Seguidores

10.1.07

Mono-logar

Vou me permitir, para o desespero dos gramáticos, reinventar a etimologia de monologar.



Não mais de mono ("único"; "sozinho") + logos ("palavra"; "discurso"). Modernamente, meu chiste etimológico vai considerar logar como o neologismo verbal a partir de login ("conectar", na linguagem da informática). Assim, logamos quotidianamente sós e aqui na rede trasmutamos o "mono" em "pluri", "multi". Mas, ironicamente, esse reagrupamento virtual da diáspora só tende a deixar mais evidente e ululante o isolamento do real. "Logamos" para buscar aqui na rede aquilo a que fugimos fora dela. Estamos nos encastelando em nossos quartos, escritórios e salas diante da telinha e o mundo lá fora parece se fazer mais virtual que o cibernético. Perdi uma amiga da minha lista do orkut. Ela abandonou o site de relacionamento com a seguinte justificativa: "O Orkut aproxima os que estão longe e afasta os que estão próximos". Talvez um pouco categoricamente radical sua assertiva, mas nem por isso de toda irrefutável. Perdemos a capacidade do abraço e do olho no olho. O toque assusta e incomoda. Assistimos atônitos e impotentes ao retorno à tribalidade e ao bairrismo. E isso em plena era da globalização! E talvez exatamente por conta dessa globalização... E isso é grave!
Fica, disso tudo, aquela sensação de que algo não foi dito, não foi sentido, não atualizado (no sentido de "tornar ato"), não foi concretizado. E assim, mais tarde, já velhinhos (ou talvez nem tão velhinhos assim) a gente vai perceber o quanto perdemos por conta desse nosso medo arraigado de encarar o outro, de abraçá-lo, beijá-lo, tocá-lo, sentar para escutá-lo, dizer-lhe de boca e pulmão cheios: "Porra! Como é bom poder ter você aqui comigo!!!" Mas aí talvez será tarde... E só nos restará cantar as palavras do Ivan Lins e do Vitor Martins:

Quando brotarem as flores,
Quando crescerem as matas,
Quando colherem os frutos,
Digam o gosto pra mim...

Digam o gosto pra mim...

Minha irmã me ligou há algum tempo no celular. Depois que coloquei a tal da internet sem limites, o telefone fixo aqui de casa não pára livre, vivo plugado na internet... Sim, minha conexão ainda é discada!!!!!!
Ela me ligou, a voz embargada, puta da vida e me disse as palavras mais duras que já ouvi em toda minha vida talvez. Perguntou-me como posso me esquecer de ir visitá-la, morando há apenas quinze minutos de ônibus. Como posso, em um ano de vida da minha sobrinha e afilhada, só ter ido vê-la 3 ou 4 vezes. Tentei argumentar que pouco tenho saído de casa depois da morte do meu grande amigo-irmão há alguns meses atrás. Mas, no fundo, eu sei que estava mentindo não só pra ela, mas pra mim mesmo. Aí ela perguntou por que ela não consegue falar comigo pelo telefone fixo e por que eu não ligo pra ela, já que pra ela é mais complicado por questões financeiras mesmo. Foi aí que a coisa fudeu de vez: disse-lhe que passava quase o dia todo na internet, no orkut e no msn, conversando com amigos. Senti que, do outro lado, o mundo dela pareceu desabar. E só então percebi a canalhice da minha atitude. Ela desligou dizendo que qdo eu achasse um tempinho entre tanta atividade social que eu fosse lá na minha antiga casa, nem tanto por ela, mas para ver minha sobrinha-afilhada crescer. E desligou chorosa. Fiquei mal pra caralho!!!! Veio-me imediatamente à mente aquela cena do filme Hair em que aquela negra canta lindamente uma canção em pleno Central Park coberto de neve, questinando o marido que a abandonou com o filho nos braços para ir se juntar a um grupo de hippies:

How can people be so heartless
How can people be so cruel
Easy to be hard
Easy to be cold

How can people have no feelings
How can they ignore their friends
Easy to be proud
Easy to say no

And especially people
Who care about strangers
Who care about evil
And social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd?
How about a needing friend?
I need a friend

How can people be so heartless
You know I'm hung up on you
Easy to give in
Easy to help out

And especially people
Who care about strangers
Who say they care about social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd
How about a needing friend?
I need a friend

How can people have no feelings
How can they ignore their friends
Easy to be hard
Easy to be cold
Easy to be proud
Easy to say no


O que me doeu não foram as palavras duras da minha irmã, mas ter me dado conta que ela está coberta de razão...

Um comentário:

Miriam Assunção disse...

Querido Ed,

É a globalização e a pasteurização. No virtual os conflitos minimizam-se. Dá pouco trabalho. Oh, Admirável Mundo Novo, Barbarella. Finalmente encontramos um meio de conviver pacíficamente. Somos gênios.

" O nosso amor a gente inventa pra se distrair, e quando acaba a gente pensa, que ele nunca existiu" (Cazuza).

Related Posts with Thumbnails