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23.8.07

NÃO EXISTEM HOMOSSEXUAIS

Caramba! E eu que sempre tive opiniões tão arraigadas, beirando o extremismo, sobre o assunto!!!! Após a leitura do texto que segue abaixo, estou fortemente inclinado a rever meu ponto de vista... É algo em que eu realmente nunca havia pensado. E que inveja, meu Deus! Esse é o tipo de texto que eu gostaria de ter escrito.

Agradeço do fundo do coração ao amigo que me enviou e possibilitou que eu o publicasse aqui no meu blog... Embora eu possa estar incorrendo em ato ilícito, por estar ferindo direitos autorais, vale a pena correr o risco... Até porque não deixo de citar o autor nem a fonte. Espero que o autor entenda...




NÃO EXISTEM HOMOSSEXUAIS

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do “homossexual” como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: “homossexual” é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o “homossexual”. Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em “arte grega gay” ou “arte romana gay”. E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de “estatuária gay”. A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse “homossexual”, sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um “homossexual” verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

(por João Pereira Coutinho)

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Fonte do texto

5 comentários:

Teté disse...

"Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão".
Ed, meu amigo, hoje, sem grandes comentários.Parabéns por mais essa.
Beijos reflexivos.

Dea disse...

Amei, Ed!

Comprei a briga e estou enviando aos meus amigos por e-mail!
Faço idéia, ou melhor, tento, como deve ser difícil sentir-se excluído!
Beijos oncotô???

Rafael Cezar disse...

As classificações atribuídas à arte, ao meu ver, não visam lhe aferir valor (assunto deveras problemático), mas simplesmente contextualizá-la: arte africana, arte medieval, arte erótica, arte brasileira, arte conceitual etc, etc. Possibilita abrir um espaço para determinada forma de expressão e assim dar visibilidade ao grupo que a produziu, aos seus conceitos e valores.

Há milênios a expressão das pessoas homossexuais, adjetivamente com quer o editor, enquanto homossexuais, é reprimida, violentada, anulada. Mesmo hoje, quando em determinados extratos da sociedade esta expressão é aceita, deve-se lembrar que tal aceitação é brutalmente minoritária. Expressar-se, classificar-se, valorizar-se, impor-se - substantivamente – como homossexual – é antes de tudo uma ação política contra a repressão, a omissão, o preconceito etc.

Ainda estamos muito longe de uma sociedade onde a opção sexual seja apenas um detalhe, ou melhor, uma circunstância.

A expressão homossexual incomoda a muitos heterossexuais, pois afeta áreas reprimidas da sua sexualidade. Afinal o que chamamos de nossa sexualidade (homossexual ou heterossexual), acredito, é apenas a parte menos reprimida

Isabel Goulart disse...

Concordo plenamente, Ed. Adorei o texto. Meu comentário pode até ser muito simples, mas sempre pensei o seguinte: por que quando sabemos que uma pessoa é "homossexual" logo a imaginamos fazendo sexo? E quando se fala em héterossexual imagina-se a pessoa trabalhando, pagando contas, levando o carro na oficina, enfim coisas do dia-a-dia?
Aí esse texto brilhante se encaixa perfeitamente. Elucida questões de uma forma muito lógica e é capaz de balançar a cabeça de muitos preconceituosos.
Quanto ao preconceito, não posso tentar explicar aquilo que não entendo.
PARABÉNS, MEU LINDO! CADA VEZ MAIS ME ORGULHO DE SER SUA AMIGA!

Luciene disse...

Li este artigo quando foi publicado na Folha. Peca pelo excesso, apesar das virtudes. Coisas muito diferentes são a crítica ao rótulo de uma obra de arte como 'homossexual' e a afirmação de que não existem homossexuais (ainda que neste sentido em que o autor emprega a lógica). E, veja só, no caso da arte a palavra estava sendo usada como um adjetivo. A ironia...Enfim, se levássemos a lógica do colunista às últimas consequências, também não deveríamos falar de 'homem' e 'mulher; ou de 'brancos' e 'negros'. Talvez devêssemos fazer como Crátilo e apenas apontar os entes e assobiar... = )

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