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15.8.07

O voyeurismo canalha do gauche


É interessante observar pessoas sem que elas nos vejam. É quase doentio isso, eu sei, mas é algo a que tenho me dedicado há algum tempo. Não diria que chego ao extremo de um L.B. Jeffries hitchcockiano (até porque não tenho o charme do James Stewart), mas observar aqui do meu cantinho me dá um prazer meio estranho... Sei não, mas tô sentindo um cheiro de uma sociopatia qualquer no ar... Alguém aí me indicaria um bom analista? hehehehehe

Ok, ok. No filme do mestre do suspense tinha um puta binóculo, um puta apartamento, uma puta janela numa puta sala e um puto numa cadeira de rodas observando a vizinhança... De tudo isso, acho que só tenho o tanto de puto e a imobilidade das pernas... não por estar também numa cadeira de rodas, mas por conta dessa letargia que parece ter se apoderado de mim. Há meses que fiz do espaço pouco do meu quarto o meu mundo. Daqui vejo tudo, espio tudo, ouço tudo, rio de tudo e choro por tudo. Meu quarto fede a cigarro e a esquecimento (eu ia falar "esperma", mas me contive por achar que isso chocaria aqueles que ainda não conseguem ligar o nome à coisa)... e nem a poeira dos móveis eu ouso retirar: faz parte da ambientação. E devo avisar que já estou de antemão mandando tomar no cu o primeiro filho da puta que vier me falar de síndrome do pânico, depressão, morte em vida ou coisa que o valha, ok? Não, não é nada disso. É só recolhimento mesmo. E ponto final. A única coisa que poderia me preocupar seria se essa imobilidade que se verifica no corpo atingisse as idéias. Aí sim, meus caros, vocês poderiam mandar vir o carro fúnebre, caixão, coroa e uma banda de rhythm‘n’blues (que eu vou querer um funeral como aqueles bem tradicionais de New Orleans... pois vamos combinar: o Ed aqui gosta é de pompa mesmo!!!!). Mas não, não é ainda o caso. No fundo, estou bem. Recolhido, é certo. Mas bem. Quando muito, os amigos (os verdadeiros amigos) poderiam me dizer a título de exortação as famosas palavras de ordem "vai à luta", "sai dessa lama, jacaré", "solta a franga" "volta pro reduto, luana" ou, para ser mais moderninho, uma que o Selton Mello usa numa propaganda de um banco veiculada atualmente na tv e nas rádios: "sai de trás dessa pilastra, se joga, criatura!"

Feito esse enoooooooorme parêntesis, volto ao tema do início: o meu voyeurismo atual. Muitos acham, por exemplo, que ando afastado do orkut e do MSN. Nada. Estou tão presente quanto antes. Só não interajo tanto quanto antes. Enquanto fico aqui baixando meus filminhos e meus mp3, observo as pessoas desfilando pelo orkut, pelas comunidades e, sobretudo, pelo MSN. Adoro, por exemplo, observar as mensagens pessoais que os amigos colocam logo após o nick no MSN... é cada coisa bem interessante mesmo! Sem falar nas músicas que as pessoas estão ouvindo! Dia desses, por exemplo, minha amiguinha Bel estava ouvindo "Another brick on the wall"... eu a via, ela não me via... cruel, não? hehehehehe

Just another brick on the wall... Só mais um tijolo no muro. That’s it! Somos apenas mais um tijolo na porra do muro, essa é a verdade. E fico aqui pensando que, enquanto passo meu tempo a observar pessoas, a vida corre lá fora, queira eu ou não. Meu peso, enquanto tijolo, será mensurado e considerado como algo significativo nesse processo todo? Ou será preciso que eu, enquanto tijolo em falso, despenque desse muro e caia na cabeça do passante desavisado para que se perceba que, ainda que tijolo, continuo por aqui? De qualquer maneira, haverá algum barulho (tijolo se espatifando em queda faz um estrondo do caralho) ou alguma fúria (tijolo nas fuças tem o poder de liberar muitos palavrões) na pequena história deste pobre idiota aqui?
"A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e se agita por uma hora no palco, sem que seja, após isso, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria, que nada significa."

Cito Macbeth de propósito: quero assim mostrar a degradação da minha natureza humana, o lado obscuro da minha alma, as conseqüências últimas da minha entrega total ao pecado. O delicioso pecado de espiar os outros. Pois hoje cedi mais uma vez a esse vício. Mas não foi no virtual. Foi bem real. Gargalhei intimamente ao observar a mediocridade e a pequenez humana disfarçada de tenacidade moral. Não sou nem nunca fui muito adepto de termos pejorativos como "vadia" ou "cachorra" para se referir às mulheres. É algo que não parece condizer muito bem com meu jeito meio feminil de ser. Mas a observação minuciosa das atitudes de uma certa mulher hoje me deu ganas de lançar mão de tais adjetivos. Pela primeira vez em muito tempo me deu vontade de ser meio troglodita, canalha e filho da puta com uma mulher. Continuei, porém, na minha observação das atitudes e reações da infeliz e quase que acabei por sentir pena da dita cuja. Observando-a, deleitei-me. Senti um prazer imenso ao vê-la se debater para querer mostrar retidão após ter tão descaradamente deixado cair a máscara da pretensa pureza. Não que eu seja moralista a ponto de achar relevante a pureza numa mulher. Mas coerência e honestidade, isso sim eu acho muito relevante. Caetanamente, não vou querer falar da malícia de toda mulher. Mas até para se ter malícia é preciso coerência, inteligência e honestidade, caramba!

A pobre passante desavisada foi vítima do meu tijolo em queda franca, coitada... Também, quem mandou esbarrar no muro? Não se esbarra impunemente num muro introspectivo e observador. Eu tava aqui na minha imobilidade e esquecimento, lembram? E muro é sempre muro. Rima com duro. Se não vai encarar que passe ao largo. Mas não me venha com falso puritanismo babaca porque eu, recém-chegado aos 40, degradado e degradante, obscuro e pecador, observo e observo sempre... É meu vício, é meu prazer calhorda. Sou um voyeur da alma humana. Perspicaz quando necessário. Fútil quando assim me convém. Sentimental quase chegando às raias do existencialismo (como observou minha amiguinha Cristiane) quando me sinto sufocado. Mas sarcástico, ácido e cruel quando instigado. E tudo isso, fruto desse voyeurismo a que venho me dedicando...

Coitada mesmo da passante desavisada de hoje! Se eu tivesse o charme inocente do James Stewart talvez ela tivesse tido mais sorte... Mas ela teve o azar de esbarrar com o sociopata esquisitão, sórdido e doentiamente observador do Ed aqui... Por mais que ela tenha tardiamente tentado se camuflar, eu a vi nua em pêlo...



"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."

(Mario de Sá-Carneiro)

5.5.07

Sobre homens e mulheres

Possivelmente estarei incorrendo no maior mico da minha vida ao me debruçar sobre esse tema. Mas hoje tive uma experiência nada agradável ao atender o pedido de uma grande amiga para ingressar numa comunidade do orkut. E por conta disso senti a necessidade de escrever. Sou assim: incomodou, eu escrevo.


A proposta da comunidade seria justamente discutir o velho e eterno embate entre homens e mulheres -como se isso fizesse algum sentido. No meu parco entender das coisas, homens são homens e mulheres são mulheres. E pronto. Isso deveria bastar, não? Por que tentar buscar diferenças quando estamos falando, em última instância, de pessoas? E pessoas são, antes de qualquer coisa, sentimentos. Bons ou ruins, nobres ou vis, simples ou complexos, mas sentimentos, porra! E então me vi lá nessa comunidade cercado pela torpeza maior que pode assolar o ser humano: a dificuldade para o afeto puro e simples. Era um desfile absurdo de nicks estranhos desfiando um amontoado de asneiras que me irritava profundamente: tinha um tal de “LordKazzado”, tinha um tal de “1 Brasa Mora”, tinha até mesmo um tal de “Lex Luthor” (e o Super-Homem, caramba? e o verão como apogeu da primavera, cadê?). E as comunidades em que essas figuras grotescas estavam inscritas!!!! Misoginia digna de tratamento psiquiátrico, caso grave mesmo, para internação e camisa de força... Só para se ter uma idéia, um dos nicks criativos aí citados parece ter percorrido todo o orkut atrás de comunidades que tratam a mulher como lixo: “Mulé é bicho burro mermo”, “São tudo umas vagabunda”, “Amigo de mulher é cabeleireiro”, "Elas preferem os canalhas", e por aí vai... Antes que eu tivesse que fazer uso de toda a minha cartela de Plasil, eu pulei fora da tal comunidade da minha amiga. Não sem antes expressar todo o meu incômodo com tamanho pensamento torto. Então, a anta neanderthalesca das comunidades aí citadas ainda veio com um discursozinho babaca, mal embasado, pobre e ortograficamente mal escrito sobre a minha “visão limitada acerca da hipocrisia da nossa atual sociedade, principalmente quando se refere às mulheres que se colocam num altar acima do bem e do mal, continuando-se a fazer vistas grossas perante o comportamento fútil das mesmas”... Puta que pariu! Tenho alunos da 8ª série que conseguem produzir textos mais densos que isso, na boa!


Com todo o respeito e carinho que tenho por essa minha amiga, mas criar uma comunidade para discutir diferenças entre homens e mulheres requer uma mais bem elaborada lista de convidados e uma maior seletividade de cabeças pensantes. Senão, corre-se o risco de cair na discussão do sexo dos anjos... feita por sexólogos de mesa de bar...


Quando nos propomos a pensar na diferença sexual, a primeira pergunta que se impõe é a mais elementar: por que a raça humana está dividida em homens e mulheres? Se não sabemos responder a esta pergunta, dificilmente poderemos saber em que consiste ser homem ou mulher, dificilmente poderemos entender como têm de ser as relações entre eles.

Nós, homens e mulheres, temos muitas coisas em comum: a dignidade humana, a inteligência, a capacidade de iniciativa, a responsabilidade, a necessidade de afeto, carinho, segurança e, por que não, de sexo também. No essencial, temos uma mesma natureza, que adquire matizes diferentes segundo se expresse em masculino ou em feminino. Temos quase tudo em comum. Onde reside a diferença sexual??? A única resposta possível e convincente repousa no campo da fisiologia: a necessidade de gerar filhos. Se não fosse necessário ter filhos, as pessoas não se dividiriam em homens e mulheres. Ou então as relações de amor e sexo entre homens e mulheres seriam distintas das que são agora. No entanto, se existe o amor e o sexo entre homem e mulher, é porque existem homens e mulheres. E isto leva-nos a considerar que aquilo que é específico e diferenciador do homem é ser um possível pai, e aquilo que é específico e diferenciador da mulher é ser uma possível mãe. O resto é comum a homens e mulheres. E ponto.


Não satisfeito com o leque de asneiras desfiado, o mesmo babaca do nick e das comunidades sui generis acima citado ainda me sai com essa pérola sobre a “Ame e dê vexame”, comunidade que tenho no orkut: “E sua comunidade ADV é rídicula cara. Não passa de um incentivo a bajulação, tornando os homens cada vez mais capachos das mulheres. Se declare para a sua amada e se jogue no chão pra que ela limpe os pés nas suas costas”... Muito provavelmente esse rapaz tem algum problema sexual grave, algo talvez que lhe ocasiona uma distensão traumática da região retofuricular. Eu aconselharia o coitado a procurar o doutor Agamenon, psicoprocotologista de renome, para cuidar do seu caso, pois “este tipo de distensão, se não tratada a tempo, pode se agravar e resultar numa ruptura dos ligamentos e desabamento da prega-rainha, estrutura nervimuscular que dá sustentação ao pavilhão lombo-retofuricular do indivíduo diletante”, palavras desse renomado profissional... hehehehehe


Mas voltando à seriedade necessária à discussão, lamento que esse indivíduo possua essa tão arraigada dificuldade para se declarar a sua amada. É um infeliz que vai viver constantemente um embate. Mas não embate entre homens e mulheres, e sim o embate entre ele e ele mesmo, coitado. Tenho plena consciência que o pequeno parvo nunca virá até aqui ler este texto, mas deixo aqui dois exemplos de homem e mulher que souberam magnificamente levar ao extremo a bajulação ao sexo oposto, numa linda declaração associada ao ato de homem e mulher deporem as armas um diante do outro... E eu assinaria embaixo os dois textos!!!!




Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

(...)

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.


(Vinícius de Moraes)




Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !


E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim !
..."


(Florbela Espanca)

7.3.07

A mulher nos reinventando... "Vamos de Deus mesmo"

Eu precisava refazer aquela história, o que significava voltar no tempo séculos e milênios, precipitar-me no redemoinho cósmico que me levaria... Para onde? Merda, eu não sabia, e aquilo estava me levando, e com uma rapidez assombrosa, a um estado de loucura, mas não loucura comum, loucura existencial, coisa muito séria, coisa para filósofo, não para mocinha feia. O que fazer? Vamos de Deus mesmo, pensei, em desespero, e aquilo me deu enorme alívio. (...) Eu ia de Deus. Por que Deus e não Deusa? Por que Jeová e não Astarté, a divindade que os outros povos da região veneravam? Por que barba e não face lisa, com no máximo alguns sinais ou talvez até muitos sinais? Por uma simples e definitiva razão: eu não podia começar o grande livro criando caso, ainda mais com meu patrocinador. Salomão falava em Deus, os velhos falavam em Deus, meu pai falava em Deus. Deus!, bradavam as rochas da montanha. Deus!, gritavam os pássaros, os canoros e os mudos. Deus, portanto. Na minha cabeça, Deus seria apenas a energia geradora, não uma figura antropomórfica a reinar sobre a criação. Que Salomão e outros o imaginassem como homem, a mim não importava.
(...)
“No começo criou Deus o céu e a terra.” Pronto: estava escrito. E, a frase escrita, invadiu-me súbita euforia. Comecei a rir. Ri tanto e tão alto que um dos anciãos – eles estavam na sala ao lado – veio ver o que estava acontecendo. Entrou, sem bater e – merecido castigo – encontrou-me ali, sentada à mesa, cálamo na mão, diante do pergaminho. Consumara-se, aos olhos deles, a abominação: eu estava, mesmo, escrevendo a história que até então pertencera exclusivamente a eles, aos anciãos. Não pôde se conter: soltou um berro de ódio e fugiu correndo.
A mim pouco importava. Tendo dado início à tarefa, eu agora iria em frente. “Deus disse, faça-se a luz, e a luz se fez.” Ótimo, já tínhamos luz – e trevas também, porque não havia luminosidade sem escuridão, sem sombra. (...) Dada a magnitude da tarefa, precisava andar ligeiro. Resumi a criação a seis dias, incluindo um sétimo para repouso, deixando bem claro que naquele caso a pressa não fora inimiga da perfeição. “E viu Deus quanto havia feito, e achou que estava muito bom”. Não quis colocar “ótimo”, ou “excelente”, ou “maravilhoso”, porque afinal mesmo o Todo-Poderoso precisa ser um pouco modesto. Digamos que na escala de zero a dez ele se tenha autoconferido um oito, a imperfeição correndo por conta dos répteis e da feia.
Essa introdução foi fácil. Mas eu previa dificuldades pela frente. Tratava-se da criação do primeiro homem e da primeira mulher. Os anciãos tinham escrito pilhas de pergaminhos a respeito (...). Em termos de homem e mulher, de masculino e feminino, eu simplesmente deixaria o meu instinto falar. Segundo os anciãos, Deus criara o primeiro homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? A história da costela me parecia tola, para dizer o mínimo, ou talvez até uma afronta, considerando a modéstia dessa peça anatômica.
Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoraram-se loucamente um do outro, e aí transformaram o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto dos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big-Bang do sexo, muito Big e muito Bang. Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.
Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e fúria.

(Moacyr Scliar, A mulher que escreveu a Bíblia.)



Como homenagem ao Dia Internacional da Mulher, quis aqui reproduzir um trecho desse romance do Moacyr Scliar. Uma mulher do nosso tempo submete-se a uma terapia de vidas passadas e descobre que numa encarnação anterior, há três mil anos, foi ela que escreveu a primeira versão da Bíblia. Ela teria sido uma das setecentos esposas de Salomão - a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever. Encantado com essa habilidade inusitada, o soberano a encarrega de escrever a história da humanidade e, em particular, a do povo judeu - tarefa a que uma junta de escribas se dedica há anos sem sucesso. Com uma linguagem que vai do mais elevado e austero discurso bíblico ao palavreado desabusado do mais baixo calão, a anônima redatora conta sua trajetória, desde o tempo em que não passava de uma simples pastora de cabras, filha de um chefe tribal obscuro. Para além de toda sátira e humor irreverente, o que mais chama atenção nesse romance é o profundo humanismo que o percorre do início ao fim. O que vemos - muito mais do que um relato de uma experiência histórica, narrado a partir de um ponto de vista declaradamente feminino, que impõe sua voz, ou seja, seu modo de contar os fatos segundo sua perspectiva - é uma gostosa reescritura da tradição, recontada sob um outro olhar, não restrito a uma elite letrada; sendo, neste caso, privilegiada a postura feminina frente ao discurso (religioso-eurocêntrico, ou seja, do homem branco, cristão e ocidental) que sempre a marginalizou.



“Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher”


(Gilberto Gil)

8.2.07

Música, letra, voz, cabelos e músculos.... adoro essa mulher!!!!

Aqui
(Antônio Villeroy/Ana Carolina)

Aqui
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora
Se fico um tempo sem te procurar
É pra saudade nos aproximar
E eu já não vejo a hora
Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar
Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer enxergar e se enxergar em mim
Aqui
Agora que você parece não ligar
Que já não pensa e já não quer pensar
Dizendo que não sente nada
Estou lembrando menos de você
Falta pouco pra me convencer
Que sou a pessoa errada
Eu não consigo esconder...








Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer enxergar e se enxergar em mim



Agüenta, coração!!!!!!!!!

1.1.07

Feliz Aniversário, Daia !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Putz! Essa mulher é especial até nisso. Veio ao mundo no primeiro dia do ano só para ofuscar os fogos de Copa. Ela não nasceu, ELA ESTREOU !!!! Assim ela não aniversaria, ela nasce a cada ano... Réveillon dos que lhe querem bem, alvorecer de promessas de felicidades para aqueles de quem ela se paroxima... Mulher bombril: de mil e uma utilidades, de mil e um adjetivos... Mil e uma palavras não bastariam para defini-la... mas ficarei como uma muito bem empregada por sua maninha: a Daia é fodona!!!!!!!!





THE DAIA’S WONDERFUL WORLD

labuta num mundo de sonhos
mora na terra dos meus sonhos
acorda na vida dos seus sonhos
ela é Maria como as outras
de Fátima, de Lurdes, da Conceição
maria de todas, maria de verdade
maria solidária, maria maria
je vous salue marie pleine de grace
que coisa mais linda mais cheia de graça
é preciso ter manha, é preciso ter graça
é preciso ter sonho sempre...
ela assiste à novela das oito
como quem lê saramago e nothomb
e ri e chora e canta e gargalha
na sua voz de tagarela estridente
mãe, amante, poliglota, concierge
passista de pantuflas e pijama
ela é carioca da gema, ela é bamba
almoça e escova os dentes num só tempo
assovia e chupa cana e roda a saia
roda, corre, salta e nunca desmaia
e ri de si própria... ela é a Daia

(Edmilson BORRET – 01/01/07)

4.12.06

De Judiths e Liliths, luas negras, eine andere femme fatale... tudo nome de guerra... valei-me, seu Almada! - Parte II


Explicando o post anterior... porque professor sou, e essa majestade ao menos não me fizeram perder ainda...


(Judith Beheading Holofernes - Caravaggio)


As leituras que são feitas do romance Nome de guerra, de Almada Negreiros, voltam-se sobretudo para o personagem Antunes e para questões que lhes são pertinentes, como a conquista da autonomia pessoal em confronto com a sociedade e a questão da relação amorosa e seus desdobramentos; ou também a situação do romance no estilo literário em questão, a saber: o Neo-realismo, a ficção dos presencistas e as questões de identidade/diferença em relação aos seus contemporâneos.
Mesmo que não negando essas questões, por que não deslocar a leitura e centralizar em Judite (o personagem feminino) o nosso olhar? E, com esse deslocamento, procurar o avesso do nome de guerra, Judite? Quem se esconde por trás dele? Que fantasmas da sociedade portuguesa e ocidental estão ocultos no avesso do nome?
O que Almada Negreiros faz em Nome de guerra é brincar com nomes, brincar no nome, nomear - hábito de quem lida com o hermetismo, o secreto - porque o nome traz, quando não o lírico, o drama do nome, o épico do nome, o mito do nome ou o nome que se quer. Nessa leitura de Almada vou procurar saber, no dizer do nome, o desconhecido; no avesso do nome, o provável.
Nome de guerra. O título destaca Judite, ou melhor, o avesso. Daí não centralizarmos em Antunes a nossa leitura. Por que razão Almada teria destacado logo no título a personagem e o seu avesso? Que fantasmas, que mitos perpassavam o seu tempo e escrita?
Uma Judite que não se chama assim. “Era uma vez uma rapariga chamada Judite. Mas o seu nome verdadeiro não era Judite. Só às vezes, em ocasiões muito íntimas, é que ela esteve quase para dizer tudo:
- Eu não me chamo Judite. Mas não digas nada a ninguém. O meu nome verdadeiro é...
E calou-se.
Judite é um nome a quem a Bíblia faz cortar a cabeça de Holofernes.”
E é o narrador quem primeiro nos dá indicação dos possíveis conteúdos míticos de um nome ou nomes que se ocultam atrás do Nome de guerra. A Judite bíblica venceu para os habitantes de Betúlia uma guerra que se travou apenas no acampamento de Holofernes, o qual fora enviado por Nabucodonosor, rei dos assírios, para castigar aqueles países do ocidente que se recusaram a tomar parte na sua campanha contra Medéia. Segundo o Livro de Judite, o sumo sacerdote de Betúlia (cidade próxima a Jerusalém) manda os habitantes ocuparem os desfiladeiros, enquanto Aquior chamava a atenção de Holofernes sobre a proteção divina de que gozavam os judeus, ouvindo em contrapartida a réplica de Holofernes que se gabava da divindade de Nabucodosor. Aquior é expulso do acampamento assírio e os habitantes de Betúlia, cercados e com suas provisões de água bloqueadas, entram em desespero. Ozias, o governante da cidade, decide que, depois de cinco dias, se não houver nenhuma intervenção divina, vai se render e entregar a cidade a Holofernes. Neste momento intervém Judite, sugerindo que, ao invés da rendição, ela vá ao encontro de Holofernes, a quem oferecerá seus préstimos. Depois de muitas orações, Judite vai ao encontro do general e se apresenta como sua cúmplice. Elogiada e aceita, Judite fica no acampamento, degolando o general no quarto dia, quando ele se encontrava embriagado pelo vinho. Na manhã do quinto dia, os habitantes de Betúlia atacam, encorajados pelo feito de Judite, e vencem os inimigos. Judite então é levada em triunfo pelo sumo sacerdote a Jerusalém, onde é homenageada, testemunhando até idade avançada a tranqüilidade dos habitantes de Betúlia. A relação entre as Judite é distante, as semelhantes são poucas, mas não devem ser desprezadas. Ambas se relacionam com um momento de passagem, com a resolução de um conflito, e se unem pelo laço de guerras distintas. A travada por Judite, a judia, termina com a morte do amante e trava-se apenas como tentativa de retorno a uma normalidade quebrada. Judite, a portuguesa, a prostituta, usa os seus dotes em outra guerra, que trava com a vida e com os homens, lutando pela própria sobrevivência, sem nenhum outro mérito a não ser o de fazer Antunes defrontar-se com a sua própria realidade, encontrando o seu momento de fuga da realidade para depois deixá-la, dando continuidade às sucessivas perdas de Judite, testemunhas das diferenças sociais, do conservadorismo português e da impotência feminina numa sociedade governada pelos homens. A morte, nesse romance, também assinala um momento de ruptura, mas trata-se da morte de outra mulher, Maria; porque sempre foi em suas atitudes o oposto de Judite, alienando-se da guerra. Uma Judite que não é a outra, mas que vai nos permitir essa outra leitura do texto de Almada Negreiros: mulheres que se compõem aos poucos num conflito entre os sexos.
“Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E aconteceu-nos antes ainda de termos nascido. É a árvore genealógica. Nós somos hoje o último fruto dessa árvore secular, secularmente secular! O fruto! Mas, por mais genuíno que seja o fruto da sua árvore, esta nasce tão incomparavelmente anterior à Bíblia, e é talvez, em tão remotas origens que devemos procurar o nome que se esconde sob o nome de guerra.”
E é isso o que o romance nos pede em várias passagens: que retornemos. Um retorno à criação, num percurso que nos mostre alguns porquês: o do título Nome de guerra, o do nome Judite, o primeiro nome de Antunes, Luís, cujo significado grego é "famoso na guerra", e os sentidos de alguns conflitos.
“A árvore genealógica não funciona como ciência. É mesmo o contrário de ciência: mistério! Um mistério que se espelha só em cada um de nós! Um verdadeiro mistério humano, que ultrapassa a sociedade e a ciência, que respira ar de Arte e Religião!”
E são esses ares que devem ser inspirados pelo arqueólogo que busca a genealogia de Judite.
“A história verídica é a única que vale e pode-se contar: o primeiro homem que elas conheceram era um pulha! E cada uma teve o seu para virem juntar-se todas ali na sala de distracções, dos estranhos e do esquecimento...” Homens, mulheres, esquecimentos, o primeiro pulha... Adão. Antunes. Judite. Mulher e narrativa que nos aponta para o nome Lilith.
“Não vem tudo isto de longe, de tão longe que a memória viva não atinge, mas que apesar disso vem dirigindo-se para cada um de nós através de séculos, desencontrados, de altos e baixos, como se quis ou como pôde ser?”
Lilith também foi relegada ao esquecimento. A primeira companheira de Adão foi perdida ou removida durante a transposição da versão jeovística para a sacerdotal, e quase desaparece sem deixar vestígios na versão da Bíblia redigida pelos Papas da Igreja. De uma certa maneira, Judite é Lilith, como transfiguração do mito, ou espaço projetivo do mito; permanência que se desdobra em outras Judites, constelação de Circes, Cibeles, Reas, Maias, Dianas, Isís, Ceres, Anus, Deméteres, Ishtares, Perséfones, Hécates, Eumênides, Empusas, Lâmias, Équidinas, Erínies, Amazonas, Sereias...
A árvore genealógica de Judite nos leva a Lilith, a Lua Negra, a primeira mulher de Adão. A Judite de Antunes tem características tais que nos permite a aproximação com as representações do mito. O romance de Almada negreiros nos aponta esse caminho. A primeira companheira de Adão foi Lilith, concebida sem a costela, como no caso de Eva; mas, segundo a tradição, cheia de sangue e saliva, instigando em Adão uma insustentável perturbação que o levou a rejeitá-la. O sangue de Lilith é o sangue mestrual, metáfora alegórica para fazer perceber o caráter carnal, fisiológico, vital, instintivo da mulher. A saliva associa-se à secreção erótica. Lilith é então apontada não como mulher, mas como demônio, desde o início da relação com Adão. Lilith, como nos diz Roberto Sicuteri em seu trabalho Lilith: a lua negra, "entra no mito já como demônio, uma figura de saliva e sangue, um verdadeiro espírito deixado em estado informe por Deus; é uma companheira que apresenta fortes traços de fatalidade". O mito de Lilith, representando certamente o arquétipo da relação homem-mulher, pode ser o início da árvore genealógica que facilitaria assim a compreensão da relação Judite-Antunes e o nome que se oculta sob o nome de guerra:"o que nos guia não é o interesse teológico, mas o psicológico, pela redescoberta da lenda de Lilith, para agregá-la, como energia psíquica formadora do mito e do arquétipo, ao núcleo concernente à história da relação entre Anima e Animus e para entender as origens endopsíquicas da cisão entre 'instinto' e 'pensamento', para esclarecer finalmente o grande equívoco do primado masculino sobre a mulher sentida como inferior" (Roberto Sicuteri, Lilith: a lua negra).
A partir dessas palavras de Sicuteri, podemos compreender a relação Judite-Antunes e entendermos melhor a condição da mulher na sociedade portuguesa, mas sem esquecer que o modelo português repete-se em inúmeras outras sociedades. Enquanto a Lua Negra é descrita de forma negativa, Eva, ao contrário, é apresentada em suas belezas e ornamentos. Adão não a recusa por vê-la como ossos dos seus ossos. Já Judite seria, para Antunes, o "conhecimento carnal", a transgressão à Lei; Maria a aceitação da imagem boa, mais agradável ao Pai e à Lei. Se bem que o vivido com Lilith também é vivido com Eva. Lilith desobedece à supremacia de Adão, Eva iria desobedecer à proibição.
“A sua ligação com a Judite tinha sido uma compensação, uma desforra, um contrabalanço... de quê? A sua vida esteve toda inclinada para o lado oposto ao da Judite. Para onde? Houve um desequilíbrio para responder a outro desequilíbrio, necessário para pôr o fiel a zero, como um pêndulo vai obrigatoriamente de um a outro lado da vertical a distâncias iguais, para cumprir a semetria, a gravidade e a oscilação. O desequilíbrio era para os dois lados: a Maria e a Judite eram ambas ainda o mesmo erro!”
Deus escreve por linhas tortas. Cria Adão, Eva e a serpente. A árvore e o fruto. Deus nos permite ler de trás para frente os mitos. Esse Antunes-Adão rejeita inicialmente a primeira criação do tio-pai (o personagem tio Alves, que o leva ao meretrício e apresenta Judite a Luís Antunes) e inicia-se o conflito com Judite. “Ele tinha cometido a mais grave ofensa que pode ser feita à mulher: tinha sido indiferente para com a sua nudez!” Projeta-se a rejeição de Adão, Judite é vista como indiferença. Lilith e Eva se confundem por analogia: “Entre ele e a mulher nua a sua educação punha uma distância que não era destruída pelo desejo da carne”... até que mordesse a maçã.
Mas Antunes sente-se como o seu ancestral bíblico: “decidia fazer convergir todos os seus passos num único fito: a escolha da companheira. O motivo desta resolução estava na lembrança do que era a sua vida ultimamente, sem progresso, sem explicação, parada, inútil, nula. A causa desta estagnação era a falta de uma companheira”; "mas não se achava para Adão um adjutório semelhante a ele" (Gênesis, II, 20). Ou seja, Antunes não tinha encontrado em Maria sua igual, conheceria "Judith", a mulher da noite, antes que estivesse pronto para outra companheira... nem a primeira nem a segunda, nem a primeira nem a segunda.
Se Judite é projeção do mito de Lilith, abro aqui um parêntese para algumas observações sob a condição de inferioridade da mulher na sociedade portuguesa descrita por Almada Negreiros. As mulheres são lançadas na prostituição por uma rejeição de um "desgraçador" que as desvirginam e as abandonam depois da sedução. Poucas conseguem encontrar um homem que as aceitem por não terem sido "o primeiro", e todo um capítulo do romance é dedicado ao tema do "desgraçador". Antunes não agirá de maneira diferente, pois o conflito de sua educação é a base para deixar Judite, para não se permitir amá-la verdadeiramente, assim como o eterno conflito e os inúmeros "nãos" ancestrais não permitiram também a Judite entregar-se totalmente a Antunes. "Judith" serve como um veículo de passagem, de aprendizagem e, posteriormente, descartável.

(Trabalho apresentado para a disciplina Literatura Portuguesa II, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Novembro de 1989)


Pois é, caros leitores, houve um tempo em que eu era um ser pensante... Creiam-me! Nesse trabalhinho aí obtive a nota máxima... Oh Glória!

29.11.06

Mulheres do meu Brasil varonil, um tostão da minha voz para vocês!


"Você vê os meus cachos? Me olhe de novo"– diz a propaganda idiota.


Por que eu iria querer olhar só pros seus cachos? Se você for realmente interessante eu vou te olhar é de qualquer jeito, mesmo você sendo careca, sua cacheada superficial do cacete! Porra, é foda! Mas quando o assunto é publicidade de cosméticos, por que as mulheres são sempre ridicularizadas?
Ou será que não é o Brasil patriarcal (e o mundo inteiro, notadamente a ocidentalidade) que estaria precisando de um cremezinho para as rugas????? Putz! A noção de beleza feminina está mais muxibenta que meu saco!!!!! E tome Revlon, e L’Oréal, e Herbal’s Life, e Avon, e Natura e o cacete! E a perguntinha incômoda: “Querida, você já pensou em emagrecer enquanto dorme?” Ao que a minha amiguinha Daia respondeu hilariamente:
“Sim, eu já pensei em emagrecer enquanto durmo! Também pensei em fazer luta-livre enquanto cago, em aprender russo, tcheco e aramaico enquanto assisto à tv, em fazer mestrado e doutorado enquanto ando de ônibus, e inclusive desenvolvi uma técnica muito interessante que me permite almoçar e escovar os dentes simultaneamente...”

Hahahahaha... Valeu, Daia!
Aí vieram me perguntar por que eu enalteço tanto a mulherada. É citação aqui no blog, é depoimento, é poema e o escambal... Ora bolas, por quê... Bom, primeiro porque elas me paparicam. E eu adoooooro ser paparicado. Sim, mesmo tendo sido um cara sempre muito independente e auto-suficiente, eu adoro. Mamãe me paparicava, minhas irmãs me paparicam, e as moçoilas que conheci vida afora sempre me paparicaram também. Sempre me encherem de mimos, cafunés e beijinhos gostosos. Aí, o neguinho aqui se derrete todo. Que essa porra é bom demais!!! E o mané aí que não gosta de um paparico, que atire a primeira pedra. (Vai! Pode atirar, seu puto! Ainda tenho certa flexibilidade e reflexo para me abaixar ou me desviar numa guinada rápida na hora exata da pedrada) Segundo - e talvez mais importante - porque mulher é foda, meu camarada! Não tem jeito: bobeou, dançou. Elas têm a porra do tal do sexto sentido, saca? É. Parece que te adivinham. Te sacam no primeiro olhar. Te reviram por dentro e te põem a nu sem piedade. Eu é que não serei burro de entrar num embate com elas. Vou perder bonito!!! É a velha história: se não podes vencer teu inimigo, junta-te a ele. Eu tô é do lado delas mesmo. Vou enaltecê-las sim e colocar meu rabinho entre as pernas que eu não sou besta.
Mas também é o seguinte: eu não embarco nesse papo babaca de divinizar a mulherada só por causa do seu ventre não. Esse é mais um dos malefícios reducionistas da mentalidade patriarcal, ocidental, judaico-cristã. Por conta desse papo é que puseram, durante muito tempo, a mulher num pedestal bem alto, mas esqueceram de colocar uma escadinha ali ao lado para o caso de ela querer dar uma descidinha de vez em quando (nem que seja pra dar uma mijadinha). Tiveram que pular, coitadas! E além do mais, por esse prisma, as mulheres que não podem engravidar então não teriam nada de divinas, né? Porra! Sacanagem! Quer saber? Santas e putas deveriam ser todas as mulheres. E esse é que o barato da coisa. Elas são santas enquanto putas. E putas enquanto santas. Nós, ou somos putos ou somos santos. Homem não tem meio-termo: essa é a mais triste das verdades. Nós temos é meio-das-pernas, para onde parece termos canalizado a presença ou a ausência da santidade ou da putaria. E o meio-das-pernas não admite meio-termo. Ou tá mole ou tá duro. Não riam: é sério! Mulher parece não nos exigir tanto o meio-das-pernas e, ao mesmo tempo, parece não abdicar dele: é isso que nos funde a cabeça. Mas vai lá! Ainda assim estou com elas. Como eu já disse, eu sou sensato.
Hoje, por exemplo, eu fiz uma mulher feliz. E olha que nem foi por causa do meu pau (que, modéstia à parte, é bem acima dos padrões). Fiz uma mulher feliz porque lhe toquei os sentidos (não sei se o sexto ou qual outro). Escrevi-lhe um poema. E nessa história de escrever, parece que a gente se aproxima um pouco mais da feminilidade. Não sei, mas eu sempre achei que o dom da palavra é primazia das mulheres. Moacyr Scliar também achava isso ao nos brindar com seu delicioso e satírico livro A mulher que escreveu a Bíblia, onde uma mulher do nosso tempo submete-se a uma terapia de vidas passadas e conclui que numa encarnação anterior, há três mil anos, foi ela que escreveu a primeira versão da Bíblia. Legal seria se fosse verdade, não? Nossa! Muita coisa poderia ter sido diferente.
Mas sim, fiz uma mulher feliz hoje ao lhe escrever um poema. E outros já escrevi para outras mulheres. E outros continuarei a escrever. Aqui mesmo neste blog, vocês, caros leitores, já tiveram a oportunidade de ler duas homenagens a duas mulheres incríveis: a Miriam e a Divina. Agora faço mais quatro beldades felizes: a guerreira Celeste lá na França (que num conto de fadas ao avesso, viu seu príncipe transformar-se em sapo, e sapo feio), minha grande amiga Filomena (Filó, Fifi, Fiona, como queiram), a linda Isabel (ou Sininho ou Bel, ou BELdade) e a forte Valéria Olivier (a Val).
À parte toda essa babaquice sem sentido que falei aí em cima, saibam, mulheres, que adoro vocês!!!!



DEPOIMENTO A CELESTE

Petite fille venue du ciel
aérienne, cosmique
La voûte elle-même qui nous recouvre
Couleur bleu céleste, azur
Demeure céleste, paradis
Manne céleste, nourriture de l'âme
Voix céleste, chant pour nos oreilles
Armée céleste, ange, angellus,
messagère divine à caractères humains
Celeste... c'est l'est
c'est l'ouest
c'est le nord
c'est le sud
Voilà mon amie Céleste!

(Edmilson BORRET - Junho de 2006)




DEPOIMENTO A FILOMENA

FILÓ...
FILÓ...
FILÓ...
FILO-sofia pura...
FILO-logia do linguajar quotidiano...
FILO-dermia no toque suave
das mãos de fada...
FILO-genia das idéias abstratas...
FILO-neísmo sempre crescente...
FILO-tecnia digna das musas..
Teu nome é prefixo dos mais belos,
significando amiga e amante.
Teu nome é também espécie de tecido leve
que cobre a candura e a pureza das mulheres
em forma de véu.
FILOMENA, teu nome é homenagem a santa virgem mártir.
Rendo homenagem a essa grande amiga,
conhecida aos poucos,
em gotas homeopáticas e eficazes.
Confesso minha FILOginia
aos pés dessa grande e maravilhosa mulher!!!
Ave, Filó, gratia plena!
LUMENA - pax cumte - FI!


(Edmilson BORRET - Agosto de 2006)




VESTIDA PARA NÃO SE MATAR
a Isabel Goulart

Cobre teu corpo de pedrarias e ouro
Tua boca, do mais sensual carmim
Nos teus olhos, o mais fino delineador
A sombra mais provocativa
O rímel mais ousado que possuíres
Um vestido do mais caro tafetá
Que te revele as ancas de deusa pagã
E o colo de santa no altar
Decerto que te cairá bem
Cobre tuas pernas com a seda
Da fina meia que as revele
E teu sexo, com a textura da renda branca
Cobre-te de sensualidade proposital
Não te cubras mais de dores
Temores e perdidos amores
Já tens por ora
Tuas cólicas, teus mênstruos
Para que buscar mais?
Não cubras mais tuas noites
De infrutífera e vã vigília
Nem tua garganta da secura
Das pílulas e gotas -
Esta merece o calor redondo e macio
Do mais caro vinho
Ou do mais abusado champanhe...
Cobre-te de estima e zelo, mulher!
E a nós seja dado
Cobrir-te de admiração e desejo
E se te ferirem o coração
Fura aos olhos do insano
Com o salto do scarpin
Que te emoldura os pés de gueixa
Que uma certa crueldade vingativa
Só fará por te acrescer
Mais charme e sedutora beleza...

Sim, cobre teu corpo de pedrarias e ouro
E teus sonhos, cobre-os de cuidados...

(Edmilson BORRET – Outubro de 2006)




VALÉRIA NÃO GOSTA DE CHÁ DE PANELA
a Val Olivier

Valéria não gosta
de chá de panela
nem chá de cadeira
nem chá de cidreira
Valéria quer mesmo
é despedida de solteira
com gatos em sua soleira
Paus de cenoura, tomate e bombril
é coisa de Amélia
não é de Valéria
Não se é puta porque pariu
Não se é santa porque não abriu
Entre a puta e a santa
de norte a sul do Brasil
há alma de Valérias tanta
e homem sem alma não ver fingiu
Mas Valéria ainda canta
e leciona e cozinha e desenha
no tecido de materna manta
rosas vermelhas e girassóis
E palavra doce empenha
no linguajar de seus lençóis
Valéria amou, namorou, casou
e em filosofia de biscoito
Valéria um dia se perguntou
do nada no meio do coito
se mais deu porque recebeu
(mulher perguntando desmonta a gente)
ou só recebeu porque enfim deu
Resposta não tendo
ou a tendo de meia-sola
Valéria deu mais linha à pipa
Pouco não quer
que é mulher de escola
E cara a cara com a fera
Valéria se fez mais bela
De boazinha fez-se boa
e não gosta mais de chá de panela.

(Edmilson BORRET – Novembro de 2006)
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