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3.5.07

A hora do sim é um descuido do não...

A francesada tem um verbinho apropriado para definir essa sensação que venho tendo há alguns dias: hanter [obcecar, perseguir]... Bem, eu poderia usar um verbo em português, mas acho que o verbinho francês tem a força expressiva necessária para essa minha sensação (e também porque eu sou fresco mesmo e em francês fica mais chique, oras!). O fato é que a frase que encabeça essa postagem “me hante” nesses dias.

Antes, é preciso que eu diga que tive que me afastar por um tempo do mundinho virtual: problemas de conexão. E também por conta da minha última postagem, que foi meio que uma sessão de análise daquelas que deixam a gente fora de combate por algum tempo. Por mais que eu não tenha medo de me expor aqui, mas acho que ali eu meio que passei um pouco do ponto. Andaram até mesmo dizendo que eu havia pirado o cabeção na Nouvelle Vague e nos filmes de Godard. De qualquer maneira, faço aqui meu mea culpa: chamar a felicidade daqueles nomes feios todos!!! Nada a ver, tadinha... Dona Felicidade já é uma senhora e, ainda que puta – cá pra nós – merece nosso respeito. Não se escarnece assim impunemente alguém tão importante. E, além do mais, meu frágil desdém só fez foi ressaltar meu primarismo e inabilidade para lidar com minhas limitações. Essa é que é a verdade, por mais que me custe admitir isso. Discernimento nunca foi uma qualidade da qual eu pudesse me vangloriar mesmo...

E aí veio essa música do Vinícius & Toquinho, sobretudo o verso acima citado, a ricochetear na minha cabeça nesses últimos dias... e tanta coisa aconteceu nesse tempo!!! E essa tanta coisa me levou a lançar alguns “sim” quando na verdade o “não” seria o correto. Obviamente que alguns desses “sim” são revogáveis e reversíveis. Mas também é fato que mesmo um “sim” revogado, ainda que usurpador de um “não”, deixa sempre sua marca indelével por anda passa... E isso é que é foda, meus amigos!

No fundo, a vida tem o dom de me surpreender quase sempre. Não tenho muito do que me queixar, sinceramente. Coisas boas sempre aconteceram para mim com certa freqüência... e as ruins - inevitáveis que são – se eu parar pra pensar, têm grande participação minha. Tenho muita sorte com as pessoas, isso é fato. Quem sabe por ser um tanto quanto seletivo (ou por pura sorte mesmo), sempre cruzo com pessoas fantásticas. E mesmo as ruins – não menos inevitáveis – servem, de certa forma, para me fazer lembrar das boas, me mostrar o rumo do bem. E, por isso, sou grato a elas também.

É bem provável que alguns amigos estejam certos: eu não sou tão idiota quanto penso. Talvez o que acontece é que eu seja bonzinho demais. E algumas pessoas não querem isso. Tem gente que gosta mesmo é de ser maltratado (não é o meu caso). O fato é que isso sempre atraiu coisas boas pra mim, ainda bem! Não faço questão sempre da verdade, da fidelidade... mas da lealdade e da ética eu não abro mão. Sou pelo jogo limpo. Sempre. Não importa em qual tipo de relação. Não que eu faça questão de gente boazinha o tempo todo. Uma certa malícia é até mesmo necessária, mas a leviandade não. Não quero nem vou fazer parte de nada onde as regras não estejam muito claras para mim e para o outro. Cartas na mesa. SEMPRE. Até mesmo os erros devem ser cometidos conscientemente: isso é o que eu chamo de liberdade. A vida já é bastante complicada, tudo bem... mas até mesmo para a diversão é preciso confiança. Senão não rola... na boa. Vira livre arbítrio desperdiçado. Sendo assim, não vou mais desperdiçar nem um “sim”, tampouco nenhum “não”.

Talvez por isso eu tenha tão levianamente escrachado a felicidade na postagem anterior. Por não ter percebido quanto de “sim” andei distribuindo por faltar coragem para o “não” ("Par délicatesse j'ai perdu ma vie", disse Rimbaud). Aí realmente ela, a felicidade, desconfia de mim e pica a mula. Confiança, lembra? Aí só cabe então se questionar como o Maiakóvsky, quando ele brada poeticamente: “E então, que quereis?...” E ele mesmo responde: “Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?” Tentarei prestar mais atenção aos meus “sim” e aos meus “não” de agora em diante. Já é hora de eu tentar crescer um pouco, não acham? Parar um pouco de culpabilizar a vida como algo exterior a mim e me tocar que a parte que me cabe por meus atos me será cobrada na apresentação da conta... e aí, meus caros, pode-se até questionar a cobrança dos 10% e do couvert artístico que nem aconteceu - mas daí a querer dar calote... nem pensar. É como disse o poetinha: se a vida é uma grande ilusão, não sei... só sei que ela está com a razão.

Sei Lá... A Vida Tem Sempre Razão
(Vinícius & Toquinho)

Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é, por exemplo
Que dá pra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida
Porque não há nada
Sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

Ninguém nunca sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce
Antes que se acabe
E o sol que desponta
Tem que anoitecer
De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão

Sei lá
Sei não

Um comentário:

Filomena disse...

Estou muito feliz por você amigo,venho sentindo seu bem estar mesmo distante.Toda essa criatividade,essas mudanças internas e externas(falo da decoração aqui).Você está certo em empersegui-la,Dona felicidade mesmo muito ocupada,sempre aparece.
continuemos "L'hantise"

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