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9.11.06

Que porra de escola é essa que nos adoece?

Não sei se todos sabem, mas sou um professor de língua portuguesa da rede municipal do Rio de Janeiro. Bom, quando digo "sou" é porque ainda não fui educadamente convidado a me afastar definitivamnete da rede, uma vez que da sala de aula já estou ausente pra mais de 2 anos. É isso aí: sou mais um que engrossa a tão famosa lista de professores licenciados (aqueles, sabem, que muitas vezes são vistos como meros vagabundos que acharam uma maneira de ficar em casa sem fazer nada, mamando nas tetas do governo). Pois é, eu achei uma maneira bem eficaz mesmo: contraí uma tuberculose. Quase morri, é bem verdade, mas pelo menos posso me orgulhar de estar aqui coçando o saco enquanto meus colegas estão lá dando o sangue pelo magistério... Ai ai, como eu fui esperto!
Estava conversando hoje ao telefone com uma colega de profissão e ela me dizia:
- Ed, fica por aí mesmo. Não volta não. A coisa aqui tá feia.
- Como assim, tá feia? Pior do que estava quando entrei de licença?
- Pior, muito pior. Não sabemos onde isso tudo vai parar.
- Caralho! Assim, você até me assusta!
- Que bom! É pra assustar mesmo. Assim você não entra numa de brigar com a Perícia e insistir para voltar. Se eles quiserem te aposentar, aceita. Conselho de amiga...

Desliguei o telefone mais arrasado ainda do que já estava. Já tava puto com uma série de coisas que vêm me acontecendo nos últimos dias, e agora mais essa bela notícia. Então me veio à mente um artigo que li não sei onde sobre o tal do burnout, essa porra desse mal que anda assolando algumas categorias profissionais, sobretudo a dos professores. E então as idéias começaram a fervilhar nessa minha cabecinha de vagabundo, doente e licenciado. Depois do que essa colega me disse, comecei a pensar na fila interminável que tenho que enfrentar toda vez que tenho que ir lá na bendita Perícia do Município: putz! é professor a torto e a direito (sem trocadilhos, ok?). Mas, por que, afinal, tantos de nós adoecemos? na minha costumeira e conhecida prolixidade, tentarei expressar o que eu acho de tudo isso.
Para o senso comum, o conceito de saúde é a ausência da doença.
Mas, afinal o que é a doença? Podemos defini-la como alteração no corpo e na mente, causada por diversos fatores. Existem, é claro, inúmeras causas de doenças, mas, vamos nos reportar a algumas mais comuns da vida moderna e a razão pela qual somos acometidos com tanta freqüência por elas. A saber, as doenças relacionadas à atividade do trabalho, por exemplo: LER, decorrentes dos esforços repetitivos; pneumonia dos trabalhadores das minas de carvão; etc.
Antes de qualquer coisa é preciso gerar um grau de clareza e objetividade, para que o entendimento seja acessível a qualquer pessoa que queira se aplicar em saber um pouco além do que as situações atuais normalmente permitem. Somos todos semelhantes no Físico, todos temos uma Mente como instrumento que permite que a Inteligência enfoque pontos de referência (idéias) no cérebro, mas primordialmente somos uma Consciência que pode ser atuante em qualquer idade. Quando o organismo, como um todo, apresenta um estado de equilíbrio em suas reações químicas e em seus níveis de energia, experimentamos uma sensação agradável que corresponde à perfeita harmonia no funcionamento dos conjuntos de órgãos como Sistemas e Aparelhos. Temos então uma condição que poderíamos denominar de uma experiência de saúde. Se tomamos consciência de situações que provocam emoções conflitantes e que resultam em sensações desagradáveis de desconforto, como tristeza, amargura, medo, incerteza, insegurança e que geram estados de tensão na consciência, experimentamos um desequilíbrio energético que pode ou não evoluir para uma sensação ou sintoma desagradável como uma dor de cabeça, uma gastrite, uma colite, e essa é uma experiência não saudável. O importante é perceber que se a nossa consciência não passa por tensões e se permanece em um estado de equilíbrio que podemos denominar de um estado de paz, seja superficial ou mais profunda, não há desequilíbrio energético nem desequilíbrio nas reações químicas e a experiência de saúde permanece. Inversamente, se tensões na consciência mantém o desequilíbrio, mantém-se os sintomas e estes evoluem para uma doença declarada. Experimentamos então um estado de doença.
Esse início de texto pode parecer para alguns uma digressão meio sem sentido, mas é a partir dessa discussão que deveríamos questionar o quanto as situações conflitantes do magistério (nos níveis municipal, estadual, federal e, por que não, particular) estão contribuindo para esse desequilíbrio que caracteriza a doença.
Vivemos a tensão do dia-a-dia em sala de aula, onde nos deparamos com a falta de condições de um trabalho digno: o despreparo de nossos alunos; a superlotação das turmas; os baixos salários; a insalubridade do ambiente de trabalho; a falta de perspectiva de crescimento devido à ausência de um plano de carreira; o corte de benefícios e conquistas; as leis, decretos e resoluções que nos deixam de mãos atadas, vendo nossos alunos aprenderem cada vez menos em nome de um desempenho virtual e irreal que mascara suas reais deficiências.
Tudo isso nos cala fundo e nos marca justamente lá: na consciência – onde o desequilíbrio se instala e degrada. Mas, para os padrões da nossa Perícia na rede municipal de ensino, ainda não estamos doentes, uma vez que esse desequilíbrio no emocional ainda não evoluiu para os males acima descritos (dor de cabeça, gastrite, colite, etc.). Mais uma vez o senso comum impera: saúde = ausência de doença. E assim nos afundamos e nos atolamos cada vez mais em nossas idiossincrasias na maioria das vezes imperceptíveis mas já irremediavelmente indeléveis.
A pergunta do título deste texto, então, torna-se cada vez mais de fundamental importância: que porra de escola é essa que nos adoece? Que ritmo de trabalho é esse que provoca esse desequilíbrio nas reações químicas de nosso organismo e em seus níveis de energia, comprometendo a perfeita harmonia de seu funcionamento? E isso se quisermos nos ater somente a essa visão subjetiva da doença de que estamos tratando. Porque se partimos para a questão objetiva, aí a coisa piora sensivelmente. Em termos absolutos, podemos citar os males da insalubridade a que o professor está sujeito na sala de aula: os calos nas pregas vocais, os problemas de coluna, as varizes, a má circulação dos membros inferiores, os problemas de visão, além das doenças que muitas vezes nossas crianças trazem para o nosso convívio: as meningites viróticas, as tuberculoses, etc.
Finalizando, quantos de nós, professores, estamos doentes pelo exercício de nossa profissão e ainda não sabemos? Devemos esperar que as várias e prováveis patologias se instalem em nosso organismo para que possamos gritar por socorro? Será que essa nossa profissão tem que significar tal sacrifício e “sacerdócio” a ponto de não reagirmos a essas ameaças, por vezes latentes, mas muitas vezes mais do que evidentes?
Quer saber? É foda!

Um comentário:

Jo Milk disse...

Ok gostei do que li :-) passei para dizer um oi e que já me sinto um pouco mais brasileiro pois já estou a viver em Curitiba outra coisa : acho que deverias ler Cioran em versão VF claro Aphorismes de l'Amertume e a minha frase favorita : "je me sens comme une pute dans un monde sans trottoirs". Abraço - Jo

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