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22.3.08

Razão e sensibilidade

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A religião de uma era é o entretenimento literário da seguinte.
Ralph Waldo Emerson



Pois é. Parecia que eu iria falar do belíssimo filme dirigido por Ang Lee com a Emma Thompson, a Kate Winslet e o Hugh Grant no elenco, né? Mas não. Esta é uma postagem que se faz necessária em feriados "santos" como este. Estou de saquinho cheio, quase arrebentando, com os efusivos votos de feliz páscoa, os coelhinhos, as mensagens religiosas e todas as outras babaquices que lotam minha caixa de e-mail e minha página de recados no Orkut. E como se não bastassem toda essa dedicação e essa "lembrança comovente" por parte dos amigos, ainda tenho que aturar a programação de quase todas as emissoras de tv que parecem só mostrar a triste e pungente história do tal judeuzinho de cabelos compridos e sedosos, barba milimetricamente bem aparada e olhos azuis... Películas antigas e gastas (ou remakes destas) que a cada semana santa voltam a encher as telinhas mundo afora... Porra! Quem me conhece sabe que sou ateu. E que não acredito nessa baboseira toda de semana santa, paixão de Cristo, Páscoa e o escambal. Quem, no Orkut, já recebeu scrap meu desejando feliz Natal? O máximo que envio, e quando envio, são votos de boas festas... Caramba! Dêem-se, ao menos, ao trabalho de ir ver no meu perfil do Orkut o que está lá no espaço destinado a religião: "ATEU"!!!!!!!!
E me revolta mais ainda quando o sujeito no dia de hoje vem à minha casa, na sacrossantidade do meu lar (pois é, o reduto de um ateu também é sacrossanto, ok?), e me diz que eu tenho que aceitar a verdade e abrir meu coração para o salvador... Ah, vai pra porra! Salvador pras nêgas dele! Se as minhas irmãs, que são as pessoas que mais adoro nesse mundo (uma é católica fervorosa; outra, evangélica sem lá muita convicção), sabendo da minha não-crença no deus dela, me respeitam e não me enchem o saco; por que razão haveria eu de ser indulgente com alguém que me conhece há tão pouco tempo e com o qual não tenho lá a obrigação de sê-lo? Quer saber? Pensando bem, eu até que fui bem bonzinho e não enfiei o dedo na ferida do sujeito (aquela ferida que ele inconscientemente parece querer curar na busca religiosa) e não rodei até sangrar... Mas deixa pra lá, que eu também não estou aqui para querer ser a palmatória de ninguém. Cada um que se descubra sozinho e por sua própria conta...
Mas que eu passei o restante do dia irritado por conta desse episódio, ah passei... Da próxima vez, enfio e rodo!

E então, caros leitores deste blog revoltadinho, hoje resolvi fazer aqui meu manifesto ateu. Àqueles que não quiserem perder meia hora de seu precioso tempo, aconselho abandonar a leitura aqui e ir navegar por páginas mais leves e menos contundentes. Até porque a leitura será longa. Resolvi, descaradamente, reproduzir na íntegra o prefácio à edição de bolso do livro Deus: um delírio, de Richard Dawkins. Esse prefácio diz tudo o que eu gostaria de dizer no meu manifesto ateu.


Prefácio à edição de bolso

Deus, um delírio
, na edição em capa dura, foi amplamente considerado o best-seller-surpresa de 2006. Foi muito bem recebido pela grande maioria dos leitores que enviaram suas avaliações pessoais para a Amazon (cerca de mil no momento em que escrevo). A aprovação foi menos impressionante nas resenhas publicadas pela imprensa. Um cínico poderia atribuir esse fato ao reflexo pouco criativo dos editores das resenhas: se o livro tem "Deus" no título, mande para um devoto convicto. Seria, porém, cinismo demais. Várias resenhas desfavoráveis começavam com a frase que, há muito tempo, aprendi ser um péssimo sinal: "Sou ateu, MAS...". Como Dan Dennett ressaltou em Quebrando o encanto, um número desconcertantemente grande de intelectuais "acredita na crença", embora não tenham eles mesmos a crença religiosa. Esses fiéis de segunda mão são freqüentemente mais zelosos que os originais, o zelo inflado pela tolerância simpática: "Ora, não tenho a mesma fé que você, mas respeito-a e me solidarizo com ela".
"Sou ateu, MAS..." A continuação é quase sempre inútil, niilista ou - pior - coberta por uma negatividade exultante. Note, aliás, a diferença em relação a outro gênero favorito: "Eu era ateu, mas...". Esse é um dos truques mais velhos no livro, adotado por apologistas da religião desde C. S. Lewis até hoje. Serve para dar logo de cara uma sensação de credibilidade, e é incrível como funciona tantas vezes. Fique de olho.
Escrevi um artigo para o site RichardDawkins.net chamado "Sou ateu, MAS...", e tirei dele a lista a seguir de pontos críticos ou negativos das resenhas da edição em capa dura. O mesmo site, dirigido pelo inspirado Josh Timonen, atraiu um número enorme de colaboradores que desentrenharam todas essas críticas, mas em tons menos comedidos e mais diretos que o meu, ou que o dos meus colegas filósofos A. C. Grayling, Daniel Dennett, Paul Kurtz e outros que o fizeram através da mídia impressa.

1) NÃO SE PODE CRITICAR A RELIGIÃO SEM UMA ANÁLISE DETALHADA DE LIVROS ERUDITOS DE TEOLOGIA.

Best-seller-surpresa? Se eu tivesse me embrenhado, como um crítico intelectual gostaria, nas diferenças epistemológicas entre Aquino e Duns Scotus; se tivesse feito jus a Erígina na questão da subjetividade, a Rahner na da graça ou a Moltmann na da esperança (como ele esperou em vão que eu fizesse), meu livro teria sido mais que um best-seller-surpresa: teria sido um best-seller milagroso. Mas a questão não é essa. Diferentemente de Stephen Hawking (que seguiu o conselho de que cada fórmula que ele publicase reduziria as vendas pela metade), eu de bom grado abriria mão do status de best-seller caso houvesse a mais remota esperança de que Duns Scotus fosse iluminar minha questão central, se Deus existe ou não. A enorme maioria dos textos teológicos simplesmente assume que ele existe, e parte daí. Para os meus propósitos, preciso levar em conta apenas os teólogos que considerem a sério a possibilidade de que Deus não existe e argumentem por sua existência. Acho que isso o capítulo 3 faz, com - espero - bom humor e abrangência suficientes.
Em termos de bom humor, não tenho como superar a esplêndida "Resposta do cortesão", publicada por P. Z. Myers em seu blog Pharyngula.

Analisei as insolentes acusações do sr. Dawkins, exasperado com sua falta de seriedade acadêmica. Aparentemente, ele não leu os discursos detalhados do conde Roderigo de Sevilha sobre o couro singular e exótico das botas do imperador, nem dedica um segundo sequer à obra-prima de Bellini, Sobre a luminescência do chapéu de plumas do imperador. Temos escolas inteiras dedicadas a escrever tratados eruditos sobre a beleza dos trajes do imperador, e todos os grandes jornais têm uma seção dedicada à moda imperial; [...] Dawkins ignora com arrgância todas essas ponderações filosóficas profundas e acusa cruelmente o imperador de nudez. [...] Enquanto Dawkins não for treinado nas lojas de Paris e Milão, enquanto não aprender a disntinguir um babado de uma pantalona, devemos todos fingir que ele não se manifestou contra o gosto do imperador. Sua educação em biologia pode lhe dar a capacidade de reconhecer genitálias balançantes quando vir uma, mas não o ensinou a apreciar adequadamente os Tecidos Imaginários.

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador¹, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante.

A próxima crítica é parente desta: a grande crítica do "testa-de-ferro".

2) VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE MELHOR.

"Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em qu acredito."
Se o predomínio fosse dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiés no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

3) SOU ATEU, MAS QUERO ME DISSOCIAR DE SUA LINGUAGEM ESTRIDENTE, DESTEMPERADA E INTOLERANTE.

Na verdade, quando se analisa a linguagem de Deus, um delírio, ela é menos destemperada ou estridente do que a que achamos muito normal - quando ouvimos analistas políticos, por exemplo, ou críticos de teatro, arte ou literatura. Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita (veja a citação de Douglas Adams nas páginas 45 e 46), de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica.
Em 1915, o parlamentar britãnico Horatio Bottomley recomendou que, depois da guerra, "se por acaso num restaurante você descobrir que está sendo servido por um garçom alemão, jogue a sopa na cara suja dele; se você se vir sentado ao lado de um secretário alemão, vire o tinteiro na cabeça suja dele". Isso, sim, é estridente e intolerante (e, eu teria pensado, ridículo e ineficaz como retórica mesmo naquela época). Compare a frase com a que abre o capítulo 2, que é o trecho citado com mais freqüência como "estridente". Não cabe a mim dizer se fui bem-sucedido, mas minha intenção estava mais próxima da de um golpe duro, mas bem-humorado, do que da polêmica histérica. Nas leituras em público de Deus, um delírio, esse é exatamente o trecho que garantidamente produz uma boa risada², e é por isso que minha mulher e eu sempre o usamos como abertura para quebrar o gelo com uma nova platéia. Se eu pudesse me aventurar a sugerir por que o humor funciona, acho que diria que é o desencontro incongruente entre um assunto que poderia ter sido expresso de forma estridente ou vulgar e a expressão real, numa lista compridíssima de latinismos ou pseudo-academicismos, ("filicida", "megalomaníaco", "pestilento"). Meu modelo aqui foi um dos escritores mais engraçados do século XX, e ninguém chamaria Evelyn Waugh de histérico ou estridente (até entreguei o jogo ao mencionar seu nome na anedota que vem logo depois, na página 55).
Críticos de literatura ou de teatro podem ser zombeteiramente negativos e ganhar elogios pela contundência sagaz da resenha. Mas nas críticas à religião até a clareza deixa de ser virtude para sor como hostilidade. Um político pode atacar sem dó um adversário no plenário do Parlamento e receber apalusos por sua combatividade. Mas basta um crítico sóbrio e justificado da religião usar o que em outros contextos seria apenas um tom direto para a sociedade polida balançar a cabeça em desaprovação; até a sociedade polida laica, e especialmente aquela parte da sociedade laica que adora anunciar: "Sou ateu, MAS...".

4) VOCÊ SÓ ESTÁ PREGANDO PARA OS JÁ CONVERTIDOS. DE QUE ADIANTA?

O "Cantinho dos Convertidos" no RichardDawkins.net já invalida a mentira, mas mesmo que a levássemos a sério há boas respostas. Uma é que o coro dos descrentes é bem maior do que muita gente imagina, sobretudo nos Estados Unidos. Mas, de novo sobretudo nos Estados Unidos, é em grande parte um coro "no armário", e precisa desesperadamete de incentivo para sair dele. A julgar pelos agradecimentos que recebi em toda turnê americana do lançamento do livro, o incentivo dado por pessoas como Sam Harris, Dan Dennett, Christopher Hitchens e por mim é bastante apreciado.
Uma razão mais sutil para pregar aos já convertidos é a necessidade de conscientização. Quando as feministas nos conscientizaram sobre os pronomes sexistas, elas estariam pregando só aos já convertidos no que se referia a questões mais significativas dos direitos das mulheres e dos males da discriminação. Mas aquele coro decente e liberal ainda precisava ser conscientizado sobre a linguagem do dia-a-dia. Por mais atualizados que estivéssemos nas questões políticas relativas aos direitos e à discriminação, ainda assim adotávamos inconscientemente convenções que faziam metade da raça humana sentir-se excluída.
Há outras convenções lingüísticas que precisam seguir o mesmo caminho dos pronomes sexistas, e o coro ateísta não é exceção. Todos nós precisamos ser conscientizados. Tanto ateus como teístas observam inconscientemente a convenção da sociedade de que devemos ser especialmente polidos e respeitadores em relação à fé. E nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita, por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões de seus pais³. Os ateus precisam se conscientizar da anomalia: a opinião religiosa é o tipo de opinião dos pais que - por consenso quase universal - pode ser colada em crianças que, na verdade, são pequenas demais para saber qual é a sua opinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos. Use todas as oportunidades para marcar essa posição.

5) VOCÊ É TÃO FUNDAMENTALISTA QUANTO AQUELES QUE CRITICA.

Não é, por favor, fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado.
Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso. A citação de Kurt Wise na página 366 diz tudo: "[...] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a palavra de Deus parece indicar. Essa é minha posição". A diferença entre esse tipo de compromisso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que "acredite" na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências. Como disse J. B. S. Haldane, quando questionado sobre que tipo de evidências poderia contradizer a evlução: "Fósseis de coelho no Pré-cambriano". Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: "Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente. Na atual situação, porém, todas as evidências disponíveis (e há uma quantidade enorme delas) sustentam a evolução. É por esse motivo, e apenas por esse motivo, que defendo a evolução com uma paixão comparável à paixão daqueles que a atacam. Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista".

6) SOU ATEU, MAS A RELIGIÃO VAI PERSISTIR. CONFORME-SE.

"Você quer se livrar da religião? Boa sorte! Você acha que vai conseguir se ver livre da religião? Em que planeta você vive? A religião faz parte dele. Esqueça isso!"
Eu agüentaria qualquer um deses argumentos, se eles fossem ditos num tom que chegasse pelo menos perto do da pena ou da preocupação. Pelo contrário. O tom de voz é às vezes até alegrinho. Não acho que se trate de masoquismo. O mais provável é que possamos de novo classificar o fenômeno como a "crença na crença". Essa gente pode não ser religiosa, mas adora a idéia de que os outros sejam. O que me leva à categoria final das minhas réplicas.

7) SOU ATEU, MAS AS PESSOAS PRECISAM DA RELIGIÃO.

"O que você vai colocar no lugar dela? Como vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?"
Quanta condescendência! "Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião". Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra "baixar o nível". Na sessão de perguntas e respostas no final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que "baixar o nível" poderia ser necessário para "trazer as minorias e as mulheres para a ciência". Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as "minorias" da platéia acharam.
Voltando à necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? A afirmação de Isaac Asimov sobre a infantilidade da pseudociência é igualmente aplicável à religião: "Vasculhe cada exemplar da pseudociência e você encontrará um cobertorzinho de estimação, um dedo para chupar, uma saia para segurar". É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que "X é um consolo" não significa que "X é uma verdade".
Uma crítica análoga a essa trata da necessidade de um "propósito" na vida. Citando um crítico canadense:

Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável da natureza humana [...] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um delírio e não na Bíblia?

Na verdade sim, já que você mencionou "humano", sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade. É claro que não posso negar a necessidade de consolo emocional, e não tenho como defender que a visão de mundo adotada neste livro ofereça um consolo mais que apenas moderado para, por exemplo, quem perdeu um ente querido. Mas, se o consolo que a religião parece oferecer se fundamenta na premissa neurologicamente implausibilíssima de que sobrevivemos à morte de nosso cérebro, você está mesmo disposto a defendê-lo? De qualquer maneira, acho que nunca encontrei ninguém que não concorde que, nas cerimônias fúnebres, as partes não religiosas (homenagens, poemas ou músicas favoritas do falecido) são mais tocantes que as orações.
Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, de seu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de cntribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num pub local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimônia fúnebre,chorei literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local "Ellen Vallin". Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema "Fern Hill" ["Monte das samabaias"] ("Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras" - que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que estamos aqui...

Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais saiu?
É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato de ela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin. É provável que o mesmo aconteça com o mito depreciativo de que as pessoas "precisam" da religião. Numa conferência recente, em 2006, um antropólogo (e exemplar perfeito do tipo eu-sou-ateu-mas) citou a resposta de Golda Meir quando questionada se acreditava em Deus: "Acredito no povo judaico, e o povo judaico acredita em Deus". Nosso antropólogo usou sua própria versão: "Acredito nas pessoas, e as pessoas acreditam em Deus". Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada - uma vida livre de verdade.

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1 - Flying Spaghetti Monster: deus de uma religião fictícia criada em 2005 nos Estados Unidos, para satirizar a proposta de inclusão do design inteligente no currículo das escolas públicas de Kansas. Seus "adeptos" são chamados de pastafarianos (pasta [massa em inglês] + rastafarianos). (N. T.)

2- "O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento por sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. Aqueles que são acostumados desde a infância ao jeitão dele podem ficar dessensibilizados com o terror que sentem" (DAWKINS. Deus: um delírio. São Paulo: Compahia das Letras, 2007. p. 55)

3- No livro, Dawkins faz um apelo apaixonado contra a doutrinação de crianças em qualquer religião. Para ele, o simples fato de dizermos "criança católica" ou "criança judia" é uma forma de abuso infantil, comparável até ao abuso sexual, tão absurdo como falar de "criança neoliberal".




Portanto, senhores, poupem-me de suas crenças! Esqueçam-me nas datas religiosas! Não me enviem quaisquer tipos de mensagens, scraps ou apresentação de slides de cunho religioso! Respeitem minha razão e minha sensibilidade!


Um ótimo final de semana a todos!

7 comentários:

Vania disse...

Muita justa sua indignação e impressionante a argumentação muito bem formulada do autor do livro!
Parabéns pela postagem!

bjs

Anônimo disse...

Meu Neguin Fein, isto está meio em desacordo com o que você me disse em Floripa. Lá, você me disse que acredita em Deus e que crê em Jesus Cristo; só não crê que Jesus tenha sido o verbo encarnado, embora respeite suas filosofias. Também disse que o "seu Deus" é um Deus de felicidade, assim como o meu! Só não segue nenhuma religião por não acreditar nelas, mas crê em Deus!
Ou será que entendi errado?
Aquele abraço!

Edmilson Borret disse...

Pois é, Sílvio! Naquele tempo eu ainda tinha uma certa ingenuidade... Da ingenuidade, passei ao agnosticismo. Do agnosticismo ao ateísmo... E que sensação de liberdade agora, meu caro!!!!

Abraço pra vc também!

Katia Cristina disse...

Ed
Li tudo o que vc publicou, mas com certeza esse assunto para mim já deu!
Eu mesma escrevi meu pequeno protesto em meu blog.
Você, como eu, mora em uma região pobre e de gente com pouca instrução, portanto, um terreno fértil para a fé oportunista.
O que me incomoda mesmo é a tal da evangelização estimulada pela maioria das igrejas. “Ouça seus louvores alto para evangelizar um irmão”, “Distribua a palavra de deus para desconhecidos”, “Cite sempre as escrituras sagradas” e por aí vai...
O que eu sinto realmente que o grande “lance” é evangelizar e não seguir as escrituras, pois nem eles mesmos acreditam nelas, só as repetem.
E também já estou com meu saquinho o suficientemente cheio das pessoas que dizem que acreditam em deus e não são religiosas.
Ou como disse a minha mãe quando falei que ia fazer churrasco na sexta-feira santa: “Eu também não acredito, mas é uma tradição, não custa nada deixar de comer carne uma vez por ano”.
Se não for tomar muito de seu tempo dê uma passada em meu blog e dá uma lida no que eu escrevi, não é meu ponto final, mas não pretendo mais discutir esse assunto com mais ninguém, pois já percebi o mal estar geral que causa a possibilidade de admitir que se morre e que não se vai para o céu, ou de que quando se está sozinho não se está com deus.
Se deus é, como alguns disseram, algo que se sente, eu posso afirmar que eu não sinto.
No mais, vou, como falou a esplêndida Divina, me preparando para virar churrasquinho.

Divina disse...

Ed, meu amor, adorei!
Preciso ler esse livro, o cara é bom mesmo!
Ao contrário da Cátia, eu não pretendo parar não, pelo menos não enquanto eles não pararem: Eles reúnem munição de lá, eu reúno munição de cá. E acho que estou em vantagem: posso lutar com a munição deles, afinal, ela é terrivelmente eficiente contra eles!
O problema é virar a vilã de todas as histórias, mas já decidi: não vou calar minhas convicções!
Por que o faria: eles nunca calam as deles. (continuo sem conseguir usar o ponto de interrogação)
Valeu Edinho, obrigada pela solidariedade!

Luciene disse...

É... Estudo filosofia na primeira turma deste curso, lá na UFF, e tenho um professor de lógica que é tomista. Defendo a pluralidade de vozes, mas gostaria que a delicadeza fosse retribuída; ao contrário, encontro alguém que faz pouco caso de ateus, generaliza nossas mazelas científicas ao acusar todos os cientistas que defendem as pesquisas sobre as células-tronco de pensar somente no bolso e, sem propósito algum em sala, chama Morrisey de 'fresco'. Isso tudo além de ter aberto a primeira aula pedindo que identificássemos 8 falácias em um argumento a favor do aborto. Enfim, acho ótimo que todos possam usar sua voz em uma universidade federal, mas com o mínimo respeito às posições divergentes. Acredito na civilidade - ainda, por um fio - mas não tenho o dom argumentativo do Dawkings, o que lamento profundamente. Resultado da ópera: eu, atéia que nunca sentiu necessidade de ler um livro a esse respeito (nem Dawkins, nem Hitchens, nem Onfray), fui à uma livraria e saí com o Tratado de Ateologia do último. Nem li. Mas comprá-lo me fez bem, no momento. = )

Bom feriadão.

p.s.: Já estudei com professores do instituto de letras e me formei em ciências sociais e posso dizer que nunca me senti assim, em uma universidade federal. Será o curso? Ou serão os tempos?

Quem sou eu...? disse...

Já li esse livro é fantástico, também não gosto desse proselitismo cristão, é um saco.

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