria interessantíssimo do ponto de vista sociológico para mostrar mais sobre a cultura de alguns povos. Associado à História e aos estudos da Sociologia, o ensino religioso por essa ótica faria até muito sentido, principalmente se tratado de maneira crítica.

Essas instituições, porém, querem apenas vender a ideia de que seu homenzinho imaginário é o verdadeiro e deve ser cultuado. Onde está a verdadeira educação nisto? Onde estão os verdadeiros cientistas, os verdadeiros professores? Eu sempre achei que os professores e as instituições educacionais tinham como principal objetivo informar e passar o conhecimento adiante, e não formar opinião na mente de jovens que não estão ainda preparados para fazer suas próprias escolhas. Vende-se como ensino fundamental uma ideologia, um processo de educação totalmente parcial, pois se ensina primeiro a sua religião, não se ensina as outras e ainda transforma o evolucionismo científico de Darwin em algo secundário e desprovido de fundamentação científica.

Há também a questão da ética nisso tudo. E os professores que atuam nessas escolas devem ter também a mesma religião para assimilar todo o ensino “teológico” que será repassado aos alunos? E um aluno que não queira ter ensino religioso pode se recusar a assistir às aulas? Será que ele será tratado de maneira igual pelos outros alunos e pelos professores? Mas então alguém poderia argumentar que, por se tratar de uma escola católica ou presbiteriana ou judaica, se você não é da religião, por que iria matricular seus filhos lá. Opa! Mas agora as escolas são instituições de ensino separatistas? Devemos agora entrar em uma escola apenas se ela for da mesma religião que a nossa?

Apesar de ateu, não entendo o ensino religioso como um risco realmente, mas talvez se torne a curto prazo uma forma de desrespeito à crença dos outros ou à religião (ou à não-religião) dos profissionais de ensino. Algo nisso tudo me apavora muito mais: o separatismo que este tipo de método de ensino pode causar na nossa população a médio e longo prazo, o risco que o país se transforme numa nova Irlanda.

Tive uma infância boa, como toda criança deveria ter, passada na rua nas brincadeiras de moleque que hoje tendem a desaparecer. Menino de subúrbio, o contato com a rua e com os vizinhos fazia bem para os meninos da minha época, que desde cedo aprendiam a se relacionar com outras pessoas fora do círculo familiar. Isso ainda é bem comum em algumas cidades do Brasil, principalmente nos subúrbios e no interior. Mas, cada dia mais, as pessoas nas grandes cidades estão vivendo em apartamentos, que oferecem mais segurança e ao mesmo tempo distanciam as pessoas que, com toda a correria de uma metrópole, sequer conhecem direito seus vizinhos. Uma criança que é criada em apartamento nas grandes cidades, não raro, não tem muitos amigos no local onde mora. O relacionamento com outras crianças, fora os familiares mais próximos, fica a cargo da igreja que a mãe e o pai frequentam e da escola onde estuda.

Na igreja uma criança somente poderá se relacionar com seus pares, ou seja, outras crianças que partilham da mesma religião que ela. A escola para esses jovens se torna um escape, um lugar onde ela irá se relacionar com crianças das mais diferentes crenças e tipos. Alguns mais pobres, outros mais ricos, religiões diversas, negros, brancos, orientais, etc. Com o aumento das escolas religiosas no país, criaríamos uma verdadeira separação. Católicos, evangélicos, judeus, cada um em sua escola. Isso, somado a uma educação cada vez mais distante e despreparada dos pais e à maneira como nossa sociedade já desrespeita a crença dos outros, onde iremos chegar daqui 20 ou 30 anos?

Não devemos esquecer que o medo do desconhecido e ódio ao diferente é o que nutre o crescimento dos fundamentalistas religiosos. Criar nossos jovens sem que eles tenham contato com pessoas diferentes na escola pode resultar em algo muito maior do que apenas uma falha na liberdade de escolha das crianças. Talvez esse seja o maior preço que tenhamos que pagar por tratar o ensino e a educação como uma moeda de troca e mais uma estratégia do marketing furado religioso.

Além de discordar deste ensino religioso tendencioso das escolas particulares, também discordo plenamente do ensino religioso que se quer para as escolas públicas; onde, dizem, tentariam aliar o ensino religioso ao respeito às outras pessoas (hilário esse argumento!), à disciplina e à disposição para aprendizagem - como se um ateu não pudesse desenvolver essas qualidades.

Por fim, algo que talvez escape ao entendimento de muitas pessoas nessa questão toda é a fragilidade das mentes de crianças e jovens. E, por isso, eu alerto sobre o caráter pernicioso da lavagem cerebral que as religiões tendem a fazer nesse grupo. Eu ouso comparar o perigo dessa lavagem cerebral ao que modernamente se convencionou rotular como o mais abjeto e repugnante dos delitos: a pedofilia. A justificativa (bastante justa, sem sombra de dúvida) para tal rotulação advém dos estudos da Psicologia, segundo a qual crianças de 6 a 10 anos encontram-se numa fase chamada "latência"; ou seja, é um período de reorganização e preparo para a puberdade e uma posterior vida adulta saudável do ponto de vista mental. A estimulação e exposição precoce ao erotismo levaria a criança a se lançar na vida sexual ativa sem a devida preparação.

E aqui eu coloco a pergunta: a exposição precoce a conceitos religiosos, nessa fase da vida, não seria também uma violência à criança? Estaria ela realmente preparada para portar antolhos já nessa idade? Com que direito os adultos, pais e educadores, decidem pela religiosidade ou não de uma criança? Richard Dawkins, em Deus: um delírio, chama a atenção para isso quando questiona: “nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que - por consenso quase universal - pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é a sua opinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos.

4 comentários:

Divina disse...

Finalmente você assumiu! Eu não posso mais dizer que não conheço nenhum ateu, assim de apertar a mão... Nunca tinha lido ou ouvido de você a "confissão" SOU ATEU, pensava que fosse no máximo agnóstico... Estou feliz de saber que conheço um ateu, não só de apertar a mão como de abraçar e beijar... e de gostar muito!
Peguei seu texto coloquei as referências e o link para o seu blog, anexei numa mensagem em que estava repassando o seu próprio e-mail e mandei para todos os meus contatos professores, da escola e da faculdade.
Preciso dizer que concordo com ele?

Anônimo disse...

Ter fé em alguma suposta “Entidade” seria não racionalizar, ter “certeza” sem provas ou substituir a realidade por versões mágicas.

Usando o telescópio, o microscópio, a eletrônica, a psicologia, a biologia e as tecnologias sofisticadas, será a ciência quem abrirá as “portas” fora da limitada percepção humana, e não alguma mitologia jurássica, primitiva ou irracional.
Pois “A ciência é o triunfo do conhecimento sobre a Ignorância”. L.H.

Como os antigos não possuíam recursos tecnológicos, para “explicar” o Universo e a existência humana, eles inventaram versões milagrosas sobre um mundo criado por algum suposto Deus, mas estranhamente assombrado por Demônios.

Enquanto o ateu seria um alfa curioso, de cérebro RACIONAL, que se adapta as mudanças, acredita no futuro, resolve sozinho os problemas existenciais e prefere não saber do que ser enganado.
O religioso não passa de um submisso de cérebro emocional, musical e místico; que encara as novidades com desconfianças, se agarra ao passado, enxergar o futuro de maneira pessimista, fingi que a vida seria eterna, e precisa de amigos imaginários.

Lisandro Hubris

jwcl, Jorge Willian disse...

Visitei teu blog outras vezes para ler algo novo e nada. Quase escrevi: "ô Edi, deixa de preguiça, quero ler algo inteligente e polêmico". Hoje estou satisfeito: você conseguiu tocar em algo muito polêmico.

Não concordo com o comentário acima que trata aqueles que acreditam em algo que não seja a ciência como meros tolos. Também acho impossível provar as afirmativas: 1) Deus existe ou 2) Deus não existe. Porém, o mais importante do texto não é a bela e inacabável discussão sobre a existência ou não de Deus. O importante é pensar na relação entre a crença e dominação sobre as nossas crianças. É nisto que o teu texto tem a coragem de bulir. Por que os adultos se acham no direito de emprenhar uma criança com aquelas ideia que trata teu texto? Mas qual ideia deveria ser ou não trabalhada? A Quem cabe decidir sobre a educação e as ideias impostas ou postas nas crianças. Deveria ser quem educa. Mas quem deveria educar? Paí? Cientistas? Padres e pastores? Professores? O Estado?
Não sei a resposta. Mas quem quer quer que seja, nesse caso, deve ser mais que tolerante. Deve respeitar a visão alheia como uma possibilidade de verdade. Não um mero voltar ao iluminismo e sua tolerância religiosa (tolerar pode ser "aceito o outro, mas estou certo"). Precisamos ir mais além: respeitar o outro entendendo que ele pode estar certo. É necessário abandonar o absolutismo e caminhar em busca do relativo.

Valeu a coragem da polêmica e o belo e bravo o teu texto!!!

jwcl, Jorge Willian disse...

Para colaborar com a tua tese gostaria de relatar algo que pesquisei na sala de aula hoje: 24 crianças em sala e 10 ouviram falar de que a candidatura Dilma estava associada ao satanismo. Das 10 que ouviram tal besteira, 5 disseram ter ouvido isso dentro da própria igreja que frequentam. É uma pedofilia mental produzida em nome da religiosidade e da politicagem.

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