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19.6.11

Novas diretrizes quando a vida é sonho ou As relações de poder na língua


Assisti hoje, pela quarta ou quinta vez, ao excelente filme Tempos de Paz, baseado na peça Novas diretrizes em tempos de paz, de Bosco Brasil. E devo dizer que, a cada vez que assisto a esse filme, choro copiosamente. Mas é de um choro que ainda não sei explicar: é franco, mas não é triste... tampouco é alegre. É choro, simplesmente. Não assisti à encenação do texto do Bosco nos palcos. Só conheço essa versão para o cinema. Direção ótima do Daniel Filho, que, aliás, está incrível também como ator no filme, apesar das poucas cenas. Interpretações impagáveis de Tony Ramos e Dan Stulbach, como Segismundo e Clausewitz, respectivamente: um embate de talentos poucas vezes visto no cinema brasileiro, em quase 70 minutos de diálogos entre os dois somente... Há que se ter fôlego!

Não vou nem falar do monólogo do personagem Clausewitz, porque essa cena talvez seja a mais comentada do filme. Já é umas das cenas antológicas do cinema nacional! Monólogo retirado da peça A vida é sonho, do espanhol Calderón de La Barca. Não à toa, o personagem da peça do espanhol se chama Segismundo também. Se, na peça de Bosco Brasil, Segismundo é um ex-torturador da ditadura de Vargas agora responsável-chefe pela Imigração e pela autorização da entrada de europeus no Brasil do pós-guerra; em A vida é sonho, o personagem é o filho renegado de Basílio, rei da Polônia que ao nascer é trancado em uma torre. Seu único contato com o mundo externo é Clotaldo, seu guardião e fiel servo de seu pai. O Segismundo brasileiro é algoz: prendia e torturava; o espanhol é vítima: sofria a violência da prisão e a tortura de nem sequer ver a luz do sol.

Mas é curioso como Bosco Brasil mantém algo do Segismundo espanhol no brasileiro: este também, embora não estando preso numa caverna, vive num mundo de sombras. Sombras de um passado que o atormenta e do qual ele tenta se libertar. Segundo Platão, o homem vive em um mundo de sonhos, de escuridão, cativo em uma caverna da qual só poderá se libertar ao tender para o bem: somente desse modo, o homem deixará a matéria e fará a ascese até a luz. A influência da concepção platônica na obra de Calderón é evidente já mesmo no título. O personagem Segismundo vive, no princípio, dentro de um cárcere, numa caverna, na qual permanece na mais completa escuridão pelo desconhecimento de si mesmo, e somente quando é capaz de ter conhecimento de quem realmente é, alcança o triunfo da luz. Aos poucos, Clausewitz vai efetuando essa mesma transformação em nosso Segismundo brasileiro. E a transformação se faz completa quando ele consegue fazer o ex-torturador chorar ao recitar o tal monólogo.

Entretanto, o que mais me chama a atenção no texto de Bosco Brasil é a discussão que se faz sobre as relações de poder. Numa primeira leitura, essas relações parecem se estabelecer num plano político óbvio. Um chefe da Imigração no porto do Rio de Janeiro interrogando um imigrante polonês que ele supõe ser um possível nazista querendo abrigo no Brasil após a Segunda Guerra. Em tempos de paz e de anistia para os presos políticos da ditadura de Vargas, dar salvo-conduto a um nazista seria uma temeridade, sobretudo para um ex-torturador com uma ficha corrida mais suja do que pau de galinheiro. Por isso Segismundo achou que, no caso de Clausewitz, um interrogatório mais cuidadoso deveria ser feito. E isso porque, diferentemente dos outros imigrantes, Clausewitz falava um português impecável. A adaptação para o cinema foi bastante feliz ao sublinhar esse fato. No filme de Daniel Filho, causou estranheza aos funcionários da alfândega essa fluência de Clausewitz no nosso idioma. E é justamente aí que se estabelece, a meu ver, uma segunda leitura das relações de poder. A língua! Já na fila da triagem fica clara essa relação de poder. Os outros imigrantes, por não entenderem nada do que os funcionários da alfândega dizem, são mais submissos. Já Clausewitz é mais altivo: ele recita para o funcionário os primeiros versos do poema “Mãos dadas”, de Carlos Drummond de Andrade.

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.


O funcionário da alfândega olha meio desconfiado para Clausewitz e sai preocupado para chamar imediatamente o chefe, Segismundo. A partir daí, o filme segue à risca os mesmos diálogos da peça de Bosco Brasil. O ex-torturador começa o interrogatório do imigrante polonês e quer, a todo custo, saber como um agricultor simples aprendeu a falar o português tão bem.

SEGISMUNDO - (TEMPO) O senhor fala mesmo, o Português.

CLAUSEWITZ - Eu falo.

SEGISMUNDO - Já esteve no Brasil antes?

CLAUSEWITZ - Nunca antes.

SEGISMUNDO- Sei. E o senhor aprendeu como, o Português?

CLAUSEWITZ - Estudei sozinho. Depois de tudo que eu passei... tudo que eu passei na Guerra... estudar uma língua tão estranha foi bom para mim, me fez esquecer... Eu sou grato ao “x”. Gastei muito tempo estudando os valores do “x” no Português. Como é que vocês usam de tantas maneiras uma letrinha à toa?! Estudando o “x” eu às vezes quase esquecia da Guerra... Quase esquecia da maldade. (TEMPO) Claro, um funcionário do consulado do seu país em Manchester me emprestou alguns livros. Ele também repetiu “não” muitas vezes. Agora eu falo: “não”.

SEGISMUNDO - Era a obrigação dele.

CLAUSEWITZ - Repetir o “não””?

SEGISMUNDO - Não se pode dar visto de entrada ao primeiro que aparece.

CLAUSEWITZ - Ah... Estava falando da pronúncia. “Não”. É difícil dizer: “não”. Essas “nasais” da sua língua...

SEGISMUNDO - Nazistas, o senhor disse?

CLAUSEWITZ - Por favor! Nasais! Nasais... Não. Mão. Verão.

SEGISMUNDO - Então. O senhor aprendeu com esse funcionário do consulado.

CLAUSEWITZ - Eu já tinha estudado um pouco no seminário. Por causa do meu professor de Latim. O Professor Cracowiack... (TEMPO) Docta ignorantia. O senhor já ouviu isso, não?

SEGISMUNDO - Não. O que é?

CLAUSEWITZ - Latim.

(...)

SEGISMUNDO - (TEMPO) Então o senhor aprendeu português no seminário...

CLAUSEWITZ - Não. Latim... Com o professor Cracowiack , como eu disse. (TEMPO) Interessante. Nunca soube como o professor Cracowiack foi acabar dando aula no seminário. (TEMPO) O professor Cracowiack amava as línguas neolatinas. (TEMPO) Professor Cracowiack falava dezessete línguas! (TEMPO) Ele tinha o exemplar de uma revista com poesia brasileira moderna. (SE ANIMA) O senhor já ouviu falar do senhor Carlos Drummond de Andrade?

SEGISMUNDO - É o sujeito forte do ministro da Educação e da Saúde. Eu sei que escreve num jornal. Parece que é escritor. E o senhor, é escritor?

CLAUSEWITZ - Não, sou agricultor.

SEGISMUNDO - E aprendeu sozinho o português... Não é todo dia que chega um estrangeiro aqui, falando Português.

CLAUSEWITZ - É bom estar no Brasil.

SEGISMUNDO - Deve ser. (TEMPO) Escute, o senhor chegou num dia um pouco agitado. Precisamos resolver esta confusão logo. O senhor sabe que pela lei ainda estamos em guerra. Eu sei, eu sei... Na Europa a coisa parou. Logo vem o armistício. Mas para nós, aqui na Imigração, tudo continua o mesmo. Estamos esperando novas diretrizes para tempos de paz. Enquanto não chegam: continua o mesmo. Se quer ficar no país, como estrangeiro, o senhor precisa de um salvo-conduto. O senhor quer ficar no país, não é?

CLAUSEWITZ - Eu quero.

SEGISMUNDO - Sei. Então nós temos que esclarecer algumas dúvidas a seu respeito. Se isso não for possível, o senhor será obrigado a voltar ao cargueiro, e seguir viagem.

Que audácia desse imigrantezinho de merda falar português assim tão bem! Não pode! Se alguém quer vir pedir abrigo no país, tem que mostrar mais humildade, oras! O chefe da Imigração tinha que mostrar quem estava no poder ali. E a forma mais de contundente de ele exercer o poder sobre os imigrantes era justamente o domínio da língua que ele tinha e eles não.

E é essa relação de poder que eu gostaria de destacar no texto de Bosco Brasil: quem tem o domínio da língua é rei. Uma discussão que se faz bastante atual em tempos de controvérsias sobre certo ou errado, sobre adequado e inadequado no que tange à diversidade lingüística no Brasil. Falar “bem”, falar “correto” conferiria um certo status na visão dos detratores da pluralidade lingüística. Volto a discussão da postagem anterior para mostrar que, da mesma forma que Clausewitz, o falante do português precisa saber falar “bem” para ter seu salvo-conduto, para poder transitar livremente. Na peça/filme, o imigrante teve que convencer a autoridade estabelecida para obter o salvo-conduto:

SEGISMUNDO - Está bem. Ainda temos uns dez minutos antes do seu navio zarpar. Eu já estou atrasado, mesmo. (PARA SI) Tanto faz se eu encontrar um daqueles na rua... (TEMPO) Vamos fazer um trato. O senhor tem esses dez minutos para me fazer chorar.

CLAUSEWITZ - Fazer o senhor chorar?

SEGISMUNDO - Isso. Me conte suas histórias da Guerra. Se eu não chorar no próximos dez minutos por causa das suas lembranças, o senhor embarca no navio. Se eu chorar... Está vendo este salvo-conduto? É seu.

CLAUSEWITZ - Isto está no regulamento?

SEGISMUNDO - Para o senhor, agora, eu sou o regulamento.

CLAUSEWITZ - (TEMPO) O senhor chora, eu fico no Brasil?

SEGISMUNDO - Fica.

No Brasil das desigualdades, o falante que não domina o padrão culto do português estará condenado ao porão, sob o dedo inquisitório de algum gramático de plantão. Mais do que o dedo inquisitório... a palmatória mesmo! Ou isso, ou desistir da cidadania. Para se tornar sujeito, o falante terá que se submeter à tortura das regras. Desaprender o português para aprender o Português. Nessa relação de poder, o falante deve deixar para trás tudo o que ele aprendeu sobre a beleza da língua em nome da norma. Minha preocupação é que, ao ser forçado a falar o Português que lhe é exigido, o falante se decepcione com sua própria língua-mãe. Que ele experimente, assim como o personagem Clausewitz, uma decepção profunda com a língua das possibilidades do “x”, ao ter que seguir regras e normas, ao ter que obedecer ordens do poder estabelecido.

CLAUSEWITZ - Eu estou... estou espantado.

SEGISMUNDO - Espantado? Mas o senhor veio da guerra!

CLAUSEWITZ - Não. Eu estou espantado porque nunca imaginei que essa coisas pudessem ser ditas no seu idioma. Para mim o Português era um latim falado por bebês, velhinhos... pessoas que não tivessem dentes! Se essa gente tivesse dentes, como poderiam ter perdido tantas consoantes?

SEGISMUNDO - Também arrancávamos os dentes do sujeito, é claro.

CLAUSEWITZ - (TEMPO) Eu que achava que o Português era uma língua falada pôr gente com dotes de análise e síntese.

O navio apita mais uma vez. Tempo.

CLAUSEWITZ - O que o sujeito fez para o senhor?

SEGISMUNDO - Que sujeito? Ah, aquele sujeito... Nada. Eu fazia tudo o que me mandavam fazer. Foi assim desde o tempo do orfanato. Eu era forte para a idade. Para o coral eu não servia, mas para quebrar o pescoço das galinhas eu servia. Pelo menos me deixaram ficar junto com a minha irmã... Eu sempre fiz tudo o que me mandaram fazer.

CLAUSEWITZ - (IRRITADO) Por que vocês fazem tudo que mandam?

SEGISMUNDO - “Vocês”?...

CLAUSEWITZ - Homens como o senhor. Homens como o senhor me fizeram odiar o idioma alemão. Eu amava Goethe! Agora não posso mais ouvir uma linha do Fausto.

SEGISMUNDO - Quem? Do que o senhor está falando?

CLAUSEWITZ - De teatro!

SEGISMUNDO - Eu tinha entendido que o senhor agora era um agricultor.

CLAUSEWITZ - Eu sou um agricultor! Mas eu sou um agricultor no Brasil. Eu tenho que falar a língua que se fala aqui! E o senhor está me fazendo odiar o Português!

O navio apita. Segismundo olha o relógio.

SEGISMUNDO - No Brasil nós falamos português...

CLAUSEWITZ - (TEMPO) Meu professor de latim dizia que o Português era uma língua falada por passarinhos... Tão doce, tão alegre...

SEGISMUNDO - (TEMPO) O senhor nunca recebeu uma ordem em Português. Por isso teve essa idéia.

Clausewitz, quando cita o famoso monólogo da peça de Calderón de La Barca, reivindica a liberdade que lhe foi negada, assim como foi negada a Segismundo de A vida é sonho; a mesma liberdade que parece ser negada àqueles que não dominam a variante culta do Português em nosso momento atual. Com seu monólogo, Clausewitz conseguiu arrancar lágrimas de Segismundo, pois este acreditou, naquele momento, tratar-se da experiência de vida do imigrante polonês. E assim ele obteve seu livre-conduto. Acredito que ainda está longe o tempo em que o falante do Português que não optar pelo registro culto conseguirá convencer os donos do poder a lhe darem passagem. Como professor de Língua Portuguesa que sou, no entanto, vou fazendo minha parte. “Não serei o poeta de um mundo caduco”, não estabelecerei essa relação de poder com os alunos ao normatizar que eles só podem se expressar segundo o que reza a Gramática da autoridade, ao desconsiderar os seus falares, os seus regionalismos, as suas experiências. Se me colocarei na mira dos detratores do falar adequado? Acredito que sim. Se essa minha prática pedagógica vai surtir algum efeito? Sinceramente não sei. Não quero provar nada para ninguém. Só quero fazer o que acho mais justo. Quero provar para mim mesmo que posso, ao menos, amenizar essas relações de poder advindas da experiência lingüística. Para isso me formei professor. Assim como Clausewitz – que na verdade não era agricultor, e sim ator – nunca quis provar nada para Segismundo; apenas quis provar para si mesmo que num mundo de violência e guerra ainda era possível exercer seu ofício de ator.

SEGISMUNDO - O que o senhor acha que provou para mim?

CLAUSEWITZ - Nada. Para o senhor eu não provei nada. Eu provei para mim mesmo. Olha, eu sei que o Brasil precisa de braços para a agricultura, mas eu sou ator. Esta é a minha profissão. Eu ainda não sei para que serve o Teatro no mundo depois da Guerra. Só sei que eu tenho que continuar a fazer o que eu sei fazer. Um dia alguém vai saber para que serve. Se serve. Para mim me basta fazer. Fazer teatro. É como a receita do mingau do professor Cracowiack. Alguém precisa saber como se faz esse mingau...

SEGISMUNDO - Saia da minha sala, o senhor, o teatro e o mingau.

Para mim também me basta fazer. Se meus alunos estiverem aptos a se expressar a ponto de conseguir ensinar a alguém como se faz um mingau, para mim já vai estar de bom tamanho. Pouco me importa se a receita do mingau foi passada no registro culto ou não da língua...




3.5.11

Justice has been done... Really?


A sensação que tenho é que estamos vivendo uma grande farsa. Todos os jornais que leio, todas as páginas de notícias na internet, todas as tv’s do mundo – tudo repetindo o mesmo sentimento: “justice has been done”. E se eu não me policio, corro o risco de acreditar mesmo que alguma justiça foi feita. Uma justiça bem ao gosto americano, uma justiça que não reconhece nenhum Estado de Direito, uma justiça baseada na lei de talião, uma justiça como a que se vê em passagens do Velho Testamento. Aqui no caso, olho por olhos, dente por dentes: o sangue que escorreu de duas torres enfim vingado na foto-montagem de um corpo atirado às vagas do mar.

Vejo americanos felizes pelas ruas, festejando, comemorando, dançando e gargalhando. Uma festa pela morte! Vejo comparações estranhas com velhos fantasmas de ditadores sanguinários – o que justificaria a morte. Hitlers, Mussolinis, Stalins, Saddams e toda uma longa corja de vultos negros assassinos voltam correndo para o inferno acompanhados de mais um representante do Mal. O Mal, mais uma vez, foi vencido. O sol há de brilhar mais uma vez. A luz há de chegar aos corações. A câmera, primeiro em plano fechado, enquadra o rosto de um presidente-herói saudando a multidão mundial; depois, num plano aberto, vai subindo numa grua e faz um longo take épico, panorâmico, dos rostos felizes quase em transe, das bandeirolas em punho, das crianças alçadas aos ombros de pais orgulhosos do american way life.

Um filme. É isso: um filme. Minha sensação de estar vivendo uma grande farsa vai, pouco a pouco, esvaecendo. Já não sei mais o que é realidade, o que é ficção. Roteiristas muito bem treinados, enredo perfeito, atores maravilhosos, fotografia, efeitos especiais, figurino e maquiagem – tudo perfeito.

Tudo perfeito... se não fosse tudo tão velho! Tão velho quanto o mundo, tão velho quanto o homem e sua barbárie em nome de deus, da família, da propriedade, da pátria e da liberdade. Dominus dominium juros além.

Saio caminhando, feito um zumbi, um extraterrestre, um Neo em sua Nabucodonozor tentando furar caminho em meio a uma gente risonha e festejante, a noticiários que me chegam de todos os cantos e que me convidam para a nova era. Entro na primeira biblioteca pública que encontro e vou direto às estantes dos livros de História. Quero um pouco de realidade, uma lufada de ar fresco. Folheio (em dúvida mesmo sobre a real validade do que leio) compêndios e mais compêndios sobre impérios que se ergueram graças à dormência dos sentidos de milhares de milhões de seres humanos. Impérios e seus governantes que atacaram outras nações, que mataram, que saquearam. E sempre com o aval de todo o restante da humanidade. Eram homens de bem – que se registre! Se atacaram, se mataram, se saquearam, foi tudo por um bem maior: a Liberdade. Mas, no meu entender deturpado pela minha condição de zumbi, não eram homens de bem. Eram loucos. O problema é que eram loucos que se tornaram representantes de Impérios. E, a partir do poder, podiam moldar a humanidade toda à sua loucura: e a isso se chamou de engenharia social.

Fecho o livro que folheio. Olho em volta. A alegria reinante parece que vai durar a noite toda. Estão todos inebriados. Saio da biblioteca. Toda cultura parece inútil agora. Preciso voltar para casa. Tomo as ruas mais uma vez tentando, com muito esforço, não esbarrar na alegria alheia. Chego em casa, fecho as janelas, cerro as cortinas, desligo a tv. Lá de fora ainda me vêm o som de alguns fogos ao longe, de algumas gargalhadas e festejos. Por que só eu não estou no clima de festa?

No escuro, tateio as paredes e vou até os meus CDs. Preciso de uma música para abafar tanta comemoração que vem lá de fora. Enquanto escolho o cd, penso que no justice has been done at all. Mas o que posso eu contra o senso comum no final das contas? Acho, finalmente, o cd que procurava...


Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã

Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos arietes

A conversão para os infiéis

....
Ah como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer Satã só com orações
....

Ê andá pa catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata

Responderei não!

1.4.11

Sobre um escroto chamado Jair Bolsonaro


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Ah, já ia me esquecendo...


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Em tempo: E vocês acham mesmo que vou dar mais espaço na mídia pra esse idiota? Tenho mais o que fazer.

Mas para quem quiser um texto bem lúcido, bacana mesmo, sensato e tals sobre esse escroto, sugiro uma postagem de uma blogueira de quem sou fã e que sigo sempre. Na minha opinião, ela já disse tudo que nós (pessoas esclarecidas) gostaríamos de dizer sobre esse fanfarrão. Confiram no Escreva Lola Escreva. Só clicar AQUI.

3.11.08

Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur...

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Terminado todo o processo eleitoral aqui no Rio, quase mergulhei em profunda depressão. Desconectei do Orkut e do MSN por um tempo e fui fazer outras coisas... Era preciso me afastar um pouco da sujeirada toda que foi essa eleição. Opções: ler um bom livro ou fazer as pazes com o dvd player e pôr em dia a paixão pelo cinema... Optei pela segunda. Lembrei-me que havia pegado emprestado com um amigo o box da 1ª temporada de Roma, excelente séria exibida pela HBO. Assisti a dois ou três episódios antes que o tédio me fustigasse. Belíssimo roteiro que mistura personagens históricos e fictícios, um tratamento magistral das questões políticas e a “cidade eterna” hollywoodianamente reconstituída como provavelmente tenha sido: caótica, imunda, perversa, colorida e atraente como uma metrópole do terceiro mundo. Os produtores da série falharam, talvez, na escolha dos atores que a protagonizam (Kevin McKidd e Ray Stevenson): ambos têm o physique de rôle mais para o “Royal Shakespeare” do que para os dois legionários romanos que encarnam. Kevin McKidd é Lucius Vorenus, o centurião (uma espécie de sargento), um cidadão-modelo da República; Ray Stevenson é o soldado Titus Pullo, fanfarrão e mulherengo, chegado a brigas e confusões. Os dois são citados en passant no livro de Júlio César sobre a guerra da Gália como pilares da disciplina romana: embora se odiando, lutavam sempre juntos. A amizade instável dos dois reflete, sem dúvida, a também dividida e conturbada política daquele período. Aliás, a meu ver, o período mais fascinante de toda a história de Roma: a República encontra-se em seus momentos finais, delineada pela apatia e corrupção dos aristocratas no Senado e a ascensão vertiginosa de César. Um César que, apesar de nobre, cresce defendendo as causas da plebe, mas prepara também o caminho para o poder absoluto que seu sobrinho-neto Octavius consolidará como o primeiro imperador. Uma República de poderio inimaginável, cuja busca a qualquer preço pela conquista de um império acabou destruindo os valores tradicionais de austeridade e sacrifício que a tornaram grande, com o aumento das desigualdades sociais e a política se tornando um jogo corrupto de compra de votos e populismo escancarado. Opa!!! Algo lhe soa familiar, caro leitor?! Não à toa, intitulei esta postagem com um dos versos mais famosos das Sátiras de Horácio: “Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur” (“Por que ris? A anedota fala de ti, só que com outro nome”). Pois é, e lá me vejo eu de volta ao tema que procurava esquecer quando decidi me dedicar ao prazer da arte cinéfila!

O resultado dessa eleição no Rio deixou claro uma coisa: nosso novo alcaide é uma bosta! Mas uma bosta que deve ter feito a lição de casa direitinho e, como filho bem nascido que foi, deve ter bebido nos manuais de História numerosos exemplos a seguir: entre eles, sem dúvida alguma, o César romano que aparece na série da HBO (não à toa, seu mentor e criador nos tempos atuais também se chama César!). E aqui uma curiosidade da campanha eleitoral do nosso próximo alcaide: além da corrupção e compra de votos, do populismo escancarado ("Upa pra lá e pra cá... Vigi, que coisa mais linda!"), soube ele tocar demagogicamente num ponto caro para o eleitorado menos informado – a educação! Prometeu mover céus e terra para que nossas crianças tivessem uma educação de qualidade... Bom, até aí nada de surpreendente! Uma das primeiras obrigações de todo governante, imediatamente depois de assegurada a segurança da sociedade (segurança entendida em todos os sentidos: profissional, econômica, social, etc.), seria ocupar-se do bem-estar da geração seguinte. E a educação é, indubitavelmente, o principal pilar desse bem-estar. Entretanto, quando se pensa em discutir o binômio “educação-instrução para a vida”, parece-me que toda preocupação acaba recaindo não raro sobre dois campos do saber: linguagem (aí compreendido, sobretudo, o aspecto formal do ensino da língua materna) e tecnologia (aí compreendidas a Ciência e a Matemática). No momento histórico que vivemos, marcado por desafios cada vez mais complexos no campo da medicina e por ameaças cada vez mais presentes por conta de conflitos e guerras, seria até perdoável essa ênfase em campos que parecem prometer um maior avanço da humanidade. O grande problema, porém, dessa maneira de se pensar a “instrução” me parece ser a subjugação da História a um segundo plano nas escolas e na sociedade em geral. A História é talvez uma das disciplinas mais controversas exatamente por causa de sua natureza mesma: difere da Matemática por estar recheada de argumentos discutíveis em vez de provas concretas; mas difere também da Ciência justamente por apresentar fatos contra os quais nenhuma quantidade de experiências pode provar qualquer coisa conclusiva. A História convida a uma releitura constante. A História é talvez, de todas as disciplinas, aquela em que o maior número de idéias opostas podem harmonizar-se e serem aceitas como legítimas. Até mesmo o estudo das religiões é um produto da maleabilidade histórica, faz parte do reino da História. E essa maleabilidade histórica se traduz de várias maneiras: ninguém pode discutir, por exemplo, que o Império Romano caiu; há dúzias de teorias sobre por que caiu, quando caiu, e como caiu, e a maioria destas teorias é legítima porque não se excluem umas às outras. Eis por que entendo que a História seja a disciplina mais importante na instrução escolar. Precisamente porque não é algo tão concreto quanto a Matemática ou a Ciência; porque não exige a memorização de equações nem tem uma desconexão com a emoção humana: é o percurso da humanidade desde lá do seu início, o relato de tudo que experimentamos desde nossos primeiros passos sobre a Terra; mostra de quão longe viemos em nossa compreensão coletiva do que é a vida e de como estabelecemos o valor das coisas. Mas, sobretudo, nos ensina onde erramos no passado e como podemos evitar tais erros no presente e no futuro. A instrução que relega a História ao segundo plano encontra-se, irremediavelmente, em total desconexão com o futuro e seus avanços; tornando a sociedade vítima de falhas econômicas e sociais... E o que é mais triste: perplexa diante de tais falhas e ignorante de suas causas!
O não conhecimento da História permite que loucos a manipulem a seu bel-prazer. As religiões todas estão, talvez, entre os maiores deturpadores da História por não tentarem compreendê-la em suas múltiplas possibilidades; mas por tentarem fazê-la caber no espectro estreito de seu sistema e de seus dogmas. Não só a religião padece desse mal que é o desprezo pela História, entretanto: a política, quando lhe convém, consegue ser igualmente perniciosa. Nunca haverá nenhum substituto para o conhecimento histórico (nem mesmo o filosófico e o literário, creio eu), e a ausência deste conhecimento significará campo fértil para a desonestidade e a corrupção; o que fará da humanidade uma sucessão de gerações de palhaços ignorantes que vêem o mundo através de suas próprias vidraças embaçadas, pensando tratar-se da realidade... Sem o conhecimento da História, estaremos fadados a viver na Matrix!

A mesma Matrix que parece ter cegado boa parte do eleitorado carioca no último pleito... Atribuir ao adversário a intenção de deitar por terra “valores cristãos e morais” já seria suficiente para deixar boquiaberta qualquer pessoa razoavelmente informada e capaz de juntar dois mais dois. Mas o mais chocante é que alguém possa ter concebido, em pleno 2008, uma campanha baseada na demonização de seu adversário: o discurso é tão vazio de racionalidade quanto a pregação do racismo, da guerra santa ou do nacionalismo do século XIX. O mesmo apelo à irracionalidade aparece no esforço para semear a rivalidade e o ódio entre regiões de uma cidade já tão dividida, como se esta eleição fosse uma disputa entre o Rio menos desenvolvido e Rio orgiástico da zona sul. O recado efetivo do próximo alcaide, ao acusar a elite zona sul de odiar os desprotegidos do subúrbio, não foi contra um grupo concreto e identificável por suas ações. Até por que ele mesmo, nascido e criado na zona sul, apelou para o populismo do César romano e se arvorou o defensor dos pobres, dos fracos e dos oprimidos: até na lama entrou em defesa de seu povo... Só faltou criar uma biografia onde aparecesse acordando cedo, pegando ônibus lotado com a marmitinha embaixo do braço. Ou seja: criou, no seio dessa elite que ele mesmo condenou, um subgrupo que poderíamos chamar de “a elite boazinha e abnegada”. Mas quem seria essa elite podre e preconceituosa? Em que ela se diferenciaria daquela que trabalha, que acorda cedo e que é boazinha, segundo a ressalva do nosso futuro alcaide? Mais uma vez a História nos mostra que os pregadores do racismo, por exemplo, nunca deixaram de reconhecer a existência de negros bonzinhos e respeitosos. Mas a mensagem eficiente deles sempre foi a do ódio racial, a do apelo à irracionalidade e aos sentimentos mais perigosos... Muito perigoso todo e qualquer discurso que prega o separatismo, ainda que se façam ressalvas canalhas!

Diante do que foi esse pleito na cidade do Rio de Janeiro, resta-nos a perplexidade diante do estado de coisas: os loucos não seríamos nós, atentos aos descalabros de toda a História, que olhamos a cena política carioca e apontamos o estado de manicômio em que ela se encontra? Alguém até poderia inquirir: “Por que se incomodar com os loucos? Deixemos os loucos com sua loucura!”. Ora, se a questão fosse assim tão simples, não haveria problema algum. O problema é que os loucos querem se tornar governantes (e aqui no Rio tornaram-se de fato); e, a partir do poder, querem moldar os homens à sua loucura: a isso chamamos de engenharia social. Às vezes dá uma vontade enorme de colocarmos entre nós e o manicômio chamado Rio uma distância segura e higiênica. Mas seria covardia abandonar o barco agora e deixá-lo nas mãos de timoneiros inescrupulosos. Resta-nos a nós continuarmos aqui denunciando periodicamente que o estado de loucura está aumentando e funcionarmos como sentinelas atentos e prontos para, a qualquer momento, medir a vazão do leito de um “rio” que corre o risco de passar por uma enchente. Pois enchente, todos sabemos, não poupa ninguém.

Nunca perdendo de vista a importância dos ensinamentos da História para o esclarecimento das gerações, cabe aqui lembrar Tomás Antônio Gonzaga e suas Cartas chilenas, que narram as desordens do governo de Fanfarrão Minésio, general do Chile, e em cuja “Dedicatória aos Grandes de Portugal” lemos:

Dois são os meios porque nos instruímos: um, quando vemos ações gloriosas, que nos despertam o desejo da imitação; outro, quando vemos ações indignas, que nos excitam o seu aborrecimento. Ambos estes meios são eficazes: esta a razão porque os teatros, instituídos para a instrução dos cidadãos, umas vezes nos representam a um herói cheio de virtudes, e outras vezes nos representam a um monstro, coberto de horrorosos vícios.

Entendo que V. Exas se desejarão instruir por um e outro modo. Para se instruírem pelo primeiro, têm V. Exas os louváveis exemplos de seus ilustres progenitores. Para se instruírem pelo segundo, era necessário que eu fosse descobrir o Fanfarrão Minésio, em um reino estranho!


E no “Prólogo” da obra, Tomás Antônio Gonzaga dá o mesmo recado:

Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.

(...)

Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo...


Sem medo algum de me acusarem de sensacionalista, ouso prever que o futuro do Rio de Janeiro será de sombras e assombros e, como tal, não deixará de haver assombrações. Além das Sátiras de Horácio lembradas no título desta postagem, cabe aqui outra citação latina: a de Cícero, em De Senectute, que diz que “pares cum paribus facillime congregantur” (“os iguais com os iguais facilmente se juntam”). Somos espectadores de uma alquimia partidária estranha de indivíduos que hoje sorriem entre si, mas que amanhã se devoram. Só a História dirá se estou certo. Essa mesma História da República do César romano. Essa mesma História tão pouco cogitada na instrução escolar. Essa mesma História que nos ensina tal como Horácio: Mutato nomine, de te fabula narratur... Ninguém estará livre de ser cobrado pela cumplicidade que advém da ignorância da História, ainda que esta cumplicidade tenha a forma de um mísero voto, um voto como aqueles que elegeram Hitler.

9.8.08

Se a preguiça é um dos 7 pecados, eu quero mais é queimar no inferno... Ave, Macunaíma!




Essa coisa do mundo lá fora anda me dando uma preguiça danada... Ou talvez seja eu que, no fundo, nunca tive muito talento para as coisas do mundo lá fora. Ou, decididamente, i’m not the man i used to be...

Até mesmo escrever aqui neste blog é algo para o qual tenho tido cada vez menos saco... As postagens têm se tornado cada vez mais raras, como raros têm se tornado meus cabelos, minhas ereções e minhas idas a um puteiro... Muito chato esse negócio de escrever bonitinho, avisar aos amigos (“Postei lá, você viu?”), aguardar um ou outro comentário inteligente ou delicado e gentil por pura educação... Enquanto isso, tem uma galera por aí fazendo dinheiro a rodo (Bruninha Surfistinha, cadê você, minha linda?) e eu aqui querendo salvar a humanidade com belas palavras que toquem ao coração e à alma dos ímpios. O Marco Aurélio Góis dos Santos, em seu Jesus, me chicoteia!, é que parece ter razão. Segundo ele, uma das várias divisões possíveis da população mundial seria a que se observa entre os que têm dinheiro e os que sabem escrever. “São dois grupos bem distintos, e desconheço qualquer intersecção entre eles (“E o Paulo Coelho?”, alguém dirá, o que só serve para reforçar minha tese). Vez por outra o primeiro grupo precisa dos serviços do segundo. Para isso, mostram-se dispostos a abrir mão de uma ínfima parcela de seu rico dinheirinho em troca de meia dúzia de frases mais ou menos bem alinhadas.”

Tá... Mas vamos parar de blá-blá-blá e vamos ao que interessa (se é que algo ainda interessa nessa merda toda aqui). Até porque já estou com a bunda achatada de ficar tanto tempo aqui nesta cadeira e, para um fumante-velho-sedentário-moleirão como eu, muito tempo sentado é risco de hemorróidas na certa (e até o fim da vida, não quero mais ter que encarar o dedo médio, que de médio não tem nada, daquele meu proctologista safado, tarado, de riso sádico). Como não tenho nada mais picante ou contundente sobre que falar, falarei da minha semana, essa aí que acabou. Semaninha boa de retorno às aulas, os anjinhos voltam todos de baterias recarregadas. Aposto como dedicaram boa parte desse recesso escolar imaginando maneiras novas de infernizar a vida dos babacas dos professores e funcionários do colégio... E eles se esmeram cada vez mais; é impressionante a criatividade que esses “mulekes” têm: Bin Laden e os integrantes das FARCs ficariam de queixo caído... Mas eles são uns amores. Eu os adoro. Como, entretanto, nenhuma bomba foi deflagrada na unidade escolar, nenhuma cadeira ou carteira voou em sala de aula, nenhum “peido alemão” foi jogado sorrateiramente no pátio durante o recreio, nenhuma mãe de aluno enfurecida veio arrumar barraco na Secretaria; então não tenho muita coisa a falar aqui sobre esta minha semaninha no colégio... Ah sim, a não ser que alguns de nós, professores e funcionários, passamos uma semana mais felizes que pinto no lixo, por conta de uma grana extra que o pilantra do César Maia resolveu finalmente nos pagar após quase um ano de promessas... Sabem como é, né? Proximidade das eleições, o caras também se esmeram... Mas os alunos continuam sendo mais adoráveis...

E, por falar em eleições, meu grande amigo Altair ficou puto dentro das calças essa semana porque o Supremo decidiu que o candidato processado por suspeita de irregularidade, mesmo ainda sem culpa provada, não ficará impedido de concorrer no certame eleitoral. Mas o cidadão comum não pode fazer concurso quando tem processo na justiça, mesmo que a sentença não tenha sido ainda transitada em julgado. Realaxa, Alta, isso são coisas do nosso impávido colosso deitado em berço esplêndido!

Teve também a abertura dos jogos olímpicos lá na China, né? Porra! Aqueles amarelos comedores de broto de bambu deram show! Chorei baldes com o espetáculo. Comenta-se por aí que tenha sido talvez a melhor abertura de olimpíadas de todos os tempos. Também pudera, né? Se os carinhas lá errassem um milímetro que fosse na coreografia ensaiada, seria porrada na certa. Povo incentivado é outro papo... Aliás, muito estranho o povo chinês... Não sei por que, mas não me convence muito aquele risinho feliz e cordial deles...

Essa semana também, em uma conversa com meu grande amigo Wendell pelo MSN, ele me fez uma pergunta altamente desconcertante: queria saber se eu acreditava em paixão. Não a paixão por um time, por uma causa ou por uma atividade; mas aquela paixão das novelas e filmes açucarados que dizem existir entre homem e mulher. E aqui devo explicar por que a pergunta me foi desconcertante (e olha que ele me fez uma outra pergunta, que não revelarei aqui, que para a maioria das pessoas poderia ser considerada bem mais desconcertante). Desconcertou-me a pergunta nem tanto pela pergunta em si, mas mais pelo momento que estou vivendo. A questão é que cheguei aos 41 faz pouco mais de 2 semanas... Ok, ok.. 4.1 turbinado e total-flex, mas ainda assim 4.1... E isso assusta. A vidinha da gente parece incansável e maravilhosa aos 20 ou 30 anos. Ok, admito: até é mesmo. O foda é que 10 ou 20 anos depois já não parece tão maravilhosa assim, muito menos incansável. Há uns 10 ou 20 anos antes, eu juro que achava que estava na melhor fase da minha vida. Podia saltar montes, virar cambalhota, plantar bananeira, chupar meu próprio pau, dizer “foda-se” para tudo e para todos, notar coisas diferentes em mim, em minha aparência e em meu pensamento. Aos quarenta, todo homem se defronta com a fatalidade da sua decadência. Ele sabe o que ele vê: estou velho! E veja que não estou falando: "estou ficando velho", mas "estou velho". E isso é um fato e pronto. A patuléia do senso comum insiste em dizer que com a "maturação" (para mim, “decadência”) o homem se torna mais sedutor e mais exigente. Ah, vai cagar no mato! Sedutor como? Se os cabelos rarefazem ou embranquecem, se os dentes amarelam, se a barriga cresce, se a pele enruga nos cantos, se o pinto começa a ter crises existenciais, se a simples menção de se pintar ou fazer um aplique nas madeixas começa a parecer algo tão risível. Sedutor é o caralho! Decididamente, isso é uma concepção Global de homem-adulto. O homem, a partir dos 40, é um espectador mal disfarçado da vida. Está treinando para seu papel futuro: segurar as bolsas das moças, olhar as meninas pulando, olhar casais trepando no apê em frente pela desconfortável fresta estreita do basculante, se amontoar na “night” junto com os outros bêbados adultos e sentir-se um vira-lata diante do frango de padaria (gosto muito dessa comparação... foda-se se não é inédita pra você)... enfim, fazer tudo o que já fazia quando moço mas que podia dechavar comendo uma ou outra namoradinha esporádica num puta semi-árido de punheta e suplício sexual. Mas tudo bem: como já deixei claro numa postagem anterior aqui mesmo neste blog, a velhice tem lá seus encantos.

O que acontece, entretanto, para nós homens, é que a natureza dá ao macho a falsa ilusão de ter aproveitado sexualmente bem sua juventude para, logo depois, ter o prazer de puxar-lhe o tapete e revelar o inverso para seu pobre brio alquebrado: eis o crepúsculo do macho (diferente daquele de que fala o Gabeira). Já as mulheres são outro papo: elas sempre aproveitaram mais! Mesmo as feias e barangas tiveram uma vida sexual mais honrada (“honrada” no sentido de proveitosa) e o pobre macho seguiu esses anos todos se achando o rei da cocada preta. Elas já chuparam, deram o cu, gozaram algumas vezes e outras não (claro!), transaram na água, na praia, no elevador, no chão do escritório, em sanitário público, com outras mulheres, com borboletas vibratórias, com vibradores, com pillots, bonecas, com uma ou mais amigas, com dois ou mais homens, com equipamentos variados, sozinhas (já falei isso), na igreja, na danceteria animada, na zona, enfim em qualquer cafofo digno ou indigno do planeta. E depois ainda se fala em inveja do pênis!!!! A inveja do pênis é uma falácia de psicanalistas homens... O que existe, no duro (sem trocadilhos), é a inveja da buceta. Mas esse sentimento homem nenhum confessa. E o homem que ler isso aqui vai se emputecer comigo (aposto meu fiofó), mas se tiver coragem vai ver que é a mais pura verdade... Elas vivem suas vidas. Aparentemente desvinculadas do sexo. Aparentemente!! E transam o quanto podem na hora que bem quiserem. E nós, pobres machos, somos só afortunados se estamos na hora certa, no lugar certo e com a disposição necessária pra meter na gorduchinha (ou na magricela, se for o caso).

Bem, muita gente mais letrada que eu (e pseudo-letrada também), gente de discurso psicanalítico, gente analisada, de papo-cabeça, diz tudo isso aí que eu disse; mas não do modo como eu disse... É que sou meio “gauche” mesmo, entende?...

É por isso, Wendell, que sua pergunta me foi desconcertante. É como eu disse lá em cima: essa coisa do mundo lá fora anda me dando uma preguiça danada... E aos 4.1, ando realmente meio sem saco para pensar nessas coisas...

Bom, mas, depois de amanhã, começa uma nova semana... Quem sabe, meu amigo, quem sabe?


Ok. Postagem feita, blog atualizado, posso voltar a navegar pelos sites de putaria.
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