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27.3.07

Os hyperlinks do coração... Homenagem ao amigo Othoni.


Vamos criar hyperlinks para o nosso coração e visualizar numa nova janela, de afeição e carinho, o que podemos ter de melhor. Vamos acessar novas possibilidades sem abrirmos mão de algumas antigas. Vamos selecionar o que de novo e bom aparecer nessa nova janela, copiar e colar em nossas memórias. Não vamos fazer dessas novas aquisições arquivos temporários.
O coração, metafórica e metonimicamente, é o músculo involuntário mais voluntário que conheço. Ao mesmo tempo que ele bate por si só, ele bate o que a gente decidir que ele bata. E aí estão os hyperlinks que podemos criar. Uma vez li que, para a tradição semita, o coração é conhecido como um “girador”. O que primeiro poderíamos inferir dessa associação é que o homem seria um ser volúvel e inconstante, voltando-se pra cá e pra lá, ao sabor dos ventos caprichosos de seus impulsos repentinos. Pois, para muitos de nós, o ato de “girar” estaria ligado a disfunções e desvarios mil: “gira” é a pessoa adoidada, amalucada, “biruta” (biruta, como se sabe, é aquele pano cônico dos aeroportos que gira ao sabor dos ventos). Também o famoso insulto “babaca” remete em sua origem - ao contrário do que muitos sacanamente acreditam - ao verbo tupi babak, que significa simplesmente “girar”. Se para muitos, porém, esse “girar” está associado à anormalidade, para essa tradição semita não: o oscilar-se seria a função normal do centro de gravidade do homem: o coração. O girar, o oscilar, o virar... virar a página – eis aí o hyperlink!!!
O árabe aprofunda ainda mais essa questão. Nessa língua linda, literalmente, a palavra para coração, qalb, deriva diretamente de qalaba, que significa “girar”. Para a ocidentalidade, é comum a observação que a condição “normal” do homem anda meio desregulada e que sua bússola, o coração, não pára quieta:

“The heart is like the sky, a part of heaven,
But changes night and day, too, like the sky”

(Lord Byron)

Ainda que sem a associação imposta pela língua (como ocorre no árabe), nossos poetas, vez ou outra, apontam essa característica “giratória” do coração. Assim, em Autopsicografia, após descrever belissimamente os vai-e-vem e reviravoltas a que está sujeito o poeta, Fernando Pessoa conclui:

“E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.”


E em Roda Viva, de Chico Buarque:

“Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração”


E numa surpreendente coincidência com o espírito da língua árabe, diz a canção de Kleiton e Kledir:

“Ah! Vira, virou
Meu coração navegador

Ah! Gira, girou

Essa galera”


García Lorca tem um poema dedicado ao coração-girador. O título bastante sugestivo, Veleta, significa não só cata-vento, mas, metaforicamente, “persona inconstante y mudable”. O poeta, desiludido, dialoga com os ventos: todos chegaram tarde demais e a “veleta” deve, afinal, girar sem ventos...

“Las cosas que se van no vuelven nunca,
todo el mundo lo sabe,

y entre el claro gentío de los vientos

es inútil quejarse.

¿Verdad, chopo, maestro de la brisa?

¡Es inútil quejarse!

Sin ningún viento

¡hazme caso!

gira, corazón;

gira, corazón.”


Mas por que falar de coração justo hoje? Por que considerar o seu movimento giratório como possibilidade de hyperlinks? Porque hoje, exatamente hoje, um grande amigo querido lá da comunidade orkutiana Ame e dê vexame está numa mesa de cirurgia para consertar o seu girador. Os médicos lhe estão criando hyperlinks novos, não tão metafóricos, mas ainda assim possibilidades novas para o seu girar. Ao Othoni, esse nosso grande amigo, dedico esta postagem de hoje. Rezando para que tudo saia bem e para que ele possa em breve estar conosco de novo lá na comunidade.

Mas aproveito a postagem também para insistir na idéia do hyperlink e da possibilidade de se verem as coisas por uma nova janela. Não sendo embora um crente, um cristão de fé, mas enquanto apreciador dos belos textos, recorro a uma passagem bíblica para propor que o grande “giro”, a grande reviravolta do coração humano, só ocorrerá quando se cumprir, como condição prévia, o bom funcionamento de um outro órgão: o ouvido: “Ouvireis, ouvireis, mas não querereis compreender; porque o coração está embotado” (Mt 13, 14-15).

7 comentários:

katia disse...

Ed, eu não sabia!! Adoro o Othoni!! Estarei orando para a deusa protegê-lo

Celeste disse...

Muito lindo o que vc escreveu sobre o coraçao, que gira!
Esperamos que o coraçao do Othoni continue a girar como sempre girou, porem na perfeita saude!
Beijos!

Dea disse...

Othoniiiiiii!
QUe bom que retornastes.... É incrível como o coração, metafórico, é capaz de de nos unir aqui na net. Vc, sem dúvida, é muito especial...
Grande beijo

Ed!
Só ratifica suas boas qualidades! QUe demonstração de carinho e amor!
Beijos, querido!

Filomena disse...

Lindo mesmo!Apenas quem escreve com o coração como você é capaz de escrever algo assim.
Bela homenagem ao nosso amigo Othoni,e o recado bem mandado nas entrelinhas.Muita classe!!

Anônimo disse...

Excelente texto, mermão! Creio que servirá como aditivo e lubrificante para o girador de nosso amigo.

Silvio disse...

Excelente texto, mermão! Creio que servirá como aditivo e lubrificante para o girador de nosso amigo.

Miriam Assuncao disse...

Querido Ed,

Adorei. Tenho certeza que o Othoni ficou emocionado com o carinho e amizade.
Você é um "serzinho" especial sabia? Como os poetas, escreve com a alma.

Beijo carinhoso.

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