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27.11.06

"Avec le coeur battant jusqu'à la dernière battue"


Nascido em 1916, Léo Ferré foi um dos cultores mais singulares e controversos da grande “chanson” francesa. Viveu uma vida intensa de êxitos artísticos e de recusa do conformismo e das idéias prontas. Anarquista e milionário, solitário e solidário, iconoclasta e violentamente terno, Léo morreria em 1993, aos 77 anos.
Filho de Joseph e de Charlotte, respectivamente o chefe de pessoal do Cassino de Monte Carlo e uma costureira. Desde os quatro anos de idade, que inventava músicas e dirigia orquestras imaginárias. Após ter concluído o Liceu, na Itália, foi para Paris estudar Direito e cursar Ciências Políticas.
Durante a Segunda Guerra (1939-45), trabalhou na Rádio Monte Carlo, como locutor, técnico de som e pianista, deixando para trás a sua formação acadêmica, tão incompatível com uma vida tão à margem de todas as regras.
Em 1946, regressou a Paris, onde começou a atuar em bares e cabarés e onde conheceu Edith Piaf, que interpretaria algumas das suas produções e incitaria Ferré a fazer carreira na Cidade-Luz, uma longa e gloriosa carreira que se inicia no cabaré Le Boeuf sur le toît e se estende por toda parte, onde se podia ouvir a boa música e poesia francesas. Ao mesmo tempo, dá concertos na Federação Anarquista e começa a fazer furor nos caveaux de Saint-Germain-des-Prés, onde pontificam os cantores existencialistas Juliette Greco, George Brassens, Mouloudji, etc.
Em 1954, Léo Ferré é contratado para fazer a primeira parte de um espetáculo de Josephine Baker, no Olympia de Paris, onde a sua canção “Paris Canaille” o torna definitivamente célebre. No mesmo ano, dirige a sua “Symphonie Interrompue”, na Ópera de Mote Carlo, escreve Poète, vos papiers e produz o álbum “Les Fleurs du Mal”, onde põe música na poesia de Baudelaire. Seria o princípio de uma obra musical ao serviço da poesia francesa: Apollinaire, Verlaine, Rimbaud, Aragon e ele próprio, Ferré, também um grande poeta da língua francesa. A fabulosa carreira de Léo Ferre deveu-se, em parte, à influência da grande cantora Cathérine Sauvage, que apostou na alta qualidade do cantor, poeta, músico e maestro monegasco.
Em 1962, Ferré veria censurada a sua canção “Mon Général”, obviamente dedicada a De Gaulle e à sua autoritária V República.
Nos episódios do Maio de 68, atua na “Mutualité” para os estudantes que o aclamam euforicamente, agitando as bandeiras negras e vermelhas da Revolução. “Foi em Maio de 68 que realmente eu tive 20”, disse o poeta-cantor do amor e da anarquia, o autor de “Ni Dieu, ni Maître” e de “Thank you, Satan”. Léo Ferré atua na Federação Anarquista e as suas canções “Amour Anarchie” e “L’Été 68” tornam-se hinos da revolta estudantil. Os mesmos estudantes que o glorificam são também os mesmos que o criticam e atacam, devido à sua imensa fortuna, recebendo o epíteto de “Anarquista de Rolls-Royce” (ele que preferia o Mercedes…) e de “fascista vermelho”, conforme o insulto telefônico do cantor Yves Montand, um recém-dissidente do Partido Comunista Francês.
Mas Ferré estava acima desses e de outros maniqueísmos. Segundo Pierre Bénichou, do Nouvel Observateur, era antipático, anarco-mediático, mal-humorado, apaixonado pelas feias, revoltado-oportunista, milionário, falso humanista, kitsch, em suma, um Poeta. Um poeta que afirmava “não sou violento na vida, sou violento nas palavras”. Para ele, o êxito tinha de ser conquistado ao inimigo, a consagração tinha de ser imposta aos sacanas, a oração era sempre acompanhada de uma ameaça. O “anarcriador”, como lhe chamou José Jorge Letria, era um ser polêmico, incatalogável e indomável, que exigia um preço baixo para os ingressos dos seus concertos e que declarava, provocatório: “Tenho dinheiro, é verdade. E então? Vou ter de descer à rua, para distribui-lo? Porque sou Anarquista?”. É também provocatoriamente que intitula uma sua canção “O Anarquista de Luxo”.
Nos anos 80, desaparece dos olhares públicos, auto-exila-se na Toscana (Itália), com a mulher e os filhos, na sua luxuosa propriedade de Castellina, na companhia de um piano e de um sintetizador. Daí em diante, todas as suas canções são mensagens de desespero, e escreve, naquele isolamento, belos e pungentes poemas. Aos 60 anos, Ferré é um homem doente e inconsolável, de luto por si próprio, pela sua violência, pela sua grande Revolução que nunca acontecerá. Os seus últimos álbuns são publicados entre 1985 e 1990.
Em 14 de Julho de 1993, morria, vitimado por um cancro nos intestinos, o homem que cantava “A mon enterrement”, onde dizia que no seu enterro “não queria ver mais ninguém senão mortos”. Uma vez, no palco, contou que havia recebido um telefonema, em que uma voz lhe disse: “Alô, sou a Morte, gosto bastante do que você faz”, ao que o cantor respondeu: “Eu também…”.
O poeta não tinha medo da morte, antes se sentia fascinado por ela: “Deve ser uma mulher extraordinária, a Morte. Pega-nos na não e seguimos com ela para qualquer lugar. Somos obrigados. E é precisamente esse ‘qualquer lugar’que me fascina e me faz com que não tenha medo da morte (…) Quero assistir à minha morte, o centésimo de segundo em que tudo oscila. Mas, de qualquer maneira, não compro ingresso”.


Hehehehe... Não sei por que, mas (me perdoem a falta de modéstia) me identifico demais com esse cara!!!! “Avec le coeur battant jusqu’à dernière battue”... Com o coração batendo até a última batida... Imagino Léo Ferré, como eu, gritando a plenos pulmões: “Gauches são vocês, meus caros!”... Hahahahaha
Aliás, tem uma música dele de que gosto muito, mas muito mesmo, chamada “Avec le temps”, onde ele fala das coisas e das pessoas que a gente um dia acreditou serem tão importantes em nossa vida mas que, parando para refletir um pouco, a gente vê que não passaram de meras ilusões... E das ilusões eu quero é distância agora...


Avec le temps
(Léo Ferré)

Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues
alors vraiment
avec le temps on n'aime plus

3 comentários:

patrick_d disse...

Je vous signale le nouveau coffret de Léo Ferré réunissant 3 concerts au Théâtre libertaire de Paris en 1986, 1988 et 1990 (6 CD et 1 DVD). Uniquement en vente sur http://www.leo-ferre.com

... O Andarilho disse...

E você ainda se pergunta o porquê dessa identificação? É sóler este seu blog do início ao fim! Você é o nosso próprio Léo Ferré: a violência das suas palavras contraposta à beleza de sua alma é que confere a você essa dimensão ferreana, meu caro. Sorte têm os que podem lê-lo, como eu posso.
Beijos e abraços emocionados!

Celeste disse...

Ah, Ed...Queria eu poder escrever a tua definiçao. Talvez vc nao exista, e por isso é tao especial.De onde vem esse dom, que nos transporta,para um mundo so de emoçao, que vc tem.
Amo Léo Ferré, assim como tambem te amo , meu amigo

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