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4.12.10

Dança, meu anjo!


(Autoria da foto: Edmilson Borret - 06/03/2010)



Dança meu anjo!
Deixa as asas na cadeira
E dança!
A vida cá fora
não anda lá essas coisas
Por isso, dança!

Dança conforme a música
Dança conforme o peito
A justeza do traço
no itinerário do braço -
tua óbvia indulgência.

Salta do mistério do chão
envolve teu corpo
no sem-forma do ar
Que assim te amamos mais:
lá do alto nos buscas
nos recompões da dureza –
de novo homens viramos
porquanto leves,
perenes.

O corpo em delito flagrante
gestos exatos inocentam
Por isso, dança!

Deixa as asas na cadeira
E dança!

(Edmilson Borret – 03/12/2010)

28.11.10

Menos leviandades, mais leveduras!

ou
A insustentável leviandade do ser




(Autoria da foto: Edmilson Borret - 19/04/2009)



Meu caro amigo, pode ir lá procurar no Aurélio, ou no Houaiss, ou no Caldas Aulete. Ou, se a preguiça for muita, pode ir de Google mesmo. Em todas essas fontes, porém, você tomará conhecimento de que leviano é um adjetivo e significa: aquele que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente; sem seriedade, inconstante. Para os que apreciam um passeio pela história da língua, a etimologia nos diz que “leviano” tem a mesma origem de “leve”: o que não pesa, o que não aprofunda, o que fica na superfície das coisas, sem a coragem ou a disposição necessárias para o mergulho. Leviana é a pessoa que não pesa devidamente, ou seja, não sabe dar o peso real aos problemas ou situações que se apresentam. E, por não sabê-lo, acaba por lançar mão de sobrepesos, por falsear as medidas, tombando um pouco mais o prato da balança para o lado que melhor lhe convier no momento...

No entanto, por não me considerar um sujeito perfeito nem detentor de nenhuma verdade além daquela que experimento, eu ousaria lançar um questionamento desconcertante, porquanto bastante íntimo e pessoal, e até mesmo ético: quem, em toda a sua vida, nunca agiu de modo impensado, nunca foi precipitado ou imprudente? Quem, pelo menos uma vezinha na vida, nunca agiu sem seriedade ou foi tentado a carregar nos sobrepesos??!!

Não é preciso ter a clarividência dos sábios nem o autoconhecimento dos monges para nos darmos conta de que todos nós - alguns mais, outros menos - todos nós já fomos levianos alguma vez na vida. Assim sendo, esse deveria ser apenas mais um adjetivo que caracterizaria nossa humana condição de imperfeitos... O que me parece, porém, é que a leviandade passou a estar na base de muitas atitudes e escolhas recorrentes, especialmente aquelas que ganham destaque na opinião pública. A opinião pública, hoje magnificamente instaurada na figura da mídia, sempre foi norteadora das formas de se agir – para o bem ou para o mal.

Por conta da leviandade, já não amamos ou odiamos pelo que realmente somos e sentimos ou baseados naquilo em que realmente acreditamos: amamos ou odiamos preocupados com a repercussão desses amores e desses ódios no entorno e na platéia. Não conseguimos divisar mais quais são os valores que nos guiam, as verdades que nos conduzem. Perdemos descaradamente o bom senso, a noção de limite e a capacidade de crítica. Vivemos um momento insano onde algo, para ser correto, precisa necessariamente ser precedido de um “politicamente”.

E justamente por termos abandonado nossas referências sobre o que seja o sentir de verdade, terminamos por acreditar que temos muito mais direitos e muito menos deveres do que deveríamos nessas relações levianas e vazias que insistimos em manter. Mas a grande questão é que se a leviandade faz com que as pessoas analisem superficialmente as coisas, a preguiça também o faz e, não raro, a burrice também. Porque até para ser leviano é preciso ser espontâneo de verdade... mas a maioria das pessoas é covarde demais para tanta autenticidade.

E dessa forma, por leviandade ou por burrice, toda vez que nos esvaziamos do que poderia ser criativo, produtivo e transformador, chegamos mais perto das tragédias e da insanidade, das ações impulsivas e das escolhas desesperadas... Caímos, feito tolos que somos, em nossas próprias armadilhas e nem sequer nos damos conta disso. Caímos, caímos e caímos... numa queda vertiginosa de nos tirar o ar.

E você saberia dizer qual é a reação das pessoas que nos assistem? A mesma que a nossa diante da queda do outro: elas assumem o papel de “os donos da verdade”! Acusam, apontam o dedo, julgam, condenam, massacram, comportam-se tão monstruosa e indignamente quanto os mais terríveis levianos. E se chamam de justiceiros. Ah sim, justiceiros... Não mais levianos ou burros!

Perceba a falta de humanidade de ambas as partes: tanto de quem comete a insanidade quanto de quem aponta o dedo como se fosse perfeito.


Assim sendo, o remédio para a leviandade talvez fosse a levedura. Há muita leviandade em coisas que se dizem e que se fazem por aí justamente por não atentarmos para o tempo da levedura. Em vez da precipitação e da imprudência, por que não o banho-maria? Em vez da superficialidade das coisas, por que não a decantação? É preciso tempo e sentimento para tudo! “É preciso amor pra poder pulsar. É preciso paz pra poder sorrir. É preciso a chuva para florir...”


Mas nós, em nossa pressa, o que temos feito? Leviandades, meu amigo, nada mais que leviandades: maiores, menores, estrondosas, imperceptíveis... não importa o tamanho. Temos nos abandonado a inúmeras leviandades e continuamos nos achando os melhores, os mais corretos (politicamente ou não), os mais repletos de razões.

Portanto, meu amigo, chegue aqui bem pertinho: quero lhe dizer algo importante. Desse momento em diante, quero apenas encarar e desafiar o meu próprio dedo em riste e, muito mais do que justiça, quero pedir piedade: porque é disso que eu, você, todos nós estamos precisando. Pois, embora tendo “leviano” e “leve” a mesma origem, quero perder o peso dessa leveza nos ombros: o peso dessa insustentável leviandade do ser.

17.10.10

Alguma coisa está fora da ordem...

Pedofilia, sorvete Kibon, Illuminatis e o Dispensacionalismo




Hoje recebi um e-mail da minha amiga Isabel Goulart, a Bel que já até cantei aqui mesmo neste blog num dos poemas que mais gostei de ter escrito. O e-mail alertava para os prováveis símbolos da pedofilia, símbolos esses que um relatório do FBI teria levantado em 2007. Segundo tal relatório, os "boylovers" (eufemismo anglófono para "pedófilo") se fazem (re)conhecer e identificar através de três símbolos que denotariam suas predileções: se preferirem meninos, usam um pequeno triângulo, envolto por um triângulo maior. O triângulo grande significa um homem adulto; o triângulo menor, um garoto. Se o boylover quiser enfatizar a pequenez dos garotos que ele cobiça, o pedófilo usa então a logo do “pequeno boylover”, que é mais arredondado e mais fino que símbolo do boylover, como se representasse “ter sido desenhado por uma criança”. Se, por outro lado, os pedófilos preferem meninas, se identificam com um coração menor envolto por um maior. Já os pedófilos sem preferência sexual indicam seu bizarro entusiasmo com um símbolo de uma borboleta composta por dois corações grandes e dois pequenos. Segundo o relatório do FBI, tais símbolos estariam sendo utilizados em websites, roupas, jóias e até mesmo em moedas. Vejam a seguir, cópia do documento do FBI:






O e-mail repassado pela minha querida amiga Bel alerta ainda para o fato de que "eles" poderiam estar entre nós e que se, por caso, virmos alguém usando algum desses símbolos em anéis, cordões, pulseiras, broches, etc, devemos avisar imediatamente as autoridades. Fico aqui imaginando o quanto de patrulhamento isso poderia gerar. Fui até mesmo verificar meu novo anel de prata para me certificar que nenhuma das inscrições nele possa ser confundida com símbolos ou logos pedófilos. (pausa para respirar aliviado)

Mas então fui à busca de mais informações sobre esses tais símbolos. A internet, atualmente, é um terreno fértil para alarmismos de toda sorte. Se, a cada vez que recebemos e-mails desse tipo, não formos verificar a autenticidade das informações, corremos o risco de estarmos propagando mentiras sob pretexto de "boas intenções". Afinal, até mesmo um ateu convicto como eu sabe que de boas intenções o inferno está mais lotado que trem da Central às 5 da tarde. Realmente, numa pesquisa rápida pelo Google, descobre-se que o FBI publicou tal relatório. Não havendo mais tantos subversivos mundo afora, notadamente na América Latina, os caras agora têm tempo de sobra para ficarem catalogando símbolos e logos por aí. Tudo muito útil e relevante! Sinceramente, não sei como a UNESCO ainda não conferiu ao FBI o status de patrimônio cultural da humanidade...

Entretanto, numa das entradas propostas pelo Google na tal pesquisa que fiz, deparei-me com um site chamado Ecocídio. A princípio, até parece um site legal, com matérias bem esclarecedoras sobre meio ambiente, sobre alternativas naturais para a sustentabilidade, sobre o monopólio e o lobby de algumas empresas não comprometidas o desenvolvimento sustentável do planeta, etc. A princípio... Porque, quando a gente começa a se aprofundar na leitura dos artigos do site, imediatamente a gente percebe o verdadeiro propósito do mesmo: mais um dos milhares de sites preocupados em abrir os olhos da humanidade para o perigo iminente que paira sobre nós e nossos filhos... a ascensão do Anticristo preparada pelos Illuminatis. Ai, ai, ai.... sim, de novo eles! Seria apenas mais um site, se o autor do texto não chegasse ao absurdo de associar a pedofilia aos Illuminatis na figura de William Hesketh Lever, presidente da Unilever. Isso mesmo!! O presidente da maior corporação mundial seria não só um pedófilo mas também um illuminati e isso ficaria claro pela escolha que a Kibon, uma das empresas do conglomerado Unilever, passou a adotar a partir do ano de 2000: o logo dos corações concêntricos. Mijei de rir! E para vocês mijarem de rir também, eis aqui o tal logo. Clicando nele, vocês poderão ler essa "maravilha" de texto:




Bom, já mijaram bastante? Então esqueçamos as mijadas e passemos às cagadas! Porque é assim que encaro toda essa história de illuminatis: uma grande cagada! Tem um pessoal aí vendo teoria da conspiração em tudo, notadamente alguns setores do Cristianismo. Segundo esse bando de acéfalos, há um grupo de pessoas agindo nos bastidores da História desde o século XVIII, influenciando governos e nações, a fim de proclamar o reino do Anticristo na Terra. Numa rápida pesquisa no YouTube, podemos achar inúmeros vídeos que "provam" a ação dos illuminatis em vários eventos recentes ou não da história da humanidade. Até a gripe suína seria obra desses satânicos!!!

Modernamente, essa ameaça atende pelo nome de Illuminatis, numa referência clara aos Illuminati da Baviera (uma sociedade secreta da era do Iluminismo fundada em 1 de maio de 1776); mas ela já teve outros nomes em outras épocas, indo desde a Maçonaria até os Templários. No fundo, tanto illuminatis, quanto maçons, rosa-cruzes, templários e tantos outros seriam apenas as várias faces de um mesmo monstro chamado "o Priorado de Sião". Pesquisas já levadas a cabo por Baigent, Leigh e Lincoln em seu O santo graal e a linhagem sagrada, apoiadas sobretudo nos "Manuscritos do Mar Morto" de Qumran mas também em vários outros documentos, apontam sim para uma sociedade secreta que remontaria aos primeiros cristãos e à cisão que se deu, àquela época, entre o cristianismo paulino e aquele desenvolvido pelo núcelo do qual Madalena teria feito parte. Esse segundo grupo (o de Madalena) é que estaria por trás do Priorado do Sião, seria a linhagem sagrada merovíngia, os descendentes de Jesus que lutam desde então para reassumir o trono de Israel: a tal da "serpent rouge" que teria, até os dias de hoje, descendentes vivos ainda na França reclamando o trono. Foram considerados, desde sempre, como satânicos e hereges pelo Cristianismo, justamente por pregarem que Jesus não teria divindade alguma; mas que teria casado e tido filhos como qualquer judeu normal da sua época. Durante muito tempo fez-se de tudo para que se acreditasse que toda essa documentação do Priorado de Sião era ultra secreta e que a Igreja de Roma fez de tudo para escondê-la, inclusive com a pena capital da fogueira para os hereges templários, cátaros ou albigenses. Mas, de uma hora para outra, sobretudo depois da publicação do livro de Baigent, Leigh e Lincoln, essa história virou moda. Aí surgiu um tal de Dan Brown que popularizou de vez a babaquice toda com o seu O código da Vinci. Dizem as más línguas, inclusive, que Dan Brown nada mais seria que um "ghost writer" do Vaticano para ridicularizar toda essa teoria do Priorado do Sião. Se foi essa intenção ou não da Igreja, eu, particularmente, acho que ele conseguiu.

Obviamente que, para fazer frente à grandiosidade de toda essa história que poderia abalar uma fé de mais de 2000 anos, setores mais conservadores e fundamentalistas do Cristianismo (leia-se evangélicos neopentecostais) precisariam criar toda essa teoria da conspiração. E é aí que entram os dispensacionalistas. O dispensacionalismo é uma doutrina teológica e escatológica cristã que afirma que a segunda vinda de Jesus Cristo será um acontecimento no mundo físico, envolvendo o arrebatamento e um período de sete anos de tribulação, após o qual ocorrerá a batalha do Armagedon e o estabelecimento do reino de deus na Terra. E que essa batalha do Armagedon acontecerá quando o Anticristo surgir. Sim, aquele mesmo Anticristo para o qual os illuminatis (face moderna do Priorado) estariam preparando o terreno há muito tempo. A palavra "dispensação" deriva-se de um termo latino que significa "administração" ou "gerência", ou seja, se refere ao modo como deus interage com a humanidade e administra sua verdade em diferentes períodos de tempo. Segundo essa doutrina, seriam sete dispensações ao todo e nós já estaríamos no sexta: a última seria a do reino milenar, do qual só poderiam usufruir os que, não tendo sido arrebatados, sobrevivessem ao Armagedon do Apocalipse 20. O dispensacionalismo prega uma interpretação consistentemente literal das Escrituras, em particular da profecia bíblica. E isso é interessante justamente para mostrar como essa teologia acredita que o próprio Jesus vai caminhar de novo sobre a Terra para reclamar seu trono. Isso vai de encontro ao que teoricamente pregariam os satânicos illuminatis adoradores de Baphomet que insistem que eles sim vão reconduzir o verdadeiro rei de Israel ao trono que lhe é de direito.

O mais curioso, no entanto, é que para esses partidários da teoria da conspiração, os EUA seriam a nação do Anticristo. Quase todos os presidentes americanos seriam illuminatis e estariam conspirando para a tal Nova Ordem Mundial. Esses loucos tentam provar por A+B que há símbolos illuminatis por toda a parte na cultura americana. O mais conhecido desses símbolos seria o "olho que tudo vê", que aparece no grande selo dos EUA e na nota de 1 dólar. Afirmam que sociedades secretas como a "Skull and Bones", cujo símbolo é uma caveira com ossos em forma de cruz, seriam o ramo dos illuminatis nos EUA que pretendem, em última instância, estabelecer um governo mundial por meio de assassinatos, corrupção, chantagem, controle dos bancos e outras entidades financeiras, infiltração nos governos, e causando guerras e revoluções, com a finalidade de colocar seus próprios membros em posições cada vez mais altas da hierarquia política e de substituir todas as religiões e nações com o humanismo e um governo mundial único. Chegam ao ponto de afirmar que esses mesmos presidentes seriam aliados de outros líderes mundiais igualmente satânicos, como Saddam Hussein e Hitler. Afirmam que os EUA teriam apoiado o holocausto, por exemplo. Não percebem, esses imbecis, a incoerência de tal afirmação! Se, como expus acima, os illuminatis nada mais são que a versão moderna do Priorado, que estaria tentando regressar uma linhagem diretamente descendente da casa de Davi ao trono de Israel, como eles poderiam estar de acordo com a matança de milhares de judeus? Ou será que eu perdi alguma coisa nesse emaranhado todo de conspirações e lutas pelo poder????


Símbolo da Skull and Bones (Caveira e Ossos). Teorias conspiratórias
afirmam que a Skull And Bones seja o ramo americano dos Illuminatis.




A pirâmide com "o olho que tudo vê" e o lema Novus Ordo Seclorum
no Grande Selo dos Estados Unidos, é considerado um símbolo dos Illuminatis.




Enfim, é uma bobajada só tanto de um lado quanto de outro. O que só demonstra o mal que religiões e crenças podem fazer às pessoas. Enquanto mitologia, é tudo muito fascinante: nem Homero conseguiria criar um universo de mitos, símbolos, heróis e deuses de tal envergadura. O grande problema, porém, é que para os teístas isso não é mitologia. E pessoas têm morrido através dos séculos por conta disso. E tantas outras, acredito eu, morrerão nesse embate infindável entre as forças do bem e do mal.

Embate, aliás, que já se faz notar no próprio seio da crença evangélica. As denominações várias que pululam por aí se engalfinham e se acusam mutuamente de estarem ligadas ao satanismo e aos illuminatis. Li recentemente, no blog de um cristão reformado conservador, uma matéria hilária que ele escreve sobre o fato da "burrice gospel" (sic) estar atualmente inclusive acusando o craque Kaká de pertencer aos illuminatis e pregar o satanismo. Embora discordando de muita besteira que esse tal cristão reformado conservador escreve, gostei do jeito irônico e sarcástico como ele se refere aos seus "irmãos de fé" mais fundamentalistas e até mesmo dei boas risadas. Para quem quiser dar boas risadas também, só clicar AQUI.

9.10.10

O Baile... e ainda ontem eu tinha 20 anos (reload)*




O ano era 1989, eu tinha 22 anos. Na faculdade, a professora de francês passou um filme que nenhum de nós tinha visto ainda: O Baile, do diretor italiano Ettore Scola, um filme de 1983. Embasbacamento geral! Todos os alunos mudos, exatamente com os personagens do filme... Embora as bocas permanecessem fechadas, os queixos estavam caídos: mais do que uma figura de retórica, esse paradoxo da expressão facial revelava os dois opostos numa mesma reação de estupefação e deslumbre diante das imagens que invadiam nossas retinas. Nenhuma palavra, nenhum diálogo e 50 anos de história da França e do mundo se passavam em pouco menos de 2 horas de filme. Eu tinha que escrever alguma coisa depois daquilo. Sempre foi assim: quando algo me toca profundamente, eu tenho que escrever sobre.

Por isso, caros leitores, o texto que segue é um texto de juventude (e nesse caso aqui, traduzido – o que é pior). Queiram, portanto, perdoar o que pode haver de ingenuidade nele. Trata-se, no fundo, do ardor típico dos jovens. Ao arrumar velhos papéis, resolvi remexer nos sótãos da memória. E eis que esse texto meio que pulou entre vários outros. Mas... atenção, caros leitores! Não se invade impunemente o reino das memórias. Lágrimas sempre me vêm aos olhos lendo esses meus textos de outrora. Tantas coisas vividas... Ça voulait dire on a vingt ans... On était jeunes, on était fous...





O Baile


Bem, bem... aqui estou mais uma vez ! Tudo recomeça. O salão já foi limpo, arrumado, iluminado. As filas de mesas pacientemente dispostas dos dois lados do salão. Agora fazer o mesmo com os copos, as garrafas... A vida, a alma, o mundo, nada está rigorosamente em ordem, mas o salão, pelo menos o salão, ele tem que estar. Arrumar o exterior para se ter a impressão de haver arrumado o interior. Quem disse que devemos nos ater a isso? Não sei. Mas é realmente uma responsabilidade essa minha, quase um poder! Dar-lhes essa frágil e débil aparência de organização. Quanto isso me custa entretanto! Cabe a mim a realização ou o fracasso de suas esperanças. Pois no baile, como na vida, nunca deve haver meio-termo: é tudo ou nada. E eu bem no meio. O que eles esperam de mim? Já estou farto de lhes preencher os espaços entre o desejado e o vivido. Nem consigo me lembrar do meu primeiro baile. Posso, contudo, assegurar a quem quiser crer que desde aquele momento eu já sabia o que eu viria a ser para sempre: o sujeito que organiza e ordena os sonhos alheios. O que esperam essas pessoas? E eu, o que eu espero? Ah sim... elas chegaram. Elas sempre chegam primeiro, as mulheres. Pelo menos aqui no baile – é importante observar. Sempre a mesma cena. A descida das escadas, elegante, segura. Um desfile até o fundo do salão para verificar no espelho se o exterior está em ordem. Retocada a máscara, a armadura resplandecente, à batalha! Allons les dames de la Patrie! Marchons, marchons! Elas esperam no compasso da música, sempre a mesma... “J’attendrai le jour et la nuit” – berra o toca-discos. Todas esperam. Olhando-se, se comparando talvez. Qual a mais bonita? Se cada uma pudesse adivinhar o interior umas das outras, seriam certamente todas a mesma e uma só. Elas seriam eu. E eu seria elas. Ou talvez eles, que acabam de chegar... os homens. O mesmo ritual: a descida, o desfile. Dá-se início ao espetáculo. As mulheres sentadas às mesas. Os homens ao balcão. Essas posições marcadas como num quadro ou num palco não são absolutamente por acaso. Dessa forma, pode-se observar o que é oferta e o que é demanda nas particularidades de cada um dos lados. Exatamente como um jogo. Um jogo de trocas. Um jogo de encaixe. De um lado, a presa; do outro, o caçador. Sem que se saiba muito bem quem faz qual papel. De qualquer maneira, é preciso se lançar ao jogo. Mas quem começa? Et maintenant que vais-je faire? A gente se pergunta sem esperar uma resposta que seja. De tout ce temps que sera ma vie? De todo esse pouco espaço de tempo que é o baile. De toda essa imensidão de tempo que é minha vida. De tous ces gens qui m’indiffèrent... Toda essa gente que me ignora e que me atrai o olhar ao mesmo tempo. Senhorita, há um bom tempo que a observo. Poderíamos abrir a dança, que tal? Senhoritas, há quase meio século que as observo. Senhores, há quase meio século que rio de vocês. Em todo caso, dansons joue contre joue! Eu já guardei suas fitas vermelhas por ocasião de suas primeiras férias remuneradas. Já lhes servi ein Bier ou einen Wein. Já colhi flores de uma primavera não muito calma, ainda que por todos os lugares se cantasse que tudo aquilo de que precisávamos era o amor – você se lembra, Michelle? Já vi tanta coisa nesse salão que eu não teria por que me desculpar se me colocasse acima de tudo isso, acima de todos vocês. Vocês são os mesmos há muito tempo. Apenas suas músicas e seus passos é que mudaram. Valsa, tango, twist, bebop, biguine, blues, boston, cakewalk, charleston, fox-trot, java, jerk, marcha, mambo, one-step, paso doble, rock, rumba, samba, slow fox, swing, discoteca – já vi todos, já dansei todos. E ainda assim não me sinto de forma alguma velho. Não fui eu que envelheci. Foram os ritmos que mudaram. Foi o deus do tempo que envelheceu. E eu, eu aqui rindo disso tudo. Não fosse assim, vocês não existiriam. Sou eu que lhes forneço o seus exteriores, damas e cavaleiros. As guerras, as ondas, as danças, elas passam. Eu, meu salão, minhas bebidas – seu whisky, senhora – eu continuo. Enquanto vocês desenrolam esse grotesco acasalamento, eu espero. Aliás, como sempre esperei. E esperarei. J’attendrai...

(Edmilson BORRET - num mês qualquer de 1989)












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* Para quem domina a língua francesa, confira AQUI a postagem original desse texto em francês feita em junho de 2007.


Quem quiser saber mais sobre o filme O Baile e sobre o diretor Ettore Scola, basta clicar AQUI.

1.10.10

Diagnóstico

(Autoria da foto: Edmilson Borret - 03/06/2010)


Ai essa febre
essa dor no peito
essa falta de ar
esse amargor na boca
essa vontade de chorar
essa tristeza sem fim

- É grave, doutor?
- Tens o pulmão esquerdo
perfurado
morto
necrosado.
- E o coração, doutor,
o coração, o coração?...
- Ir-re-me-di-a-vel-men-te
perdido, meu rapaz...
Também
quem mandou abusar?
Quem mandou
não lhe saber os limites?

Quem mandou amar tanto?

(Edmilson BORRET)

Sobre homens e corações (reload)

(Título da foto: "Maior idade..." - Autoria: Edmilson Borret - 27/09/2009)



"Eu tenho um coração maior que o mundo
tu, formosa Marília, bem o sabes;

um coração, e basta,

onde tu mesma cabes"


(Tomás Antônio Gonzaga)





Mundo grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.

É muito menor.

Nele não cabem nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,

por isso me grito,

por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:

preciso de todos.


Sim, meu coração é muito pequeno.

Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.

A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

Mas também a rua não cabe todos os homens.

A rua é menor que o mundo.

O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.

Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.

Viste as diferentes cores dos homens,

as diferentes dores dos homens,

sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

num só peito de homem... sem que ele estale.


(...)

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.

Só agora descubro

como é triste ignorar certas coisas.

(Na solidão de indivíduo

desaprendi a linguagem

com que homens se comunicam.)


(Carlos Drummond de Andrade)




Grandezas & Misérias

Nada foi dito.
Pensa-se muito
mas nada é dito.
E teu futuro não espelha
grandeza nenhuma.
No meu coração
sei que a fábula é única.
O tempo passa
a história o enfrenta.
No fundo do meu coração
percebo a miséria de se estar.
No meu coração sei que nada foi dito.
No meu coração - e eu o tenho.

Tu bem sabes, Marília -
eu quase tenho um coração
maior que o mundo.

(Edmilson BORRET)

29.9.10

Ensino religioso e pedofilia: as duas faces de uma mesma moeda... furada.




Há alguns dias, um jovenzinho que não deve ter nem 12 anos de idade resolveu postar no Orkut um desses scraps coletivos que o site de relacionamento agora permite. O jovenzinho em questão é aluno da escola onde trabalho: um amor de criança, diga-se de passagem. Mas causou-me profunda irritação o scrap coletivo que ele veiculava a seus amigos de Orkut. Tratava-se de uma mensagem que anda circulando pela internet na forma de e-mails e mensagens em sites de relacionamento onde se afirma que a candidata Dilma Rousseff não só seria a favor do aborto e do casamento entre homossexuais, como também estaria aliada a satanistas representados na figura de seu vice, Michel Temer. O texto que faz ameaças aos evangélicos caso a Dilma seja eleita, obviamente se trata de uma campanha apócrifa e sem fundamento algum. E isso, realmente, é o menos relevante: às vésperas de eleições, campanhas desse tipo sempre apareceram. O que realmente me preocupa, e muito, foi a veemência com que um garoto nessa idade tentava argumentar comigo que aquela mensagem que ele repassava tratava-se da mais pura verdade. Pois, muito provavelmente, assim esta lhe teria sido passada por algum adulto de sua confiança que professa sua mesma fé evangélica.

Isso me faz voltar a um tema de que já tratei aqui neste blog numa postagem anterior intitulada "Provavelmente não há Deus. Então pare de se preocupar e aproveite a sua vida". Nessa postagem eu alertava para o perigo da nefasta lavagem cerebral que as seitas evangélicas têm se empenhado em exercer nas crianças e adolescentes. Muitas vezes se apropriando até mesmo de elementos da cultura dessa faixa etária para alcançarem seus objetivos, como os ritmos musicais do funk e do rock, o RPG, as HQ’s, etc. Isso a que as igrejas (não só as evangélicas, mas a católica também e todas as outras religiões) costumam chamar de fé, eu costumo denominar “cegueira”. E essa cegueira – consequência, obviamente, de séculos de cultura – só tende a se agravar quando combinada com a profunda lavagem cerebral que se faz na cabeça dos jovens desde cedo. Nos templos e nas igrejas, assim como no seio das famílias, ensina-se desde cedo à criança a não pensar: esse “não pensar” entendido como uma prática pedagógica e de costumes que levaria a não questionar os desígnios de deus. E por que eu falo em prática pedagógica logo vocês irão entender.

Acredito que esse processo de não pensar chamado “fé” não é o caminho para o entendimento do mundo, mas sim está em oposição fundamental à ciência moderna e ao método científico, e é sectarista e perigoso. Pois o grande problema não é a fé ou a crença, mas sim a cegueira a que se condenam os jovens, possíveis repetidores (ou “multiplicadores”, para usar uma terminologia da Didática). Jovens esses que, assim como os adultos de seu círculo de convivência, chegam à conclusão de que eles (e apenas eles) estão certos, o resto do mundo errado; e que, destruindo as outras crenças (ou a ausência delas) poderão tornar o mundo um lugar melhor.

Num documentário do escritor Richard Dawkins, autor de Deus: um delírio, chamado “The Virus of Faith” (O Vírus da Fé), é mostrado como a religião se espalha como um vírus e se fixa nos jovens antes mesmo de eles terem capacidade de chegar a uma conclusão por si mesmos, simplesmente por uma tradição familiar já existente. O ensino religioso, segundo Dawkins, representa uma vertente de grande parte das escolas em países como a Inglaterra, por exemplo, citada no documentário.

Não só na Inglaterra, mas também no Brasil há vários colégios particulares reservados aos religiosos cristãos, que instituíram o ensino religioso lado a lado com o ensino científico. Neste tipo de ensino, o criacionismo é tratado como uma ciência – ou seja, algo de fundamento e comprovado cientificamente – e ensinado antes do evolucionismo de Darwin e de outras teorias importantes para a criação do pensamento científico.

Essa é uma prática pedagógica grave e perniciosa. Chegar ao ponto de apresentar teorias religiosas – que são dúbias e mudam conforme a crença de cada um – como formação científica comprovada é um dos jogos mais sujos de que as instituições religiosas poderiam lançar mão. Não é uma aula sobre Teologia, onde alguém a separa da Ciência e mostra as diversas crenças existentes - algo que seria interessantíssimo do ponto de vista sociológico para mostrar mais sobre a cultura de alguns povos. Associado à História e aos estudos da Sociologia, o ensino religioso por essa ótica faria até muito sentido, principalmente se tratado de maneira crítica.

Essas instituições, porém, querem apenas vender a ideia de que seu homenzinho imaginário é o verdadeiro e deve ser cultuado. Onde está a verdadeira educação nisto? Onde estão os verdadeiros cientistas, os verdadeiros professores? Eu sempre achei que os professores e as instituições educacionais tinham como principal objetivo informar e passar o conhecimento adiante, e não formar opinião na mente de jovens que não estão ainda preparados para fazer suas próprias escolhas. Vende-se como ensino fundamental uma ideologia, um processo de educação totalmente parcial, pois se ensina primeiro a sua religião, não se ensina as outras e ainda transforma o evolucionismo científico de Darwin em algo secundário e desprovido de fundamentação científica.

Há também a questão da ética nisso tudo. E os professores que atuam nessas escolas devem ter também a mesma religião para assimilar todo o ensino “teológico” que será repassado aos alunos? E um aluno que não queira ter ensino religioso pode se recusar a assistir às aulas? Será que ele será tratado de maneira igual pelos outros alunos e pelos professores? Mas então alguém poderia argumentar que, por se tratar de uma escola católica ou presbiteriana ou judaica, se você não é da religião, por que iria matricular seus filhos lá. Opa! Mas agora as escolas são instituições de ensino separatistas? Devemos agora entrar em uma escola apenas se ela for da mesma religião que a nossa?

Apesar de ateu, não entendo o ensino religioso como um risco realmente, mas talvez se torne a curto prazo uma forma de desrespeito à crença dos outros ou à religião (ou à não-religião) dos profissionais de ensino. Algo nisso tudo me apavora muito mais: o separatismo que este tipo de método de ensino pode causar na nossa população a médio e longo prazo, o risco que o país se transforme numa nova Irlanda.

Tive uma infância boa, como toda criança deveria ter, passada na rua nas brincadeiras de moleque que hoje tendem a desaparecer. Menino de subúrbio, o contato com a rua e com os vizinhos fazia bem para os meninos da minha época, que desde cedo aprendiam a se relacionar com outras pessoas fora do círculo familiar. Isso ainda é bem comum em algumas cidades do Brasil, principalmente nos subúrbios e no interior. Mas, cada dia mais, as pessoas nas grandes cidades estão vivendo em apartamentos, que oferecem mais segurança e ao mesmo tempo distanciam as pessoas que, com toda a correria de uma metrópole, sequer conhecem direito seus vizinhos. Uma criança que é criada em apartamento nas grandes cidades, não raro, não tem muitos amigos no local onde mora. O relacionamento com outras crianças, fora os familiares mais próximos, fica a cargo da igreja que a mãe e o pai frequentam e da escola onde estuda.

Na igreja uma criança somente poderá se relacionar com seus pares, ou seja, outras crianças que partilham da mesma religião que ela. A escola para esses jovens se torna um escape, um lugar onde ela irá se relacionar com crianças das mais diferentes crenças e tipos. Alguns mais pobres, outros mais ricos, religiões diversas, negros, brancos, orientais, etc. Com o aumento das escolas religiosas no país, criaríamos uma verdadeira separação. Católicos, evangélicos, judeus, cada um em sua escola. Isso, somado a uma educação cada vez mais distante e despreparada dos pais e à maneira como nossa sociedade já desrespeita a crença dos outros, onde iremos chegar daqui 20 ou 30 anos?

Não devemos esquecer que o medo do desconhecido e ódio ao diferente é o que nutre o crescimento dos fundamentalistas religiosos. Criar nossos jovens sem que eles tenham contato com pessoas diferentes na escola pode resultar em algo muito maior do que apenas uma falha na liberdade de escolha das crianças. Talvez esse seja o maior preço que tenhamos que pagar por tratar o ensino e a educação como uma moeda de troca e mais uma estratégia do marketing furado religioso.

Além de discordar deste ensino religioso tendencioso das escolas particulares, também discordo plenamente do ensino religioso que se quer para as escolas públicas; onde, dizem, tentariam aliar o ensino religioso ao respeito às outras pessoas (hilário esse argumento!), à disciplina e à disposição para aprendizagem - como se um ateu não pudesse desenvolver essas qualidades.

Por fim, algo que talvez escape ao entendimento de muitas pessoas nessa questão toda é a fragilidade das mentes de crianças e jovens. E, por isso, eu alerto sobre o caráter pernicioso da lavagem cerebral que as religiões tendem a fazer nesse grupo. Eu ouso comparar o perigo dessa lavagem cerebral ao que modernamente se convencionou rotular como o mais abjeto e repugnante dos delitos: a pedofilia. A justificativa (bastante justa, sem sombra de dúvida) para tal rotulação advém dos estudos da Psicologia, segundo a qual crianças de 6 a 10 anos encontram-se numa fase chamada "latência"; ou seja, é um período de reorganização e preparo para a puberdade e uma posterior vida adulta saudável do ponto de vista mental. A estimulação e exposição precoce ao erotismo levaria a criança a se lançar na vida sexual ativa sem a devida preparação.

E aqui eu coloco a pergunta: a exposição precoce a conceitos religiosos, nessa fase da vida, não seria também uma violência à criança? Estaria ela realmente preparada para portar antolhos já nessa idade? Com que direito os adultos, pais e educadores, decidem pela religiosidade ou não de uma criança? Richard Dawkins, em Deus: um delírio, chama a atenção para isso quando questiona: “nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões de seus pais. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que - por consenso quase universal - pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é a sua opinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos.

27.7.10

Por que, por quem escrevo... (reload)

Hoje, ao completar 43 anos de idade, senti a necessidade de me reler, de me buscar em tempos passados. Algo assim como para avaliar o processo evolutivo de minhas ideias, meus atos, meus sentimentos... Se processo evolutivo realmente houve, enfim...

Mas acabei por me dar conta que isso me seria uma tarefa ingrata: a mim, como narrador autodiegético desse meu folhetim piegas, falta o distanciamento crítico necessário para tal.

Mas enfim, me relendo redescobri textos pelos quais guardo profundo carinho. São textos que falam muito de mim. Textos que denotam uma certa quietude de espírito, uma ternura, uma paciência... enfim, uma disposição mental e emocional que, não sei por que cargas d'água (sim, eu sei... só não ouso admitir), há muito venho perdendo, se já não perdi totalmente.

Dentre esses textos, permito-me fazer aqui o reload de dois deles que, na data de hoje, apresentam-se como perfeitos e adequados... No meu aniversário, algo de bom ressurge em mim... Parabéns para mim!



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Noite de hotel
Estou a zero, sempre o grande otário
E nunca o ato mero de compor uma canção
Pra mim foi tão desesperadamente necessário

(Caetano Veloso)


E nunca o ato mero de escrever um blog pra mim foi tão desesperadamente necessário!!!!! É catártico. Reinvento-me nas palavras. Refaço-me, descubro-me nelas. E delas me alimento. E, de certa forma, dou de comer também aos outros. É um lindo repasto.

Um antigo copidesque do jornal "O Estado de São Paulo" costumava dizer que uma "lauda em branco aceita tudo". Dizia isso para criticar a quantidade de sandices que se escreveu e que certamente se escreve até hoje, seja lá qual for a intenção. Talvez o meu blog seja mesmo um amontoado de sandices, talvez não... Mas isso a mim pouco importa. A lauda em branco é minha, nela eu escrevo o que eu quiser. E lê quem quiser também. De qualquer maneira, é minha terapia há alguns meses, é o meu tarja preta sem efeitos colaterais.

E aí, vieram me dizer certa vez que pouco visitavam meu blog por eu ser demasiadamente prolixo. Por serem minhas postagens muito longas. Lembrei-me de imediato de uma frase atribuída a Voltaire: "Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida. Não tive tempo de fazê-la curta."

E por que haveriam de ser curtas e concisas minhas postagens? Como exigir concisão de um cara que é um emaranhado louco de ideias? Escrever, pra mim, sempre foi muito fácil. O fluxo vem e deixo a coisa rolar. E quando me dou conta, saiu aquela verborragia toda de sempre. Eu simplesmente não entendo por que me condenam. Sou assim e pronto. Gostem ou não. Que não me leiam então, caramba!

Eu preciso escrever. É vital para mim. Aliás, acho que é a única coisa que sei fazer bem nessa minha vidinha de bosta. É como disse o Neruda: "Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias." E eu tenho tantas ideias... Às vezes nem sei o que fazer delas. Elas me fustigam às vezes, me mordem, me esbofeteiam. E quando finjo que não lhes dou atenção, só consigo piorar as coisas. Uma vez uma ideia me cuspiu na cara; d'outra feita, uma quase me furou os olhos. Elas exigem muita atenção as ideias. Aí a gente tem que parar o que estiver fazendo no momento para lhes ouvir. Na verdade, o ato de escrever é isso: conversar com nossas ideias. Foi Sofocleto, acho, que disse que escrever é simplesmente "uma maneira de falarmos sem que nos interrompam".

Pois é, nunca o ato mero de escrever (um blog, um diário, um poema, um recado) pra mim foi tão desesperadamente necessário. Aliás, acho que para quase todo mundo. Só que poucos se dão conta disso. Para fazer mais uma citação (como as fiz nessa postagem, não???!!!), lembrei-me agora de Saramago: "Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não." E por que escrevo então? Bom, além dessa minha necessidade quase vital, escrevo porque quero ser lido. E como de muitas citações se compôs este texto...

"Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais."
(Gabriel García Márquez)

"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida."
(Clarice Lispector)



Evohé, amigos!


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Adoro nomes

Nomes em ã
De coisa como rã e ímã...

(Caetano Veloso)



De novo o Caetano. Ele diz gostar dos nomes em ã... Eu já gosto dos nomes em ente... Não sei por que, essa terminação me fascina. Uma palavra que adoro é premente: o que não permite demora, o que é urgente. Premente rima com gente. Gente pra mim é premente... Adoro gente. Amizade pra mim é premente. Consideração pra mim é premente. Premente é o afeto, o companheirismo, a dedicação ao outro. Disse em outra postagem que escrevo para ser lido e para que meus amigos me amem ainda mais, citando García Marques. Quem escreve descreve-se, é bem verdade. Mas também descreve outros. Descreve os seus pares. Esse retorno ao mesmo tema é para dizer que os entes que fazem a minha escritura é que me dão a minha verdadeira dimensão. Aproveito para pedir desculpa por não estar escrevendo nada tão premente assim nessa postagem. Não que o tivesse feito antes. Mas neste momento menos ainda. Vim aqui hoje mesmo só para comentar sobre os entes queridos. E isso pra mim já é muito...
Nas últimas 48 horas, cedi ao premente de rimar gentes. Já fazia algum tempo que tava querendo escrever esses entes, mas não sabia por onde começar. Havia o desejo, mas faltava a iniciativa, a motivação, o conteúdo… E sobejava a preguiça. No entanto o premente se impunha. Era preciso me dividir. Isso! Escrevo para me dividir... e para me multiplicar. Dividir para multiplicar. Escrevo para dividir com os entes coisas nem sempre tão prementes que vivencio, sentimentos, fatos marcantes, e muitas outras coisas… Enfim, para dividir com e nos entes algo do que eu sou… Nesse dividir-me, nesse partilhar de mim mesmo, espero que esses entes também se sintam motivados a dividir algo de si mesmos, efetuando-se assim a multiplicação da divisão… Sinto que uma onda de gozo me preenche quando me divido em entes… Me preenche tanto, que simplesmente não cabe só em mim… Também quero que o máximo possível de entes possam ter esse gozo premente de serem preenchidos desse jeito, ou de algum outro jeito parecido… Vamos aos entes!!!! Presentes... sempre...

17.7.10

CAMPANHA PELA VIDA: Eu cuido da minha, você cuida da sua!



"Compensando a anatomia, o povo fala sem ter dó
São dois olhos, dois ouvidos, mas a boca é uma só
E fala, o povo fala mesmo

O povo fala, o povo fala mesmo"

(Ana Carolina)



A ideia desta campanha não foi minha. Ela já rola pela internet faz tempo. Mas, muito embora seja uma campanha que aponte humanisticamente para atitudes nobres, fidalgas e dignas, não logrou surtir efeitos mais abrangentes. Há que se considerar, infelizmente, que a internet nunca foi campo fértil para se estimularem atitudes nobres, fidalgas e dignas...

De qualquer maneira, cá estou: mais um a se apropriar da boa intenção da campanha e tentar fazer a minha parte. Quem sabe um ou dois leitores desse ilustre desconhecido blog decida pôr em prática a ideia: reproduzir em bottons, camisetas, capas de caderno, outdoors... sei lá, algo que chame à atenção as cabecinhas mais toscas e limitadas.

Já perdi algum tempo aqui mesmo neste blog alertando para o perigo viciante que consiste em se dedicar à vida alheia. Numa postagem de 07/01/2007 intitulada “Alteridades”, eu já tinha cantado essa pedra. No texto cito, inclusive, um pequeno diálogo de autoria desconhecida para mostrar que, geralmente, a falha ou a falta que apontamos nos outros são nossas próprias falhas ou faltas projetadas. Ou, como diria Sartre, em uma de suas frases magistrais (e minha preferida) na peça Huis Clos, “l’enfer, c’est les autres” (“O inferno são os outros”). Transcrevo aqui o diálogo citado na postagem de 2007:



Olhar o defeito do outro

A mulher olhou através da sua janela, apontou para o quintal da vizinha e disse ao marido:
- Há dias venho observando como é encardida a roupa da vizinha. Eu teria vergonha de pendura no varal uma roupa tão mal lavada. Isso é relaxamento, um desleixo... Na verdade, acho que é preguiça.
O tempo passava... e, cada vez que ela voltava a observar, as roupas tinham um aspecto pior. Certo dia, uma surpresa! Ao reparar nas roupas da vizinha, ficou abismada. Estavam brancas, limpinhas, as cores vivas.
- Criou vergonha, disse ela. Perdeu a preguiça e esfregou mais, ou então trocou a marca do sabão.
- Nada disso, replicou o marido. Fui eu que lavei.
- Lavou a roupa da vizinha?
- Não, mulher. Lavei o vidro da janela. Era ele que estava encardido.



Há também uma outra postagem de 12/07/2007 intitulada “Contra a maledicência e o sarcasmo, use a abundância de ideias, de amores e de risos”, onde pego mais leve com os fofoqueiros e até revelo uma certa complacência paciente e alguma generosidade. Algo realmente espantoso para minha natureza cáustica e cínica!

O fato é que não há como ser complacente nem generoso com os fofoqueiros e maledicentes de plantão. E essa é a uma grande verdade. Para eles, de agora em diante, limito-me a proferir em alto e bom som um grande F.O.D.A.-S.E.

E digo mais: pelo que observo nos fofoqueiros e maledicentes que me rodeiam, cada vez mais me convenço de que a origem e motivo desencadeador dessa prática mesquinha só pode residir numa puta falta de sexo de qualidade. Pessoas que não trepam com frequência, ou trepam sem tesão, costumam dedicar boa parte de suas vidas a tomar conta da vida alheia. É sintomático isso. Prestem atenção na cara dos fofoqueiros: a pele é feia, sem viço, o sorriso é raro. E isso não tem nada a ver com o fato de, na maioria das vezes, tratarem-se de baiacus ou barangas. Não, não é a ausência de beleza exterior que condena essas pessoas a uma aridez sexual, mas sim de uma beleza interna que elas mesmas nunca conseguirão experienciar; porque seus corações e almas são assombrosamente medonhos, verdadeiros retratos de Dorian Gray. Essas pessoas são como aquelas retratadas no “Blues da piedade” de Cazuza, sem tirar nem pôr:


“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada”


E agora, para os fofoqueiros e fofoqueiras: limitem-se a buscar suas satisfações (não só as sexuais) perdidas há tempos e larguem do meu pé! Porque eu, caros maledicentes de plantão, estou cagando para todos vocês. Porque tenho como missão justamente isso: incomodar todos vocês, chocar, escandalizar, perceber o mal-estar de vocês diante da minha cagada homérica no centro de suas salas assepticamente arrumadas e sem vida. Portanto, trepem mais... e fofoquem menos!




PARES CUM PARIBUS CONGREGANTUR


Quando nasci
não nasci torto
nem feio.
Como bom leonino
saltei na vida
e pedi a palavra
— Gauches são vocês, meus caros!

Onomástico sete
cabra no chinês
elemento fogo
incomodo antes
por ideologia
depois por aparecer.

Que me juntem aos pares
que me apontem na rua
que me lancem maldição!...
mas não me peçam
moderação ou paciência.

Não serei menor que meu mundo,
meu tempo, minha boca.
E além do mais
acredito na possibilidade
de se recuperarem os povos.

Fujo do igual
e no diferente
me encontro com o igual.

Vão lá vocês entender isso!

(Edmilson Borret)

22.6.10

Os medos do mundo são tantos...


“Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.”

(Oswaldo Montenegro)



Há quem diga que no mundo existem só dois tipos de pessoas: as corajosas e as medíocres. Maniqueísmos à parte, talvez haja na afirmação alguma verdade. O que me levaria, entretanto, a um sofrido impasse existencial que, ainda que subjetivo, me colocaria numa tensão quase que dialética com meu alterego: estarei eu no primeiro ou no segundo grupo de pessoas?

Sei lá... Mas acho que entre o que penso e o que deixo transparecer, ainda consigo me manter no primeiro grupo. E haja lombo para chibatadas por conta dessa escolha!

O fato é que há pessoas com medo de tudo, optando por entregar-se ao desânimo, à preguiça, à estagnação, à manutenção do status quo. O medo tem um poder destruidor, assemelha-se a um gás paralisante... Quem tem medo não age: repete ações pré-estabelecidas.

Vem-me à mente aqui a clássica e antológica fábula dos anos 70, Fernão Capelo Gaivota. Muito embora minha frieza de ateu convicto me leve a manter o pé atrás para o substrato cristão/espírita que perspassa toda a obra de Richard Bach, devo confessar que gosto muito do enredo do livro. Fernão Capelo Gaivota é uma ave que não se contenta em voar apenas para comer. Fugindo do lugar-comum, tem prazer em voar e esforça-se em aprender tudo sobre vôo. E, justamente por ser diferente do bando, é expulso, execrado, visto com olhos de desconfiança quase piedosa.

Para Fernão Capelo Gaivota, assim como para os que não se submetem aos medos e desmandos, o importante não é viver uma vida em busca do que comer; e sim, do conhecimento da arte do vôo e da velocidade perfeita. Ainda que seja a velocidade de um soco desferido num momento de raiva, de um grito que se ouviu a quilômetros ou de uma palavra impensada que te custe uma retratação na forma da lei.

A moral dessa história, contudo, é que existe o medo real e o medo inventado. E, quando paro para pensar nisso, fico me perguntando se o medo é, de fato, um senso de autopreservação ou uma forma vergonhosamente mágica de mantermos nossa parcela de mediocridade, cabisbaixos que nos tornamos, levando uma “meia vida”.

O medo tem sim seu valor, acredito eu. Por conta do medo, mensuramos o perigo. Por conta do medo, abstemo-nos de nos arriscar. Por conta do medo, traçamos um raio limite de até onde ir, sem risco... SEM RISCO!!!

Conformados, amarrados por grilhões imaginários (mas que sangram o pulso e, por que não, o peito), nos mantemos estáticos, assegurando uma vida sem sobressaltos e perigos inesperados.

Enquanto isso o tempo passa... sempre. Nossa “meia vida” está cada vez mais vinculada aos nossos pseudo-medos que asseguram nossa pseudoestabilidade até o nosso agendado fim. Previdenciário fim. Merecido e honrado fim.

Não nos damos conta que perdemos nossas referências e nossa ousadia por não estarmos preparados para tantos ousados e necessários riscos. Prevenimos de mais, acatamos de mais, nos mostramos de menos... Como crianças que vivem em estufas de ar puro e que não têm, portanto, anticorpos para brincar na rua... Acabamos por nos tornarmos os rinocerontes de Ionesco... Absurdamente rinocerontes! Caladamente rinocerontes!

Viver é altamente perigoso, já sentenciou Riobaldo em Grande sertão: veredas. E isso é fato. Mas também, não há que haver regras nesse jogo. Pois sem tentar, sem arriscar, sem gritar nem falar alto, é “meia vida” mesmo!... é WO vergonhoso! E isso também é fato!

Mensagem válida para jovens (de espírito e de matéria) que ainda pensam no futuro; para os tolos que fazem da negação e da autoilusão motivo para sofrer e fazer sofrer; para pais que não sabem como lidar com os filhos na cruel sociedade moderna; para os apaixonados e outros “ados” que têm medo de se mostrarem como tais; para todos os apegados a referenciais imutáveis e, especialmente, para cães que têm medo de vassoura e para professores que desaprenderam o revoltar-se.




O OCASO

“Par délicatesse, j’ai perdu ma vie.”

(Rimbaud)



Num átimo

despenquei do meu olimpo

e vim dar na terra dos rotos

esfarrapados e patéticos...

De besta que sou

acreditei na fagulha

que nos olhos de toda humanidade

me acenava

A desmedida fez de mim

o Prometeu desusadamente tolo

arrogante e néscio

Nesse sem-fim dos meus dias

a corroer-me cérebro e entranhas

Ai que estou farto da bondade alheia!...

E cansei-me de mim

Cansei das repetidas

palavras de amizade

dos homens e mulheres de bem

Quero o vendaval

dos sentimentos torpes e imundos

Quero a poeira dos solos

a queimar-me a língua

Quero a podridão da carniça

a invadir-me as narinas

Sou todo os Riobaldos desse mundo

perdido em sua neblina jagunça

nesse sertão sem vereda

- Ai essa Minas me aniquila !

Não me falem

da beleza das relações

Muito menos da promessa de vida

na aurora dos dias

Não me prometam

amizade eterna

Não vertam suas lágrimas

em minha intenção

Deixem-me em paz, oh bonzinhos de merda!

Que eu quero ir

na direção contrária ao engodo

de seus olhos

de escárnio e piedade

Soltem-se as amarras

do meu barco infeliz e louco

Que eu quero partir desse cais

e ir ser menos que eu

no mar revolto

das garrafas de náufragos...

Antes a frieza das geleiras

dos mares do norte...

Antes as tentações

no deserto escaldante

de minha alma...

Antes as pernas abertas das putas

e o canivete oculto dos michês...

A assepsia do sorriso

e das mãos de todos vocês

me enoja

Causam-me ânsias

suas certezas medrosas

suas felicidades fingidas

seus amores de novela das oito

Oh corja vil de perdedores!

Saiam do meu caminho

Desimpeçam minha sarjeta

Não me estendam a mão

Não me dirijam a palavra

Que os esquecerei

com a mesma violência

com que todos vocês outrora,

em seu canto de sirena,

me levaram à perdição.


(Edmilson Borret)

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