Recentemente, por conta das chamadas da Globo para a nova microssérie, Capitu, fui tomado de uma paixão louca por uma voz... Aquela voz e aquela harmonia musical ficaram martelando em meus ouvidos. Fui pesquisar. Descobri Beirut e seu líder, Zach Condon: a paixão só fez se confirmar. A princípio, pensei tratar-se de uma banda folk do leste europeu, tamanha era a influência de sons e instrumentos que compunham o som dos caras, algo com forte característica da música dos ciganos. Logo depois, descobri tratar-se de um garoto, sim um garoto, de 21 anos de idade: a paixão tomou ares de obsessão...

O seu primeiro single, "Elephant Gun" (essa mesma música da chamada da microssérie Capitu e que me encantou antes mesmo de eu saber quem a cantava), rapidamente se tornou um sucesso na comunidade indie mundial e o videoclipe ilustra bem a alma festiva da música, bem como o carisma singular de Zach Condon:
O segundo single, "Postcards From Italy", apaixonou mais pessoas pelo mundo inteiro e globalizou a música do Beirut. O clipe tem algo de nostálgico e retrata memórias da própria vida de Zach:
Os dois vídeos foram dirigidos por Alma Har’El, diretor israelense que, entre outros trabalhos, andou produzindo videoclipes também para Taylor Hawkins, baterista do Foo Fighters; para os Rolling Stones e para a Nikka Costa. Sobre sua parceria com Zach, logo após o lançamento do clipe de "Post cards from Italy", ele disse: "The young Zach Condon will be in my mind for the next few months."
O mais curioso do trabalho do Beirut é observar como um rapaz de apenas 21 anos pode ter tamanha sensibilidade, cantar com a alma, criar arranjos tão belos? Zach Condon gravou o seu primeiro álbum no seu próprio quarto. Intrigante pensar que um moleque tão jovem poderia compor e escrever canções de carga emocional tão forte, como se já tivesse vivido uma vida inteira quando na realidade não tinha ultrapassado sequer um quarto dela. Aí em seguida a gente vem a descobrir que ele nunca tinha pegado em todos aqueles instrumentos antes. Com seu espírito autodidata, Zach juntou tudo e foi tirando os sons que podia, buscando beleza e inspiração de pequenas notas até formar canções. Ou ouvir Gulag Orkestar e os dois EP’s de 2006, toma-se um susto. São tantos instrumentos e harmonias, com uma voz sofrida de quem realmente sente tudo aquilo que canta, que é impossível não se deixar seduzir pela sofisticação e beleza das canções. A atmosfera étnica é tão miscigenada que não tem como ter certeza de onde aquilo tudo poderia ter suas raízes enterradas; só uma ligeira desconfiança de que vinha lá do outro lado da Europa, das ruínas do pós-guerra em algum pequeno país da ex-Iuguslávia ou de ruas vazias de alguma cidade soviética esquecida após a Guerra Fria.
Beirut é algo mágico, que acende e acaricia a sensibilidade, que passeia na alma e expõe a ferida, é diferente e encantador. Em 2007 lançaram mais um EP, Pompeii, com três temas originais.

Deixar de ser apenas uma pessoa para se tornar uma banda não levou embora, de maneira alguma, a personalidade do Beirut. A nostalgia e melancolia de Gulag Orkester ainda estão presentes, porém com a sofisticação orquestral de canções como "A Sunday Smile" e "In The Mausoluem". Esta segunda é impressionantemente linda:
A composição dos arranjos de cordas teve ajuda de ninguém menos que Owen Pallet, o homem por trás do Final Fantasy (não o desenho, por favor; falo do projeto canadense de orchestral-pop). Outro destaque do disco é o piano, como nas faixas "Cliquot" e em "Un Dernier Verre (Pour La Route)", onde, com notas graves, carrega a música sob os vocais de Zach. No outro extremo está a simplicidade e despretensão de canções como "Forks and Knives (la Fête)" e "Cherbourg".
Com humores que flutuam entre a tristeza e a saudade, The Flying Club Cup é um álbum intenso e arrebatador. É trilha sonora perfeita para momentos marcantes. E é justamente a terceira faixa, "A Sunday Smile", que nos revela isso. Afinal, um sorriso num domingo, o pior dia de todos, deve ser realmente em razão de algo muito especial, um acontecimento.