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11.4.07

Sem medo das gentilezas do coração... Feito louco pelas ruas...

Há exatos 90 anos, no dia 11 de abril de 1917, nascia José Datrino, o "amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento", ou simplesmente o Gentileza. Anos depois, no dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, houve um grande incêndio no circo Gran Circus Norte-Americano, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo. Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças. Na antevéspera do Natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. Pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói. Aquela foi sua morada por quatro anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "José Agradecido", ou simplesmente "Profeta Gentileza".
Após deixar o local que foi denominado "Paraíso Gentileza", ele começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970, percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar".
A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras do viaduto com inscrições em verde-amarelo, propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. Durante a ECO-92, colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a gentileza e a aplicarem gentileza em toda a Terra. Seu lema: "Gentileza gera gentileza."

Nesses tempos estranhos, de sentimentos estranhos, de atitudes estranhas, pode soar estranho um sujeito estranho numa túnica estranha, de cabelo estranho falando de uma coisa tão estranha quanto gentileza. Estranhos, entretanto, somos nós que fazemos desse estranhamento a regra, e não a exceção. Estranhos somos todos nós para os outros. Estranhos são todos os outros para nós. E assim vamos nos estranhando, nos desconhecendo, nos perdendo nas terras estranhas do nosso dia-a-dia, estabelecendo as fronteiras do nosso metro quadrado diário, exigindo passaporte e visa de quem nele ousa penetrar. Estranho e equívoco é o contato esboçado e não realizado, é a palavra ensaiada mas reprimida... De qualquer maneira, não sei se a estranheza do mundo tem jeito. Nós temos. O pronome "nós", nesse mundo estranho, compreende, quando muito, o núcleo familiar. Como esperar, então, que haja gentileza para com o outro, se o pronome "nós" não consegue nem perceber o outro? Aí então, deixa de ser um pronome para virar um substantivo plural. Substantivo esse cada vez mais difícil de se desatar... e daí todo o estranhamento. Proponho, como forma de anular tal estranhamento, a palavra franca, o toque, o abraço... O que me fez lembrar do meu amigo Othoni que, na comunidade Ame e dê vexame, faz um jogo de palavras com "abraços" e "há braços"... Ao que eu respondi:

Há braços. Há pernas. Há bocas. Há olhos. Há nervos e músculos e sangue e suores e sêmen. Há de certo sentimentos. Há palavras a traduzi-los. Há equívocos a interpretá-las. Há dores, portanto...
Há dias sim, há dias não... Adias o quê no coração?


Há braços, há todos!




Feito louco
Pelas ruas
Com sua fé
Gentileza
O profeta
E as palavras
Calmamente
Semeando
O amor
À vida
Aos humanos
Bichos
Plantas
Terra
Terra nossa mãe.

Nem tudo acontecido
De modo que se possa dizer
Nada presta
Nada presta
Nem todos derrotados
De modo que não dê pra se fazer
Uma festa
Uma festa.

Encontrar
Perceber
Se olhar
Se entender
Se chegar
Se abraçar
E beijar
E amar
Sem medo
Insegurança
Medo do futuro
Sem medo
Solidão
Medo da mudança
Sem medo da vida
Sem medo
Das gentileza
Do coração.

Feito louco pelas ruas...

(Gonzaguinha)

2 comentários:

Celeste disse...

Adorei!
Beijos

Edu Saviano disse...

Eu ouvia a musica da Marisa Monte sobre ele e naum entendi muito. Obrigado por mais essa fantástica aula, mon cher professeur!!!
Abraços!

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