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10.2.07

A barbárie de nossa juventude transviada

O que pode haver em comum entre o filme Cama de gato, o caso do menino João Hélio Fernandes de 6 anos e o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos?


O longa de estréia de Alexandre Stockler, Cama de Gato, de 2002, segue alguns preceitos do movimento Dogma 95, dos dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier, preceitos esses que foram “abrasileirados” no que o diretor paulista batizou de Manifesto Trauma. Privilegiando uma atuação espontânea e natural, os atores parecem não ter recebido um roteiro prévio e a ação se desenrola livre de controle externo, como numa improvisação coletiva. Em Cama de Gato, o apelo sexual serve apenas para criar polêmica e chocar o espectador. Numa cena, o personagem interpretado por Caio Blat faz sexo oral numa colega de escola, com um realismo capaz de colocar em dúvida se na longa cena de estupro, praticado logo depois por ele e outros dois amigos, houve ou não penetração.

Cristiano (Caio Blat), Chico (Rodrigo Bolzan) e Gabriel (Cainan Baladez) são três amigos inseparáveis que se envolvem numa espiral de violência que só tende a aumentar pela completa incapacidade do trio em controlar seus atos. Eles não são assassinos por natureza, mas apenas três garotos mimados de classe média que cometem um crime e se complicam ainda mais ao tentar esconder a autoria.
Cristiano recebe a visita de uma colega, com quem planeja se divertir, sem que ela saiba que seus dois amigos permanecerão escondidos e se apresentarão para um “ménage” quando ela menos esperar. Mas a moça não concorda e acaba sendo estuprada pelos rapazes. Eles perdem o controle da situação e, ao final, percebem que ela está morta (na verdade, ela está apenas inconsciente, mas isso eles só viriam a descobrir mais tarde, quando ateiam fogo ao suposto cadáver para dar sumiço no corpo da jovem).
A mãe de Cristiano chega inesperadamente e o pânico toma conta do filho que tenta impedir que ela suba ao quarto e encontre o corpo da garota. Mas ela se assusta com a aparição repentina de um deles, rola a escada e quebra o pescoço.
Com dois cadáveres em casa, os desastrados amigos se culpam pelo ocorrido e tentam encontrar uma saída para a situação. Eles querem se livrar dos corpos, apagar todos os vestígios que os liguem aos crimes, e ainda encontrar um tempinho para ir a uma festa.
A história chega a parecer cômica por toda sua inverossimilhança. O filme pretende ser uma crítica ao atual estado em que se encontra o país.
Cristiano, Francisco e Gabriel são três jovens de classe média que moram em São Paulo, com a típica alienação juvenil dos dias de hoje. Todos com muitas frases feitas na cabeça e nenhum senso de realidade. Assim que terminam o ensino médio, saem pela noite paulistana em busca de diversão. O filme faz um retrato dos dilemas de uma juventude dos anos 90 e focaliza uma geração diante de um dilema: de um lado uma necessidade quase fisiológica de se divertir; de outro, uma preocupação contínua de se estabelecer em uma sociedade que oferece cada vez menos oportunidades. Na noite de horrores na qual os garotos mergulham, o entretenimento confunde-se com a violência, assim como a preocupação de se estabelecer na sociedade confunde-se com a tragédia humana.


Nesses dias atuais em que jovens arrastam até a morte um menino de 6 anos por 7 quilômetros preso pelo lado de fora ao cinto de segurança de um carro, após terem cometido um assalto; ficamos a nos perguntar para onde caminha a nossa juventude. João Hélio Fernandes foi barbaramente despedaçado, vítima da crueldade de dois jovens: um de 18 anos, outro de 16. O crime ocorreu na noite de quarta, 7 de fevereiro. Por volta das 21h, a comerciante Rosa Cristina Fernandes Vieites voltava em seu carro de um culto em um centro espírita, com os filhos João Hélio e Aline. Ao passar por um cruzamento na zona norte do Rio, foi abordada por dois homens - que mais tarde, presos, diriam à polícia que portavam um revólver de plástico. Rosa e Aline saíram rapidamente do carro, mas a mãe não conseguiu retirar o filho de 6 anos, que sofria de hiperatividade e tinha dificuldades motoras e de fala. No banco traseiro e com cinto de segurança, João Hélio tentava sair do carro quando os ladrões arrancaram. Ficou pendurado no veículo e foi arrastado por um percurso de sete quilômetros, com o carro em alta velocidade e pessoas na rua gritando para que o motorista parasse. Os pneus do carro passaram várias vezes sobre o corpo que ficou dilacerado, com vários ossos expostos e sem a cabeça. O próprio pai de um dos assassinos – Diego, de 18 anos – entregou o filho à polícia.


Bom, os autores de tão bárbaro crime não eram “filhinhos de papai” como os personagens de classe média do filme Cama de gato. O que não diminui em nada a culpabilidade e o caráter hediondo dos atos de Diego e de seu comparsa menor de idade. Mas, gostaria de levar os leitores desse blog a refletir acerca de um e-mail que recebi hoje, onde é questionada a culpabilidade de nossos jovens consoante sua posição social e o seu poder aquisitivo. Assim como no filme Cama de gato, houve há alguns anos atrás um outro crime bárbaro que chocou a nação: um índio foi queimado vivo por jovens de classe média alta em Brasília. E hoje todos eles estão aí livres, sem terem pagado por seu crime também hediondo. Segue o texto do e-mail que recebi:


“Os autores do monstruoso crime que resultou na morte brutal de um menino de seis anos no Rio devem ser colocados lado a lado com os rapazes de classe média alta que há cerca de dez anos queimaram vivo um índio morador de rua em Brasília. Os dois grupos merecem a mesma execração pública, o mesmo tratamento inclemente da mídia e a mesma punição da justiça. Os pais dos rapazes de Brasília, em vez de ficarem usando de artifícios espúrios para descolar empregos públicos com salário inicial de R$ 6.000,00 para seus filhos criminosos (que deveriam estar cumprindo pena), devem mirar-se no exemplo do porteiro que denunciou o próprio filho à polícia no caso ocorrido no Rio. Ou será que o crime de Brasília foi menos monstruoso e menos estarrecedor que o daqui? E alguém ainda acredita que o crescente clima de violência que apavora as cidades brasileiras vai ser resolvido punindo-se apenas aqueles que já nascem castigados por um esquema cada vez mais excludente, cada vez mais injusto, cada vez mais concentrador de renda?”

(Jaime Coelho)



Não tenho a mínima idéia de quem seja Jaime Coelho. O texto, como eu disse, me foi repassado por um amigo via e-mail: mas, sem dúvida, o mesmo nos leva a pensar numa série de coisas que estão erradas nessa nossa sociedadezinha de merda.


Baader-Meinhof Blues
(Legião Urbana)

A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais
E você passa de noite e sempre
Vê apartamentos acesos
Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também
Andando nas ruas pensei que podia ouvir
Alguém me chamando, dizendo meu nome
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão démodé
Ô ô ô
Essa justiça desafinada é tão humana e tão errada
Nós assistimos televisão também, qual é a diferença?
Não estatize meus sentimentos
Pra seu governo, o meu estado é independente
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão démodé


2 comentários:

Mônica disse...

Eu me sinto tão impotente e tão idiota nessa porcaria de mundo ,nessa droga de país...ao saber da morte de João Hélio,como foi ,porque foi,enfim...não há sentido para nada.Sinto-me uma bosta de pessoa dentro do ridículo da minha vidinha cotidiana e como mais uma das pessoas dessa sociedade inerte e assassina que não faz nada!!
Nada para impedir mortos nos sinais,dedos arrancados ,corpos dilacerados no asfalto,pessoas inutilizadas em hospitais,corpos no IML,violência,violência,
violência...
Pedintes;favelas infladas de pessoas sem perspectiva;condomínios acuados;meninos malabaristas nos sinais;policiais corruptos;pirataria;políticos...ah,os políticos,e ainda tem os que votam...toda essa titica arremessada bem na nossa cara omissa pelo sangue do João Hélio...
Naquele dia eu me senti menos humana,me agarrei ao meu filho que tem problemas semelhantes ao do João,tem a idade dele e percebi com clareza que eu só faço planos para o futuro,que finjo que sou cidadã,afinal eu leio , me informo,acesso internet,assino jornal e revista:eu sou uma merda de mãe que não luta para um mundo melhor para o seu filho.Luta por um futuro,mas que futuro?
Enq2uanto lutarmos apenas por NOSSOS FILHOS vamos condená-lo ao isolamento, ou pior: morrer dilacerado por essa sociedade egoísta e assassina.
É incrivel que o meu comentário seja o primeiro,hoje,dia 22 de fevereiro,nenhum comentário!!!
Não há mais nada a dizer mas a fazer.Por favor façam.Eu já estou fazendo...

Mônica disse...

Perdoem-me os erros de concordâcias e de sei lá mais o que...mas o calor da emoção falou mais alto.Apesar dos erros,não retiro nada.

Que possamos ser pessoas melhores do fomos até aquele dia e que a nossa omissão não mate mais ninguém.

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