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7.6.07

Nós, os poetas, erramos...

Sim, nós, os poetas, erramos... Isso é uma verdade mais do que sabida desde a antigüidade até os dias atuais. Falseamos a realidade, tombamos a beleza lá das Idéias aqui para as sombras, já dizia Platão, tentando escapar da caverna... Fingimos tão completamente que chegamos a fingir ser dor a dor verdadeira, cantava Pessoa... E, por sermos poetas, não aprendemos a amar, arremataria Cazuza em suprema clarividência...

Mas gosto muito da explicação de Lamartine Babo para o nosso erro... por rimarmos "os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem"... E a isso, eufemisticamente, passamos a chamar de licença poética... Mas tudo bem. Segundo o próprio Lamartine, "Jesus não castiga o poeta que erra"... Menos mal... Esse Jesus deve ser um camarada legal... Com toda certeza, deve ter sido poeta também... Aliás, eu prefiro acreditar que sim. Pois isso faz dele um sujeito bem mais interessante, passível de erros, de carne e osso como eu, chapa mesmo... Assim como Pessoa, "estou farto de semi-deuses"... ou de deuses...

Mas voltando à música do Lamartine, ela tem uma história bem interessante mesmo. A história é meio sui generis e dá conta dos erros e enganos próprios dos poetas. Não sei quanto de mito vai aí, mas diz-se que lá pelos idos dos anos 30, o teatrólogo e escritor Carlos Alves Neto quis formar um álbum , colecionando fotos de artistas do rádio, já que a maior diversão da época era ouvi-los. Passou, então, a escrever para os cantores, pedindo-lhes fotografias para sua coleção, sendo algumas vezes atendido e outras não. Percebendo que a maioria dos artistas que não respondia a suas cartas eram os homens, resolveu a adotar um nome de mulher para, enfim, alcançar seu objetivo. Passou, então, a usar o nome de Nair, sua pequena sobrinha, nas correspondências; inclusive nas enviadas para Lamartine Babo, pois daquela forma esperava conseguir a foto do artista, que despontava como ídolo no cenário nacional. Contam que Lamartine Babo sentia-se um homem solitário e tinha um enorme complexo de feiúra e, talvez por isso, ao invés de mandar a foto pedida, limitava-se em responder às cartas enviadas por Nair, sempre com pedido de que continuasse a escrever-lhe para suprir-lhe a solidão. Demonstrava, a cada dia, mais e mais afeição pela admiradora. Carlos Alves Neto até pensava em contar-lhe a verdade, mas isso só poderia acontecer se a foto fosse enviada. E finalmente, o tão sonhado presente para a sua coleção chegou. Deveria, então, acabar com a brincadeira que tomava proporções cada vez maiores. A idéia foi escrever relatando que Nair havia se casado. Porém, foi o próprio Carlos Alves Neto quem convidou o famoso "Lalá" para visitar a cidade, quando estaria lançando "Os Tangarás" , grupo musical que mostrou talento por vários anos. Imaginava que, naquela ocasião, pudesse contar-lhe toda a verdade sobre a história de Nair. Lamartine aceitou o convite e ansioso para conhecer a "sua Nair", foi recebido pelo grupo de rapazes liderados por Carlos Alves Neto, mas com a promessa de que seria-lhe apresentada a admiradora no baile. Naquela oportunidade, tudo seria esclarecido. No entanto durante a festa, uma moça que dançava com Lamartine adiantou-se e contou-lhe toda a história. A decepção, falam, mostrava-se evidente na fisionomia do compositor. Mas não tão grande a ponto de ficar zangado com Carlos Alves Neto, amigo que o recebeu outras tantas vezes em Boa Esperança. O que importa mesmo é a bela canção que nasceu desse equívoco. Uma das suas mais belas composições, gravada por diversos intérpretes e até hoje tocada pelos modernos, o inspiradíssimo samba-canção "Serra da Boa Esperança" mostrou-se propício a interpretações que vão do clássico (Orlando Silva, Sílvio Caldas, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, etc) ao inovador; especialmente com criativas mudanças harmônicas, como a versão instrumental que lhe deram César Camargo Mariano e Wagner Tiso, em 1983, e a vocal de Eduardo Dusek, em 1984, num reverente e belo resgate.

Com letra e música de Lamartine, "Serra da Boa Esperança" é um exemplo bem expressivo de sua arte, em que o poeta e o compositor se igualam em competência e bom gosto... apesar do equívoco original... Mas tudo bem, Jesus-poeta perdoa...


(Cidade de Boa Esperança, sul de Minas Gerais... a serra lá ao fundo)


Serra da Boa Esperança
(Lamartine Babo)

Serra da Boa Esperança esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem
Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus

Levo na minha cantiga a imagem da serra
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem
Serra da Boa Esperança não tenhas receio
Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar
Adeus

Um comentário:

Carlos Eduardo Ramalho disse...

Caro amigo
Devo dizer sem rodeios que você foi brilhante nesse texto ... desde a temática escolhida ao modo como se desenvolveu. Os poetas erram sim! Quanto a sua citação acerca de Jesus não poderia ser para mim mais propícia. Nunca pensei nele da maneira santificada e lembrá-lo como um poeta me faz sentir mais próximo dessa figura tão emblemática ...
Quanto às sombras da caverna ... será mesmo que não nos escondemos por detrás delas às vezes por medo ou comodismo em relação à "realidade" (?) ... é algo a se pensar!
Abraços

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